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Como será o amanhã? Poeta Yuri Souza responde

Leia o sexto texto da seção “Como será o amanhã?” com utopias para tempos distópicos


Por Tribuna

23/04/2020 às 06h55

 

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Utopia

por Yuri Souza

O encontro da cor quente com a cor fria. A casa, sem nenhuma argamassa de reboco, só lhe resta o laranja, e o céu, sem nenhum reboco de nuvem, só lhe resta a cor azul. A utopia do morador é, depois de trabalhar por 30 anos, conseguir casa e carro. Quando falo a palavra “carro”, entenda: um automóvel usado, antigo e com motor que nem chega a mil cilindradas. Quando cito a palavra “casa”, também não estou me referindo a uma maravilha arquitetônica feita por arquitetos italianos com um visual futurista. Aqui, é habitual ver amigos com pouca idade enfeitados com algodão na boca e nariz, mas, em contrapartida, ver também que tem um grupo (Coletivo Vozes da Rua) que faz com que essa mazela não prevaleça. Afinal, como eu resumo bem em um verso falando sobre a Zona Leste: “vejo, no Santa Cândida, vários João Cândido e, no arado, o solo arado de sangue, e isso é vice-versa”. E é a partir desse lugar que eu falo.
Vivemos em uma total distopia, e parece que tudo piorou com a chegada da Covid-19. Já se percebe por aqui impactos ainda leves, como o caso de filhos de diaristas tendo um contato constante com suas mães, por conta da quarentena. No Brasil, atenção dos pais é privilégio, basta ver que homens e mulheres saem cedo e voltam tarde da noite e, quando chega o final de semana, têm pela frente roupa e casa pra limpar.
Falo do exemplo da diarista, pois sendo também filho de uma e vivendo essa experiência, percebo que, nessa quarentena, o que teremos é apenas um ao outro e, baseado nisso, temos que ter uma empatia e solidariedade nessa relação. Pois notícias do aumento da violência doméstica e de compras desenfreadas em supermercados, sem raciocínio algum, só mostram que essas qualidades humanas estão em falta. Aqui, se por um lado vemos um grupo seguindo as ordens de ficar em casa, por outro lado há ainda pessoas descrentes de que isso seja um problema real que a gente tem, pois no exato momento em que escrevo este texto, 01/04 às 15:43, há na rua crianças brincando e andando de bicicleta, comércios funcionando normalmente e pessoas batendo papo.
Esse aumento na circulação de pessoas se deve ao pronunciamento irresponsável de nosso presidente. A irresponsabilidade dele tem a ver com essa situação, pois essas pessoas também não deixam de ser irresponsáveis. Por isso, empatia e solidariedade é uma utopia para mim e mantenho a esperança nessa utopia.
Mas, afinal, você deve se perguntar: “O que é esperança?”. Usando um exemplo, esperança é: Imagine duas pessoas em um ambiente escuro, uma está de olhos fechados e a outra de olhos abertos. Há diferença entre elas. Uma já se rendeu àquela situação, e a outra mantém os olhos abertos para encontrar nem que seja um fiapo de luz. A esperança é a segunda pessoa. Que a gente nessa situação mantenha os olhos bem abertos. Que sejamos realistas e exijamos o impossível.

Yuri Souza é poeta e integrante do coletivo Vozes da Rua. Nasceu, vive e trabalha em Juiz de Fora.

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