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Como será o amanhã? Escritora Bianca Dias responde

Leia o quarto texto da seção “Como será o amanhã?” com utopias para tempos distópicos


Por Tribuna

19/04/2020 às 06h55

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A contagem de mortos é sempre imprecisa

por Bianca Dias

Vemos no noticiário o número crescente de mortos e casos confirmados. São estatísticas que nada revelam além da técnica. Como bem escreveu o poeta Daniel Francoy, a contagem de mortos é sempre imprecisa. Nunca se sabe o que se perde numa morte, o incomensurável de cada vida.
Hoje fui nocauteada por uma cena: um cemitério com centenas de covas abertas, à espera de mortos. Visão de um real atordoante que, pela brutalidade, nos silencia. Qual a dimensão do sonho depois dessa imagem? Foi Adorno quem disse que “escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro”.
Lembrei do trabalho de Christian Boltanski, um artista que faz do silêncio do trauma algo vivo, que toca questões da vida, da morte, do vazio e do horror, ao mesmo tempo em que aposta na marca única de cada um. Diante da imagem das covas abertas, das vidas sem nome arremessadas ao fim, respondo a partir da arte, aquilo que nos faz caminhar da impotência ao impossível.
Numa espécie de anti-monumento, Boltanski arquiva batidas de coração de várias pessoas, colhidas pelo mundo. Numa ilha deserta do Japão, ele eterniza as filigranas dos ruídos que cada pessoa deixou no mundo. A obra “Arquivos do coração” me parece ser uma imagem que pode pulsar na contramão da imagem atordoante de túmulos à espera de corpos sem existência, números para a conta macabra que sempre será inexata e inespecífica naquilo que há de radical em cada vida.
Como sonhar com o amanhã após uma ferida de extensão incalculável? Como contar números que não podem ser contados? A ficção _ a possibilidade fina de contar _ é o ponto fulcral que determinará a saída, sempre única, para cada sujeito.
No gesto de Boltanski há uma chama poética e política que não descarta o insondável de uma única vida. Sua obra é cernida a partir de ruínas com marcas da guerra que atravessa o fato de ser judeu. A catástrofe que atravessou sua vida agora chega de outra forma: uma pandemia mundial com incidências severas em todos os âmbitos. O artista preserva ruídos que nos ligam à vida, às batidas do coração de várias gerações, algo que se insurge no propósito de guardar as ruínas de um mundo. Batidas do coração são o sítio da vida, e também aquilo que dá notícias da morte.
Diante de uma ameaça invisível estamos, agora, ilhados do contato físico. Do vírus que não vemos colhemos os vestígios dilacerantes de um tempo. Certamente trata-se do fim de um mundo e da possibilidade, ainda trêmula, do surgimento de outro.
O amanhã existirá a partir da história que pudermos sustentar num mais além do horror, como uma inscrição de um acontecimento único e indivisível, não contabilizado na frieza dos números. Um trauma coletivo que nos convoca a um caminho do eu ao outro, pede resistência e constatação aguda de nossa fragilidade, demanda que possamos ouvir o coração e suas batidas que dão a ver o invisível de cada vida.
Somos vulneráveis e não há como diluir a espessura do sujeito em números. Para Italo Calvino, “cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente reordenado de todas as maneiras possíveis”.
Batidas de coração como resposta a covas abertas. Ruídos que interrogam sobre o que há de incomensurável numa vida, uma fagulha pulsante que permanece viva, mesmo depois da morte. Arquivar o mais radical som de um ser e ter numa ilha uma comunidade de corações como um grito, uma recordação ao que resta de vivo, uma convocação de “pequenas memórias” como uma impressão, uma marca que recorda agudamente do humano que há em nós. Lembra Boltanski: “Numa guerra não se matam milhares de pessoas. Mata-se alguém que adora espaguete, outro que é gay, outro que tem uma namorada. Uma acumulação de pequenas memórias”.
Na poeira da incerteza é tarefa ética inventar um mundo que ainda está por nascer, onde as vidas possam ser medidas em sua singularidade, onde a nomeação de uma existência encontre lugar para além de um gráfico ou de uma cova.
Se a fragilidade agora arranha qualquer narcisismo e estamos todos ameaçados, que possamos nos projetar num amanhã em que lembremos da frase de Jean-Luc Nancy, tão exata: “Não existimos sós. Ou antes, não há só que exista”.

Bianca Coutinho Dias é psicanalista, crítica de arte e escritora, autora do livro “Névoa e assobio” (Relicário Edições, 2017) e escreve ensaios e resenhas críticas para revistas de arte e literatura. Nasceu na cidade mineira de Descoberto e vive e trabalha em São Paulo.

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