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Como será o amanhã? Escritor Ulisses Belleigoli responde

Leia o texto de estreia da seção “Como será o amanhã?” com utopias para tempos distópicos


Por Tribuna

15/04/2020 às 06h55- Atualizada 15/04/2020 às 19h26

Náufragos

por Ulisses Belleigoli

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_ Vê se meu cabelo tá bom?
_ Tá sim, vó.
_ E a roupa?
_ Também, vó.
_ Você acha que eu devo passar batom?
A neta largou um pouco o celular e foi pegar o batom. Quando ela voltou, a avó riu. A neta sempre escolhia o batom roxo. Gostava da combinação de cores: a pele preta, o cabelo branco, a boca roxa.
_ Vó… a senhora tem certeza que quer fazer isso?
O questionamento da neta fez a avó hesitar. Não tinha certeza. Nunca havia feito aquilo, nunca havia pensado em fazer. Mas algo em si dizia que ela precisava tentar, precisava pedir.
_ Vamos gravar logo _ ela quis espantar a dúvida. _ Se ficar bom, a gente põe na internet. Você põe na internet, não põe?
_ Claro, vó. Onde você quer que eu poste?
_ Na internet, ué.
A neta pensou em explicar sobre redes sociais e outras coisas, mas desistiu. Achou que era melhor começar.
_ Então vamos lá? Na hora que eu fizer assim _ ela fazia sinal de positivo com a mão _ você pode começar a falar.
A avó respirou fundo. Ajeitou mais uma vez o cabelo e ficou aguardando o sinal da neta, que veio acompanhado de um sorriso.

_ Oi, gente. Eu tô gravando aqui pra vocês é pra falar do vírus corona. Eu vi uma médica falando ontem no jornal que esse vírus ataca muito o pulmão da gente. Que ele entra e vai ocupando tudo. Por isso que dá a falta de ar. Mas o pior que ela falou é que as pessoas que ficam com o vírus vão ficando tão sem ar, tão sem ar, que parece que elas estão afogando. Que quem morre com esse vírus morre igual quem morre afogado, o ar vai acabando. Que tristeza… já pensou? Ai… É por isso que eu tô vindo aqui. Porque eu já quase morri afogada quando era menina. Fui engolindo água, engolindo água, ninguém me via, aí eu não conseguia mais respirar. Achei que ia morrer naquele dia. Mas não morri, graças a Deus. E hoje eu tô aqui, ó, velhinha. Mas o que eu quero falar pra vocês, da internet, é que é muito ruim morrer afogado. Imagina? Sem respirar! Você puxa o ar pra dentro, mas o ar não entra. Que agonia! Não gosto nem de pensar, Deus me livre! É por isso que eu vou pedir pra vocês pra gente lutar contra essa praga, gente, contra esse vírus corona. Não vamos deixar ele afogar a gente. Vamos ficar sossegado em casa, ajudar as pessoas que precisam, os que não têm dinheiro principalmente. E tem que lavar a mão, gente, e passar álcool nas coisas, e usar a máscara, fazer as coisas tudo direitinho. Pra gente não se afogar. Afogar é muito ruim, gente, acredita em mim. Afogar é a pior coisa.
Os olhos da avó se encheram, e a neta parou de gravar. Um desespero estranho invadiu a sala da casa, quase como a água invade os barcos durante uma tempestade.
_ Vozinha, vem cá. Não precisa chorar. Vai dar tudo certo. Tá todo mundo se ajudando, vai dar tudo certo.
Havia algumas mentiras na fala da neta, mas isso não era importante, não naquela hora. Ela abraçou a avó e chorou um pouco também, muito silenciosamente.
Depois de um tempo, a avó perguntou:
_ Na internet todo mundo vê, né?
_ Não é todo mundo que vê, vó. Mas um monte de gente vê.
_ Até nos outros países?
_ É, vó… mas nos outros países eles falam outras línguas, não vão entender nada do que a senhora tá falando.
A avó riu um pouco.
_ A gente não pensou nisso, né?
_ Mas o mais importante, vó, é que aqui no Brasil um monte de gente vai ver.
_ Eles vão me ver chorando? _ ela pareceu preocupado com isso.
_ Eu posso tirar o finalzinho, você prefere?
_ Prefiro. Não gosto de aparecer chorando.
Naquele mesmo dia, a neta postou o vídeo nas suas próprias redes sociais. Não cortou a parte do choro, mas a avó não se aborreceu. O apelo foi visto por milhares de brasileiros. Depois disso, ganhou legendas e o mundo. Viralizou.
Dizem que aquele foi um dos pontos de virada no combate à COVID-19, pandemia que ameaçou avassalar o mundo no início do século XXI.
Talvez aquela avó, com a sua boca roxa, tenha apenas traduzido algo do qual todos já haviam, em algum momento, se convencido: de que morrer afogado era mesmo uma coisa muito ruim.

Ulisses Belleigoli é jornalista, psicanalista e escritor, autor de, entre outros, “Dom” (Funalfa Edições, 2010), “O canto da princesa Rubra” (Funalfa Edições, 2014) e “Homo sapiens erectus” (Funalfa Edições, 2016). Nasceu, vive e trabalha em Juiz de Fora.

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