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Como será o amanhã? Jornalista Bruno Luis Barros responde

Leia o 15º texto da seção “Como será o amanhã?” com utopias para tempos distópicos


Por Tribuna

07/05/2020 às 06h55

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Antes que as cortinas se fechem e o espetáculo chegue ao fim

por Bruno Luis Barros

Ainda sem me dar conta na época, foi andando de bicicleta sozinho, pela primeira vez, num domingo em 1996, que tive a primeira e pueril sensação de independência e liberdade. Aquela tarde foi mais um dia que meu pai deixou as rodinhas de apoio em casa pra que eu tentasse me equilibrar sozinho e, enfim, saísse pedalando por aí. Como de costume, o medo de cair era maior do que a vontade de tentar.
Ele sempre tirava a mão do assento por poucos segundos e já era o suficiente para eu ficar aflito e perder o equilíbrio. Vendo que eu não conseguiria, ele voltava a me segurar. Mas naquela tarde foi diferente. Ele me soltou e não voltou a me segurar, e o meu medo foi derrotado pelas palavras de coragem e confiança dele. Os segundos viraram minutos; comecei a pedalar e a sentir o vento de forma mais intensa no meu rosto; e o medo, por fim, deu lugar à sensação de vitória.
O tempo passou e ontem a saudade foi dormir comigo e me fez sonhar com meu pai e meu irmão. Mas não foi apenas ontem. Para além dos passeios de bicicleta, já sonhei com as realidades de um passado que existiu – da infância à vida adulta – e sonhei também com um futuro de esperança para nós; com uma viagem para algum lugar ainda não feita; com um café da manhã que não foi tomado; com conversas que não existiram; com sorrisos e abraços ainda não dados.
Nos meus sonhos ainda projetei tantas outras vezes como seria o amanhã. Sonhei que eu dizia uma vez mais o quanto eu os amava. Sonhei, simplesmente, com a ausência de qualquer lógica ou conversa familiar. No sonho, eu apenas estava em casa, e todos que amo estavam ali. Eu era o observador, andava pelos cômodos e via a vida presente. Meu pai na sala, assistindo um jogo de futebol na TV; meu irmão – que não falava e nem andava –, no seu quarto adaptado, sentado em uma cadeira projetada e feita sob medida para ele; e minha mãe preparando o almoço.
Por diversas vezes, acordei, nos últimos dois anos, percebendo que tudo era um sonho que a saudade me trouxe. Quando não estava dormindo, era eu e minha mãe seguindo em frente; transformando a dor em coragem. E como eu deveria reagir ao amor por mim de quem eu também mais amei (e ainda amo), mas que não está mais aqui? O que fazer com os sonhos de uma realidade que virou passado? Como lidar com a ausência do toque, do cheiro, do abraço, do sorriso? Essas perguntas me conduzem a um processo diário de autoconhecimento. Mas, até aqui, já sei que não sou apenas um, pois carrego as partes de quem em mim ainda vive.
Como diria o pai da psicanálise Sigmund Freud, “não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais: somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos sem querer”. E muito antes das cortinas se fecharem e o espetáculo que vivemos juntos finalmente chegar ao fim, eu disse inúmeras vezes, verbalmente ou com atitudes, o quanto eu os amava. O tempo parece que é alguém que tem pressa, e quando a gente olha para trás parece que décadas foram apenas alguns poucos segundos.
Somos, ao mesmo tempo, os espectadores e atores de nossas vidas. Contudo, a brevidade de tudo que nos assola não deve servir de desânimo, mas de alerta. Amanhã, caro leitor, quando acordar, não reclame tanto das banalidades do dia a dia ou das imperfeições de quem você ama e por quem é amado e não despeje palavras que possam machucar por causa de coisas estúpidas. No fim das contas, o que nos define é todo o nosso empenho em ser o melhor ou o pior que podemos ser. E no que devemos nos empenhar até a última hora, minuto, segundo? No que devemos nos empenhar até o dia em que finalmente diremos adeus? No que devemos nos empenhar amanhã?

wbrunoBruno Luis Barros é jornalista graduado pelo Centro Universitário Estácio Juiz de Fora e escreve para o blog de jornalismo independente omergulhojf.com.br. Nasceu e vive em Juiz de Fora.

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