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Como será o amanhã? Dramaturgo Felipe Moratori responde

Leia o oitavo texto da seção “Como será o amanhã?” com utopias para tempos distópicos

Por Tribuna

26/04/2020 às 06h55

Eu vou ser velho um dia

por Felipe Moratori

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Acordei velho e limpo.
Teve um dia, pertinho de completar trinta e dois, que eu escrevi aos meus companheiros de copo, de carne e de cama, através do maior jornal da cidade, um anúncio poderoso:
“Eu vou ser velho um dia.”
Um velho taurino, ainda homem do teatro, rabugento, encharcado de mundo.
Conhece velhos cheios de mundo? Desses que não se aguentam de beleza vivida e ficam compartilhando histórias irrecusáveis?
Acordei assim, limpíssimo e centenário. Com cheirinho de vô, todo enrugado. Os pelos no ouvido coçando a surdez. O buraco na gengiva puxando sabores imaginários. E a cara. Ai! A minha cara! Cheia de caminho.
Porém limpo. Um cacareco de homem limpo. Tartarugão carismático, porém rabugento (não esquece).
Dono de uma velhice purificada de quem se sujou de amores, ensinou coisas úteis e inúteis e aprendeu ensinando tudo aquilo. De quem passou adiante velhas canções que aprendeu com os pássaros. E tocou sanfona, e se tocou sobre aquelas falsas notícias polêmicas, e mandou foto pelado se tocando.
Uma criança duradoura que sentiu medo tantas vezes e errou e não soube errar e aprendeu a errar e dançou com o erro.
Um resto de gente, revisitado, que uma vez agrediu quem ele amava, mas soube pedir perdão no prazo. Que teve medo do abandono e quis o carinho dos pais quando eles já não estavam mais aqui. Que teve catorze cachorros, não ao mesmo tempo, claro, e se esqueceu do nome de alguns.
Um velho homem que reinventou suas formas de ser homem a tempo! Que teve o privilégio de ser confrontado pela sabedoria das mulheres e entregou a linha reta do seu conhecimento para que elas o espiralassem. Que teve grandes amores, uma relação a três (isso, ao mesmo tempo, em justo e bonito acordo) e jamais esqueceu o nome de nenhum deles.
Acordei velho e limpo.
Porque ontem, um pouco antes das vinte e duas horas, a poderosa mulher, a morte, ela mesma, subiu até aqui no sétimo andar, faxinou meu apartamento e me deu aquele banho. Uma grande companheira, que se tornou minha conhecida quando fiz o anúncio no jornal aos meus chegados, há mais de setenta anos. Além dela, pouca gente leu. Mas eu até que fiz dois colegas novos, curiosos com aquele anúncio.
O quê? Essa nossa amizade começou nada amistosa, pois lá atrás eu julguei os seus passos, maldisse o que ela andava fazendo. Fiz fofoca sobre ela, espalhei mentiras por não a compreender.
A maioria até hoje é muito ignorante com ela e sobre ela. Muitos a ofendiam com intraduzível grosseria. Outros, como eu, espalhavam bobagens, mas ela sempre soube lidar como ninguém com os seus haters. Aos poucos é que fui entendendo o quanto ela é generosa, porque é aberta a acordos.
Seus amigos ganham presentes. Os mais próximos ganham faxinas na casa. E ela, como qualquer criatura profundamente antiga, guarda os seus favoritos. Descobri que são muitos os favoritos, passei anos lidando com o meu ciúme. É que esses, os favoritos, passam a ganhar banhos dela depois de certa idade.
Eu achava que era só eu. Coitado de mim com minha burrice egocêntrica. Mas a gente se sente especial quando alguém de tamanha grandeza se importa com a nossa existência. Ou simplesmente nos escuta alguma vez que seja. E ela me leu.
Não me lembro ao certo o que acontecia no mundo quando ela se aproximou. Acho que um tipo de vírus trazido da Europa ou de mais de lá. Lembro é que fiquei isolado nesse apartamento. Recordo que era regra do prefeito ficar em casa, mas muita gente, mesmo assim, saía, e ela debochava de cada um deles.
O que me lembro bem daquela época foi a sensação de dar os primeiros abraços depois do isolamento, de comer de novo a comida da minha mãe, de ver meus cachorros, meus sobrinhos, de encontrar o pessoal do teatro, de sonhar com as próximas subidas no palco e, claro, reencontrar meus amores.
Sei que ali eu pude conhecer mais de perto essa poderosa mulher. Setenta anos! Quem diria. E nosso acordo foi que eu não deixasse de ganhar o mundo. E que, enquanto eu compartilhasse o mundo ganhado, ela ia estar atenta para me ouvir e me aplaudir. Certa vez, fez questão de me contar que estava sempre na plateia, eu que não a via.
Faz uns anos que ela tem vindo até aqui arrumar meu cantinho certas noites. A cada banho, eu fico pensando se não é o último. Hoje à noite, talvez seja.
Preciso terminar a peça que estou escrevendo pra ela. Acho que é por isso que ainda estou aqui. Será? Mas agora só me resta aproveitar mais um dia que desperto assim, limpo, e me sujar mais um pouquinho tocando o mundo.

Felipe Moratori é ator, diretor, dramaturgo e escritor, autor de, entre outros, “Cordas cor de ais” (Funalfa Edições, 2014) e “Duas peças” (Giostri, 2015). Nasceu, vive e trabalha em Juiz de Fora.

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