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Novos versos


Por MAURO MORAIS

21/06/2015 às 04h00

Knorr In

Knorr In “Totem” (Funalfa, 2015), no prelo

No tique-taque do relógio, o tempo vai definindo o que é presente e o que é passado, vai construindo o que se perderá e o que ganhará a posteridade. Enquanto os ponteiros ditam as regras, mãos se debruçam nos teclados ou empunham canetas vivendo cotidianamente a escrita poética em Juiz de Fora. Difícil, ainda, dimensionar o hoje. Fato é: a poesia circula na cidade, pelas livrarias, pelos saraus, por blogs ou redes sociais. E ganha o país. Prova de que esses jovens e nem tão jovens, a grande maioria formada por universitários e ex-estudantes, ecoaram é a inclusão de seus nomes na exposição “Poesia agora”, que o Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo, inaugura nesta terça, 22. Estarão lá poemas de Alexandre Faria, Anderson Pires, André Capilé, André Monteiro, Fabrícia Valle, Frederico Spada, Knorr, Larissa Andrioli, Laura Assis, Otávio Campos, Prisca Agustoni, Tassiana Frank, Tiago Rattes e alguns outros juiz-foranos, de nascença ou de coração.

A terra de Murilo Mendes se mantém literária. E não há uma cara, apenas. São muitas. “A produção é bastante distinta, talvez consiga ver um diálogo na galera do Eco (Performances Poéticas). Nenhum de nós é poeta ocasional. Escrever e publicar é o que fazemos o tempo inteiro. Assim, vamos nos consolidando num microcosmo, que é a cena local”, comenta Laura Assis, poeta, fundadora do selo Aquela Editora e uma das organizadoras do sarau, que desde 2008 reúne, mensalmente, dezenas de entusiastas e veteranos, escritores e leitores, na celebração dos versos. “Noto diferenças na geração de hoje. Nunca fiz uma leitura buscando convergências, mas um ponto que percebo é a quebra com o formalismo. Há uma dicção muito mais prosaica, o que encontramos na literatura contemporânea brasileira em geral, e a afeição por poemas curtos”, analisa Frederico Spada, poeta e criador do canal no YouTube “PoesiaemJF”, que publica a série “Juiz de Fora – História lírica”, resgatando a produção de décadas passadas.

“Quando penso em Juiz de Fora, me vêm à cabeça o equilíbrio entre a poesia bem elaborada e a descontração. Essa galera é muito descolada na poesia, no que é a poesia e nada inocente. Eles sabem misturar a academia e a rua”, pontua o curador da mostra paulista Lucas Viriato, criador do jornal “Plástico Bolha”, uma das referências no país em literatura contemporânea nacional, responsável pelo lançamento de nomes que hoje conquistaram o cânone. “Procuramos poetas de todo o Brasil, de todos os estados. Juiz de Fora, talvez por conhecer muito o movimento da cidade, ganha uma representação no eixo mais forte do país, atuando como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte”, conta Viriato, destacando a importância dos poetas locais na leitura traçada. Tanto é que no dia 1º de agosto, às 15h, o museu recebe o ECO – Performances Poéticas, com coordenação de Laura, para um dos oito saraus que irá sediar.

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Frescor no elenco

Como um retrato na parede, os poetas do hoje preservam o movimento, semelhante em efervescência, que Juiz de Fora viu nascer em 1981, quando jovens se reuniam na promoção das artes, em suas variadas expressões, ao redor de varais de poesia no Calçadão. “Abre Alas”, o evento que se tornou revista, e “D’Lira”, a publicação reconhecida pelo jornal “Folha de S.Paulo” como uma das melhores do país em 1983, ganharam eco em sua própria terra. “São momentos diferentes. Hoje eles têm ferramentas que não tínhamos lá atrás. Vejo mais facilidade de divulgação hoje. Ao mesmo tempo, editar continua sendo difícil, bem como ser lido e reconhecido. A história está se repetindo de maneira diferente, com outras características. Os personagens são os mesmos, mas o cenário e os atores mudaram”, aponta Knorr, poeta e designer, integrante dos movimentos pretéritos.

O tempo é mesmo outro. “Atualmente temos um pouco mais de facilidade por conta da internet. Temos contatos que não existiriam sem ela. Não haveria editora, distribuição, colaboradores”, defende Laura Assis. “Hoje nosso varal é no Facebook. A autopublicação, a autopromoção, de nós e dos outros, acontece”, completa. Prova disso são as muitas editoras independentes que se espalharam pelas bandas de cá e de lá, como a local Edições Macondo e a carioca Organograma (de Lucas Viriato). Assim como as grandes editoras se abriram para a expressão, os prêmios também já enxergam esse movimento. Na última edição do Portugal Telecom de Literatura, a paulista Editora Patuá emplacou cinco títulos na lista de finalistas.

A própria abertura do Museu da Língua Portuguesa para a nova geração, iniciativa inédita no aclamado espaço, demonstra o momento de prestígio. Para Antônio Carlos Sartini, diretor do museu, é tempo de muita pluralidade e diversidade. “Nos últimos anos, a poesia ganhou muita força. O movimento desses poetas surgiu como um alerta para os espaços que só se abrem aos que já estão consagrados. Esses novos escritores começaram a se reunir, criando saraus, produzindo e divulgando. É muito saudável ver que eles mesmos criaram suas oportunidades”, comenta Sartini. Os autores de Juiz de Fora não somente escreveram suas próprias chances, como se inscreveram num contexto ainda maior. E nem foi preciso que o tempo dissesse sim. Eles escreveram, chegaram e fizeram.

Abre Alas hoje

No sábado do dia 10 de novembro de 1990, chegava às bancas, na página 4 da Tribuna, a última edição do suplemento literário “Abre Alas”, após pouco mais de um ano de existência. Aquela, considerada a “segunda dentição” da publicação, colocava um ponto no movimento iniciado nos primeiros anos da década de 1980, encabeçado por escritores como Fernando Fiorese, Iacyr Anderson Freitas, Luiz Ruffato, José Santos, Mauro Fonseca e Suraya Mockdece. Entre as sombras da ditadura militar e a audácia própria da juventude, aquela geração escreveu as páginas da história literária local que Murilo Mendes não teve tempo de ler.

Com textos em varais e muros, sob os olhares dos milicos e de autores marginais já respeitados na cena nacional, vestiram-se de palavras que ressoaram nas folhas do jornal. No derradeiro número 89 da “Abre Alas”, a página toda coberta de versos, constavam nos créditos os nomes de um conselho formado por Fiorese, Freitas, Santos e Knorr. O último também assinava a programação visual da criação, que sempre contava com uma fotografia ou um desenho.

Passados cerca de 9 mil dias, ou 295 meses, quase 25 anos, a Tribuna recria o suplemento, convidando alguns dos nomes que integram a nova geração da poesia juiz-forana, considerando os escritores convidados para a exposição “Poesia agora”. Ao lado de jovens poetas – artesãos que mesmo num universo digital escolhem bares, museus e praças para celebrarem os versos -, retorna Knorr, poeta que esteve na despedida de 1990. Contemporaneidade, na verdade, ainda é um recorte subjetivo: refere-se ao hoje, que pode muito bem não ser apenas as 24 horas de agora. Como o texto final daquele nada distante 10 de novembro, “a poesia segue em frente, a folia continua e o Abre Alas, no mesmo ritmo, quer passar…”.

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