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Como será o amanhã? Ensaísta Rosane Preciosa responde

Leia o 16º texto da seção “Como será o amanhã?” com utopias para tempos distópicos


Por Tribuna

10/05/2020 às 06h55

Eu não sei mesmo quando isso vai passar, mas …

por Rosane Preciosa

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Dia desses, li uma frase, que, cito de memória, e, por isso mesmo já devo tê-la adulterado. É essa aqui: fazer um pequeno sentido diário já é bom demais. Ela me pegou em cheio, porque baixava a bola de qualquer expectativa, que costumamos ansiosamente alimentar. E me parecia ajustar, neste momento de reclusão, diante de uma avassaladora pandemia, e uma sensação de enorme desamparo, diante de um governo inclassificável, nosso foco, de forma que os modos de funcionamento prosaicos da vida se convertessem no extraordinário nesse momento. Acordar-tomar café-varrer o chão da casa-cozinhar-almoçar-lavar louça-lavar banheiro- jantar- dormir, nosso mantra diário.
Vou me permitir ser muito pessoal e narrar, amparada pela ficção, mesclando com a vida real, um pouco como venho habitando esses dias, e lá se vão mais de 45 dias de viagem, uma espécie de viagem interestadual, eu diria, ao redor dos cômodos do apartamento que habito. E que sorte a minha de, nesse momento, desfrutar de 2 quartos, 1 sala, banheiro, cozinha e um terraço, que eu chamo de minha laje, que é coletivo, mas pouco frequentado pelos moradores. Das viagens de curta distância, eu me deparei com 3 pregos na lateral da pia da cozinha que eu nunca tinha visto, e que servem pra pendurar panos de prato, que até então decoravam os puxadores do armário. Foi também um surpresa para mim, a existência de uma simpática pequena aranha que mora atrás de um quadro, uma paródia de paisagem dos alpes suíços, assinado por Marcelo Sommer para a Tok Stok. Não a expulsei, deve se sentir uma legítima habitante daquele lugar cheio de neve.
A laje, um espaço descoberto e amplo, onde vou estender as roupas de cama lavadas, e lá permaneço satisfeita tomando sol, nos meus parâmetros atuais, corresponderia a viagens de longa distância: saio do apartamento e subo alguns lances de escada. De lá, sou capaz até de avistar a montanha Illimani, que me devastou de beleza assim que a vi, chegando à La Paz. A barra anda pesada demais, é vital imaginar coisas, buscar levezas, desenhar horizontes ficcionais. Mas talvez seja necessário aqui se fazer uma distinção. Imaginar que seja possível avistar o Illimani ou o Himalaia da laje é acionar uma maquininha de fabulação necessária em tempos adversos como esses, mas evadir-se de uma situação grave que nos atinge, a que a gente tem que eticamente responder, e ficar delirando com seu umbigo mundos paralelos, faça-me o favor, é estar muito desatento ao que acontece à nossa volta. Aqui cabe um papo reto: é se alienar completamente da situação atual.
Mas há dias imóveis também: enfurnada na cama, aturdida com as notícias, uma tosse, uma dorzinha de garganta já me deixa muito grilada, e o coração descompassa. Ficar quieta nessas horas é o que faz mais sentido, desobrigada de ficar bem, animada, entusiasta da vida, imediatamente, aquele papo aranha de livro de auto-ajuda, de ser positivo o tempo todo, um saco. Hora, talvez, de escutar os barulhos do corpo, e buscar decifrar que música é essa, e como a gente se entrosa com ela. Não podemos nos esquecer que é no dia-a-dia que vamos nos entendendo com um contexto totalmente desconhecido para nós, que nos exige estar à espreita de seus sinais, de modo a dar algum sentido ao que está acontecendo.
Estamos cansados, é tanta demanda de produtividade: pessoal, profissional, sexual. Deveríamos estar irreversivelmente esgotados. Cansados, ainda há fármacos disponíveis para repor energias e simular uma vitalidade, que logo ali adiante declina. Há muitos pensadores no contemporâneo que atentam para isso que trago agora, de um modo ligeiro e superficial: o do azeitamento da máquina capitalista neoliberal à custa do corpo e da nossa subjetividade obedientes demais, enrabichadas num desejo de prosperidade material ilimitada, que pode nos custar a vida.
Uma coisa que me chama a atenção, talvez a de vocês também, é que um dos sintomas do coronavírus é a dor de garganta. É inevitável associar a garganta às palavras que saem dela. Eu não sei quando isso tudo vai passar, mas espero fortemente que outras palavras, calibradas por outros desejos de existência possam vir à tona. E que o cuidado de si e do outro se amplie num convívio cotidiano, partilhado entre sujeitos dessemelhantes. Ailton Krenak em seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, diz uma coisa que me entusiasma muito, e nela acredito: “Definitivamente não somos iguais, e é maravilhoso saber que cada um de nós que está aqui é diferente do outro, como constelações”.

Rosane Preciosa é professora do Instituto de Artes e Design da UFJF, ensaísta e poeta, autora dos livros de ensaios “Produção estética: notas sobre roupas, sujeitos e modos de vida” (Editora Anhembi Morumbi) e “Rumores discretos da subjetividade: sujeito e escritura em processo” (Editora Sulina), e das ficções de “Um livro de amor” (Dash Editora), em parceria com Cristiane Mesquita. Nasceu no Rio de Janeiro e vive e trabalha em Juiz de Fora.

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