Tópicos em alta: delivery jf / coronavírus / vacina / chuva / polícia / obituário

Um Tupi de verdade: acesso à Série B completa 5 anos nesta segunda

De churrascos e idas para Lima Duarte à concentração e união, atletas e treinador de 2015 relembram campanha de um grupo que marcou o nome na centenária história carijó

Por Bruno Kaehler

18/10/2020 às 07h00- Atualizada 18/10/2020 às 12h17

Atletas comemoram o acesso logo após o apito final em Arapiraca (Foto: Felipe Couri)

No dia 19 de outubro de 2015, Juiz de Fora, refletida na movimentação na Praça Antônio Carlos, com um telão que prendia a atenção de centenas de torcedores, vestia o preto e branco carijó. Naquela noite, o Tupi alcançava o histórico e tão sonhado acesso à Série B do Campeonato Brasileiro após vencer o Asa, em Arapiraca (AL), por 2 a 1, na partida de volta das quartas de final da terceira divisão do país. Nesta segunda-feira (19), a conquista, que levou o Alvinegro de Santa Terezinha ao seu auge competitivo das últimas décadas, se não do centenário, completa cinco anos.

Para relembrar o feito que ficou guardado na memória de milhares de juiz-foranos, carijós e amantes do futebol local, a Tribuna buscou contato com alguns profissionais do Tupi que integraram o grupo que ficou cravado, eternamente, no rol de glórias do Galo.

Após uma reformulação no elenco que terminou o Campeonato Mineiro em 10º lugar, promovida pelo técnico Leston Júnior, que chegou na penúltima rodada do Estadual, e por Cloves Santos, responsável pelo futebol do clube, uma campanha sólida foi construída na primeira fase, com o terceiro lugar da chave.

Um dos pilares defensivos daquela equipe e ídolo carijó, o zagueiro Sidimar não mediu elogios aos seus companheiros. “Era um grupo extraordinário, um dos melhores que passei. Não pelas conquistas, mas pelas pessoas e amizade que levamos até hoje. Tudo aquilo que fizemos no Tupi naquele ano foi graças a grandes homens que conseguiram fazer o possível e até o impossível pelo clube. Sabíamos das dificuldades, do peso que é jogar com a camisa do Tupi e nos unimos, trabalhamos, lutamos. Não só os 11, mas todos que entravam e até os que não eram relacionados. A gente via no olhar de cada um que fazer parte daquele grupo era prazeroso e isso foi fundamental”, destaca.

As dificuldades, obviamente, apareceram durante toda a campanha, mas foram contornadas para que o desempenho em campo fosse o menos prejudicado possível. O polivalente meio-campista Vinícius Kiss lembrou alguns momentos de superação e de evolução daquele elenco. “Primeiro, quando o Daniel Morais acabou saindo com proposta do Náutico para jogar a Série B. Ele era o nosso artilheiro, na ocasião, e aquilo solidificou ainda mais o nosso grupo, porque tivemos que suprir a ausência dele, nosso goleador, e conseguimos cada um se adequar um pouco mais. Refizemos um plano de jogo e conseguimos, de certa maneira, suprir essa saída dele muito bem”, lembra o meio-campista, antes de citar outros méritos daquela campanha.

“Teve a recuperação do Kaio Wilker e do Marco Goiano, contestados pela torcida em certo momento; o crescimento de jogadores como o Filipe Alves (volante), um 12º jogador pra gente, que no fim conseguiu ocupar sua função de titular. E jogadores experientes primordiais, como o Glaysson (goleiro), Osmar (lateral), Fabrício Soares (zagueiro), Genalvo (volante); a consistência do Bruno Ré (lateral), o poder de marcação do Jataí (volante), o Felipe Augusto (atacante), muito consistente e importante taticamente. São vários momentos marcantes, um grupo extremamente vencedor e que deu a famosa liga”, completou.

Elenco do Tupi relacionado para a partida de volta contra o ASA, no 19 de outubro de 2015 (Foto: Leonardo Costa)

Estratégias e provocação alagoana

A terceira posição no Grupo B gerou o confronto nas quartas de final, valendo a vaga na segunda divisão, contra o ASA (AL). Desde esta definição, Sidimar conta que o grupo se motivou ainda mais por declarações soberbas dos alagoanos. “Pela equipe do ASA ter sido uma das que mais marcaram gols naquela edição, me lembro que alguns torcedores, diretores, e não me lembro se jogadores também, nos menosprezaram falando que já tinham chegado na Série B. E aquilo nos motivou. Lógico que ficamos chateados pelos pronunciamentos, mas nos deu mais força e vontade pra entrar em campo e resolver nos dois jogos. Futebol se faz em campo. Falar é fácil, difícil é fazer”.

