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“Ofélia, a travesti gorda” e o direito à complexidade: teatro debate padrões

Espetáculo que encerra a programa desta terça-feira, 11, da Semana Rainbow da UFJF debate a crueldade dos padrões da sociedade contemporânea

Por Mauro Morais

11/08/2020 às 06h55

Magô Tonhon é protagonista do monólogo “Ofélia, a travesti gorda”. (Foto: Divulgação)

O que querem os padrões senão o silêncio de quem deles fogem? Ofélia é uma travesti que adora Coca-Cola e cigarros. Vive em harmonia com sua transgeneiridade, mas se digladia com o próprio peso. Não apenas por desejo próprio, mas, sobretudo, pela expectativa alheia. Ofélia é gorda. E luta pelo direito de ser complexa, por se inquietar com muitas e diferentes questões que não somente a de gênero. “Apesar de saber que toda categoria é limitada, a peça de uma maneira ética e política não recusa as categorias que historicamente foram construídas para que políticas públicas fossem desenhadas a partir delas, mas debate sobre elas”, defende Magô Tonhon, protagonista do monólogo “Ofélia, a travesti gorda”, que encerra a programação desta terça-feira, 11, na IV Semana Rainbow da UFJF. Paulista, Magô participa da roda de conversa “Diálogos sobre raça, gênero e sexualidade”, ao lado de Isaac Porto, Julvan Moreira e Miguel Villela, com mediação de Julio Mota, às 20h10, e apresenta o espetáculo, às 21h50, no canal do evento no YouTube.

Maquiadora e educadora de beleza, Magô aceitou o desafio de ganhar a cena quando uma série de convites a fizeram encontrar o texto de uma grande amiga, Helena Vieira. A convite do festival Rio Diversidade, Helena escreveu a peça, enviada ao diretor Rodrigo Abreu, que convidou Magô, que por sua vez era amiga de Helena, mas desconhecia o trabalho. Não tinha como recusar. E aquela história, que refletia Helena e sua experiência num corpo gordo e transgênero, também refletia Magô. Havia uma urgência que ambas conheciam bem. “No Brasil, faz apenas um ano que as transgeneridades e travestilidades deixaram de ser consideradas doenças no Brasil e nos países que se pautam pelos códigos internacionais de doença”, aponta a protagonista do monólogo já encenado em diferentes espaços.

“De um lado, temos a patologização, uma conduta médica que durante 30 anos produziu efeitos de nos ver como doentes. É muito parecido o peso com que se olha para os corpos gordos, sempre relacionados a corpos que não têm saúde”, reflete Magô, chamando atenção para a imposição de padrões de corpos femininos. Segundo ela, a sociedade espera da mulher trans um corpo próximo do corpo idealizado da mulher cisgênero, ou seja, magro. “Há um imperativo na ideia de saúde e gênero”, aponta, chamando atenção para o presente da pandemia, que ampliou episódios de gordofobia por todos os cantos. O corpo magro é exaltado em oposição cruel à obesidade, considerada comorbidade para a Covid-19. O corpo gordo, nesse contexto, relaciona-se apenas aos impedimentos, à limitação, favorecendo discursos de preconceito, explica Magô.

Espetáculo criado em 2018 mostra-se absolutamente atual em tempos de pandemia.

Ofélia, num maiô rosa com a inscrição “gorda”, discute sobre uma sociedade que a obriga a atender um padrão não apenas de gênero, mas de corpo. “As cidades são sempre pensadas para um padrão, sempre cis, magro, hétero, branco”, pontua Magô. “E categoria nenhuma vai dar conta”, define, pontuando a familiaridade do texto. “Sobretudo porque ele não se pretende politicamente correto. Ele se pretende nu e cru, muito próximo aos dilemas que a gente passa”, diz, em entrevista por telefone. É possível romper com essas expectativas que mais silenciam do que propõem? “Não sei se a gente consegue romper em vida”, responde Magô, dando voz à sua Ofélia. “O caminho é longo até que a gente consiga romper. E não é só um caminho. Acredito que uma boa maneira de iniciar esse processo talvez seja se considerar não-pleno, faltante, deixando de pegar o reflexo magro do espelho e querendo olhar o restante da complexidade das pessoas.”

Programação

11/08
20h10 – Roda de conversa: Diálogos sobre raça, gênero e sexualidade
20h50 – Performance de Lee Brandão (drag queen convidada)
21h05 – Lançamento do livro Casulo Dandara, com a autora cearense, Vitória Holanda
21h20 – Olhar diverso. Mostra dos projetos aprovados nos editais
21h30 – Performance teatral “Vida Viada”
21h50 – Espetáculo teatral “Ofélia, a travesti gorda”

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12/08
20h10 – Roda de conversa: Diversas (na luta) por todes! Mulheres em diálogo
21h – Conferência Saúde mental em tempos de pandemia
21h20 – Olhar diverso. Mostra dos projetos aprovados nos editais
21h30 – Show da cantora juiz-forana Uiara Leiggo

13/08
20h10 – Roda de conversa Empregabilidade LGBTQIA+: olhares para o futuro
20h50 – Empreender LGBTQIA+: Relatos e experiências
21h05 – Projeto Gastromúsica por Tânia Bicalho
21h25 – Projeto Maquiarte
21h45 – Olhar diverso. Mostra dos projetos aprovados nos editais
21h50 – Como podemos te ajudar a empreender? Sebrae Juiz de Fora apresenta estratégias para empreender

14/08
20h10 – Roda de conversa: Patrimônio, memória e tradição LGBTQIA+ em Juiz de Fora
20h50 – Talk show “A hora da rainha”
21h10 – Bate-papo com a drag queen convidada de honra, Lorna Washington
21h25 – Olhar diverso. Mostra dos projetos aprovados nos editais
21h30 – Espetáculo teatral “Stonewall 50, uma celebração teatral”, com o ator Thiago Mendonça

15/08
21h10 – Show com a cantora paulista, Jup do Bairro, apresentando o recém-lançado “Corpo sem juízo”
21h50 – Festa de encerramento: DJs

16/08
Reprise dos melhores momentos

 



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