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Como será o amanhã? Ator e diretor Cristiano Fernandes responde

Leia o décimo primeiro texto da seção “Como será o amanhã?” com utopias para tempos distópicos

Por Tribuna

30/04/2020 às 06h55

Reza a lenda

por Cristiano Fernandes

Um dia veremos tudo parar!
Seremos impedidos de passear, de viajar, de ir à praia.
Seremos impedidos de trabalhar.

Não poderemos ir ao teatro, ao cinema, aos museus.
As escolas vão fechar. Os templos religiosos também.
As pizzarias, hamburguerias e lanchonetes estarão na lista.
O comércio todo fechará.

Dizem que vão permitir abrir as farmácias, os supermercados,
os hospitais, as padarias…
As praças públicas serão evacuadas. Gradeadas.
Parques também.
Ficaremos sem diversão, sem poder sequer sair às ruas.

A indicação irrestrita será a reclusão e o isolamento. Em casa.
Muitos de nós dirão:
Em casa? Mas como suportar as quatro paredes do lar?
Todos em casa, sério isso?
Teremos que conviver em família, 24h, por tempo indeterminado?
Como vamos suportar?
Lar? Lá eu como, bebo e durmo, quando consigo.
Lá é local de sair e de chegar. Não de ficar.
Estamos acostumados a lidar com a rotina do trabalho. O estresse do ir e vir.
O cansaço. A falta de tempo. Noites mal dormidas. Muito por fazer.
Sair cedo e chegar tarde. A tudo isso estamos imunes já. Há muito tempo.
Mas ficar em casa?
Arrumar o guarda-roupa?
Ler os livros que não conseguimos?
Ajeitar tudo no quarto?
Almoçar sem pressa?
Sentar-se à mesa com a família?
Não, não. Não vamos suportar.
Teremos que olhar para as pessoas? Perceber o outro, em sua individualidade?
Reaprender a respeitá-lo? Redescobri-lo como alguém, muito além de parente?
Quem fez isso conosco, por Deus?

Reza a lenda que, além disso tudo, aos poucos, todos começaremos a nos perceber melhor.
Sim, porque as proibições de circulação serão pra todos. Todos mesmo. Sem privilégios.
O olhar do outro ficará mais próximo do nosso. Esse outro que olhávamos muito pouco.
Olhávamos, mas não víamos. Esse outro chamado parente.

Os amigos? Todos serão virtuais, literalmente. Por tempo indeterminado.
Sem hora pra deitar, pra acordar. Sem olhar no relógio e ver que já passou a hora de ir.
Ir pra onde? Já estaremos.
Os afetos, os cuidados, os carinhos também estarão em xeque.
O mundo estará posto à prova. Como todas as nossas relações.

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Reza a lenda que tudo isso será causado por um terrível vírus que tomará conta do mundo.
Sim, não contei ainda. O mundo vai parar. Tudo por conta desse terrível vírus.
Mundo mesmo. Outras nações. Outros povos.

De volta ao começo. Ao seio da própria casa. Ao interior de cada um.
Seremos convidados a repensar em nós.
Nossos valores. Nossos pensamentos e desejos. Nosso eu.

O tempo, esse tesouro precioso da vida, será recuperado.
Ganharemos esse presente da vida. Teremos tempo. Muito tempo.
Tempo? Para que esse tempo?
Depois, bem depois, não se sabe ao certo quando, tudo poderá voltar ao normal.

Mas a lenda diz ainda que o maior desafio nosso não terá sido
computar os mortos ou estancar as contaminações.
Nem tampouco os cuidados extremos com a higienização de si mesmo e dos ambientes.
Não!
Isso não terá sido o maior desafio.

A maior provocação será deixar renascer o homem e a mulher, renovados.
Sim, será imperioso permitir-se ser outro.
Outro olhar, outro modo de se portar no mundo.
De se ver e de ver o outro.
De nos permitir mais plenitude para a vida.

Assim nos contam.
Assim reza a lenda.

Ainda bem que não acreditamos mais em lendas.

Cristiano Fernandes é ator, diretor e professor. Atua como supervisor de projetos de artes, cultura e cidadania da Secretaria de Educação de Juiz de Fora e é fundador e diretor do grupo Caravana de Histórias. Nasceu, vive e trabalha em Juiz de Fora.

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