Sidimar comemora um dos gols do Tupi sobre o ASA na partida de ida, em JF (Foto: Leonardo Costa)

O Tupi faria 2 a 0 em Juiz de Fora, na partida de ida, no Estádio Municipal Radialista Mário Helênio, inclusive com gol de Sidimar e de seu companheiro de zaga, o experiente Fabrício Soares. O resultado levou ainda mais confiança ao time, que seguiu as orientações de Leston Júnior à risca.

“Traçamos uma estratégia para o primeiro jogo em que focamos na bola parada e conseguimos sucesso justamente dessa maneira. Abrimos 2 a 0 em casa com dois gols pelo alto, fizemos um jogo muito consistente e competitivo. Logo, a semana que antecedeu o jogo em Arapiraca foi pautada por muita confiança. Sabíamos que seguiríamos o plano elaborado pelo Leston e, ao final, seríamos coroados com o acesso”, recorda Vinícius Kiss.

Faltariam, então, duas semanas para a decisão em Arapiraca (AL). O técnico Leston, então, buscou evitar a absorção de qualquer clima de oba-oba vindo de fora. “Talvez a memória mais viva que a gente tem em relação à semana que antecedeu o jogo do acesso foi a ida pra Lima Duarte. Foi uma solicitação que fiz ao Cloves para que a gente pudesse tirar os atletas de Juiz de Fora pra não ouvir o tempo todo que já tínhamos subido. E a ida pra lá foi de fundamental importância para que a gente ficasse reservado e focado tão somente na preparação para o jogo decisivo. Sem dúvida nenhuma, isso colaborou bastante para que a gente fizesse uma preparação na proporção da exigência que teríamos em Arapiraca”, salienta o comandante à Tribuna.

O conteúdo continua após o anúncio

Um gol inesquecível para lavar a alma

Glaysson; Osmar, Sidimar, Fabrício Soares e Bruno Ré; Filipe Alves e Rafael Jataí; Vinícius Kiss (Ygor), Marco Goiano e Kaio Wilker (Carlos Renato); Felipe Augusto (Bruno Aquino). Difícil esquecer esta escalação promovida por Leston Júnior para a partida de volta em Arapiraca. Tampouco não lembrar de nomes como o de Genalvo, titular na maior parte da Série C, Daniel Morais, que deixou o time durante a temporada, de Lula, Gabriel Davis, Ramon, Júnior Paraíba e outros. Além, é claro, da comissão técnica, composta por profissionais como Júlio Cirico, Léo Devanir, Walker Campos, Gustavo Shiroma, José Roberto Maranhas, Renato Guerra, Creso Cordeiro, Adeil e Boró.

Tarefa ainda mais árdua é esquecer a finalização de Kaio Wilker, aos 3 minutos da segunda etapa, no duelo disputado no Estádio Municipal Coaracy da Mata Fonseca. Do lado esquerdo de ataque, o meia recebeu bola de Marco Goiano, cortou para a direita e, da entrada da área, acertou o ângulo esquerdo do arqueiro rival em um dos tentos mais importantes da história do clube.

“Lembro como se fosse hoje. Já fiz gols dessa forma em outras equipes, treino bastante, procuro aprimorar sempre esse tipo de finalização e ali fui muito feliz. Foi um lance individual, arrisquei de fora da área e, graças a Deus, a bola foi lá na gaveta, selando nossa classificação. O pessoal sempre lembra daquele gol, os torcedores do Tupi principalmente”, conta Kaio Wilker.

012013014
<
>
Sequência da movimentação e finalização histórica de Kaio Wilker para o primeiro gol da partida de volta contra o ASA (Fotos: Felipe Couri)

O destino quis que o gol saísse de uma das surpresas de Leston na decisão. “Fiquei sabendo que iria jogar o primeiro jogo do acesso há três dias da partida. Já vinha treinando muito bem, mas eu tinha dois cartões amarelos e poderia ser suspenso. Ainda havia sentido um incômodo muscular, então no segundo turno acabei ficando fora de alguns jogos. Mas estava bastante confiante e acabou que caiu no meu colo a oportunidade e pude ser decisivo com um golaço”, lembra o meia, que ainda destacou ter sido um amuleto carijó não somente no duelo com o ASA, mas em toda a trajetória.

“Em todos os jogos que eu atuei naquela Série C, ou o Tupi ganhou ou empatou. Subi invicto para a Série B e é uma marca que carrego comigo, uma lembrança positiva. O grupo todo mereceu, fizemos uma baita competição, e fui coroado individualmente também concorrendo como um dos melhores meias da competição pela Placar e de Minas Gerais no Troféu Telê Santana. Ficou marcado na minha história”.

