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Como será o amanhã? Gerontólogo José Anísio Pitico responde

Leia o 14º texto da seção “Como será o amanhã?” com utopias para tempos distópicos


Por Tribuna

06/05/2020 às 06h55

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O futuro da velhice

por José Anísio Pitico

“Como será o amanhã?”, além de me levar para o samba-enredo de uma Escola do Rio de Janeiro, a União da Ilha do Governador, no ano de 1978, que é sucesso na interpretação magistral, mais do que natalina, da cantora(sumida) Simone; me transporta também para pensar sobre a noção de futuro, sobre a ideia do tempo. Esse convite reveste-se de muita honra para mim, mesmo que ele me faça tremer da cabeça aos pés. Porque escrever para uma seção dessa envergadura intelectual, não é para principiantes, como é o meu caso. Eu reconheço. Mas, eu topei. Mesmo com medo, eu faço muitas coisas. Principalmente, viver!. E viver em tempo de epidemia do coronavírus é mais ariscado ainda. Período de isolamento e de distância física para a manifestação dos nossos afetos e expressões amorosas. Estamos no tempo em que todas as segundas-feiras, terças, quartas, quintas, sextas e sábados são dias de domingos.
“Como será o amanhã?” – não tenho como não me referenciar no trabalho social e público que desenvolvo com algumas pessoas idosas da cidade, para sustentar alguns pensamentos e reflexões sobre os meus horizontes utópicos para os dias que virão pós-coronavírus. Como Cacá Diegues, um dos grandes cineastas brasileiros, acredito que “dias melhores, virão”. O trabalho gerontológico, o convívio diário com as pessoas idosas (algumas), me oferece ricas oportunidades de crescimento pessoal na minha construção para ser uma pessoa melhor: com o vírus ou sem ele, acentua-se em mim, a firme crença na imponderabilidade da existência humana e de que tudo está por um fio – há perigos em toda a parte. A assimilação em nós, da passagem do tempo cronológica-mente – de passado-presente-futuro não se dá mais, de uma maneira tradicional e aristotélica, de fora para dentro. Com as transformações societárias que ocorrem no mundo, notadamente, no campo da Tecnologia da Informação, da Inteligência Artificial; a canção do Belchior, ganha ares de perenidade, quando ele nos diz assim, ao amigo John, “o tempo andou mexendo com a gente”. Andou mesmo!. A noção de tempo está horizontalizada. Já não há mais separação para conjugar o tempo do verbo. Como se diz, popularmente, estamos juntos e misturados. O que acontece de forma semelhante, com os ciclos da natureza, com as estações climáticas: verão-inverno-primavera-outono – de alguma maneira, elas já se rebelaram e seguem um fluxo próprio, motivado pela especulação financeira, que transforma a vida humana em mercadoria para o grande capital.
Nessa vivência cotidiana e mundial, de tempos tão doentes para a humanidade e tão carentes de amor, cabe a pergunta: como seria o meu dia de amanhã ideal? Esse dia seria junto das pessoas, em grupo. Seria no plural. No sonho de ter uma cidade para todas as idades. Gostaria de acordar pela manhã, e ver – já idoso – que a vida humana está em primeiro lugar nas decisões políticas. Onde as pessoas mais velhas tivessem futuro. Não, numa lógica utilitária e mercantilizada, de ser um grupo social que não se tem mais o quê explorar. Mas, na perspectiva de envergar a velhice comuma dimensão humana, onde a vida – nosso bem maior – valesse bem mais, muitomais, do que a contagem dos anos. Eu acredito. E dai?!

wpiticoJosé Anísio Pitico da Silva é assistente social e gerontólogo. Autor de “Esse é o meu lugar”, da coluna “O idoso e a cidade”, às sextas-feiras na Tribuna, e da coluna “Melhor idade”, na Rádio CBN. Nasceu em Porciúncula (RJ) e vive e trabalha em Juiz de Fora.

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