Com 3 a 0 no placar agregado para o Tupi, o ASA se jogou ao ataque e o Galo mostrou uma de suas armas na competição, o poder reativo. Se aproveitando dos espaços oferecidos, aos 35 do segundo tempo, Ygor recebeu pela direita na entrada da área e tocou para Marco Goiano na saída do goleiro. O meia só teve o trabalho de ampliar e sair para o abraço. Os alagoanos ainda diminuíram em cobrança de pênalti de Uederson aos 43, mas nada que incomodasse a alegria carijó em Arapiraca, Juiz de Fora e outros cantos do país.

‘O sentimento é indescritível’

A emoção com o apito final ficou para sempre no coração de cada profissional alvinegro, como Leston resume. “O sentimento é indescritível. Colocar o clube entre as 40 principais equipes do país, um clube com a tradição que tem o Tupi, em uma cidade grandiosa. Isso tudo mexeu muito com todos nós e foi um sentimento de realização muito grande. Tenho certeza de que todas as pessoas que estavam envolvidas naquela conquista guardam com muito carinho tudo aquilo que vivenciamos na trajetória daquela campanha maravilhosa.”

Leston, de colete à esquerda, comemora acesso segundos após o término do jogo em Alagoas (Foto: Leonardo Costa)

Kiss recordou a felicidade vivida em 2015 no mesmo tom do treinador, mas também lamentou o atual momento vivido pelo Tupi, que cinco anos depois acumulou rebaixamentos e se encontra sem divisão nacional e no Módulo 2 do Mineiro. “Aquele grupo marcou de muitas maneiras. Era muito amigo, parceiro, tinha uma união, entrega e dedicação. Cheguei em 2015 para a Copa do Brasil e Série C e permaneci para o Mineiro e a Série B do Brasileiro. Em 2014, o clube já havia feito uma grande campanha na Série C, perdendo o acesso em casa para o Paysandu. Então foram bons anos no Tupi. Infelizmente as pessoas que administram o clube não souberam aproveitar da melhor maneira e solidificar o projeto. Mas participei de um momento bacana.”

Vinícius Kiss foi um dos destaques da campanha pela regularidade em campo (Foto: Felipe Couri)

Bobinhos, churrascos e rachão

Nos bastidores, sempre se comentava a união do grupo, que fazia confraternizações regularmente. Entre as histórias que Leston não se esquece, estão as idas para Lima Duarte, tanto em pré-temporada quanto durante a Série C.

“Tem muitas histórias de bastidores impublicáveis, até porque era uma coisa da intimidade do grupo. Momentos de muita alegria, mas também de dificuldades, onde foi preciso uma superação muito grande de todo mundo. Mas o que sempre destaco quando encontramos com algumas pessoas que vivenciaram com a gente aquela campanha são as três idas para Lima Duarte. Aquilo ficou marcado porque é uma cidade bem tranquila, ficávamos em um hotel e só saíamos para o campo. Às vezes batia um tédio em todo mundo, mas criávamos situações, fazíamos churrasco na piscina, ao longo da campanha foram umas cinco, seis confraternizações para curtir a trajetória. Parecia que existia um sentimento que ia dar certo, ia acontecer. Tenho ótimas lembranças e um carinho muito grande pelo clube, cidade e forma pela qual sempre fui respeitado por todos. É uma conquista que fica guardada na memória e no coração de todos nós.”

Para Sidimar, que também exaltou seu ex-treinador, como um dos melhores que já teve, a condução do ambiente foi essencial nos resultados. “O Leston sempre foi um treinador que gostou de um churrasco, uma confraternização, desses momentos que unem o grupo e trazem mais intimidade. Sempre fizemos naquela época, tanto na sede do clube quanto em Lima Duarte. E como lá em Lima Duarte era difícil pegar sinal de celular, a gente fazia churrasco quando podia e víamos ser necessário, com todo o apoio da diretoria e da comissão. Íamos para o último andar do hotel, começávamos no almoço e ficávamos até 22h, 23h com aquela resenha e as brincadeiras. Isso era muito importante para a caminhada. Falo que de um time sem o bobinho do início no treino, sem o rachão antes do jogo e sem o churrasco não é um time vencedor. E tínhamos essas três armas que deixavam o clima leve e que conseguiu deixar o grupo no foco, querendo o acesso. Todos estavam em um só objetivo e conseguimos alcançar.”

Tópicos: tupi



Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é dos autores das mensagens.
A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros.



Desenvolvido por Grupo Emedia