Tópicos em alta: delivery jf / coronavírus / vacina / tribuna 40 anos / polícia / obituário

‘Se fizesse a mesma coisa, invariavelmente me repetiria’, diz Ruben Feffer

O produtor musical, do indicado ao Oscar de melhor animação “O menino e o mundo” (2013), detalha as sutilezas das trilhas sonoras em exclusiva à Tribuna


Por Gabriel Ferreira Borges

10/06/2021 às 07h00

ruben-feffer-estúdio-by-pedro-colo-divulgação
Ruben Feffer ministra masterclass sobre trilhas sonoras na produção audiovisual infantil no festival “É tudo criança” (Foto: Pedro Colo/Divulgação)

Quando Ruben Feffer, 51 anos, investiu na carreira de produtor musical há mais ou menos 20 anos, mal imaginava assinar trilhas sonoras de produções cinematográficas dos mais variados gêneros. À época, ocupava o posto de analista de suprimentos da Suzano Papel e Celulose – é um dos herdeiros do espólio bilionário da maior produtora global de celulose de eucalipto. A música era apenas um “barato”. “Desde os 18 anos, eu tinha um estúdio caseiro baseado originalmente em fitas cassetes. O meu lado de produção e criação musical já era muito forte. Naquele período, fazia trilhas para teatro, vídeos institucionais, eventos corporativos e até para peças publicitárias”, relembra Binho, como é conhecido, em entrevista exclusiva à Tribuna. A ideia não era se lançar como músico, performer. “Iria me embrenhar como um empreendedor musical. Eu já estava mais ou menos decidido com essa coisa da produção e criação musical. Só não estava clara essa coisa de animação.” Binho ministrará, na próxima sexta-feira (11), às 18h, no festival “É tudo criança”, a masterclass “Quando a música conta a história: a importância da trilha sonora na produção audiovisual infantil”.

Os trabalhos junto ao teatro e ao mundo corporativo lhe deram saída para o cinema. A primeira empreitada foi a trilha sonora do documentário “Paulo Freire contemporâneo” (2007), do cineasta Toni Venturi. Depois, também com Venturi, o documentário “Rita Cadillac: A lady do povo” (2007). Mas ele faz de tudo. Campanhas publicitárias, documentários, jingles e longas-metragens, sejam atos reais (live actions) ou animações. Ao lado do parceiro Gustavo Kurlat, Binho assina a trilha sonora do premiado “O menino e o mundo” (2013), de Alê Abreu, indicado ao Oscar de melhor filme de animação em 2016. “É um filme anticomercial, completamente atípico, diferente. Para crianças, tem uma densidade de conteúdo muito forte, e, para adultos, uma riqueza de detalhes e uma inventividade completamente especiais. A princípio, não apenas eu, mas todo mundo da equipe achava que seria um projeto de arte que passaria apenas em museus. Chegar aonde chegou é um fato inigualável. Não vai ter um ‘O menino e o mundo 2’, sabe? Não tem como”, aponta. O título foi a primeira animação latino-americana a ser um dos finalistas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

O vencedor da categoria foi “Divertida mente” (2015), produzido pela Pixar. Uma festa para promover “Divertida mente” para os jurados em Los Angeles pagaria mais do que o orçamento de “O menino e o mundo”, brinca. “Eu dei uma palestra na Dreamworks e fiz eles adivinharem qual era o orçamento de ‘O menino e o mundo’. Eles não faziam a menor ideia. O nosso orçamento foi de R$ 1,5 milhão. Uma comédia do Leandro Hassum, por exemplo, tem um orçamento superior a R$ 10 milhões.” O produtor musical relembra de outros projetos que considera importantes, como o documentário “Quebrando o tabu” (2011), de Fernando Grostein Andrade, mas o ousadíssimo “O menino e o mundo” foi o que lhe abriu portas em todo o planeta. “Para se ter uma ideia, começou como uma experiência sobre a importância da canção de protesto na América Latina. O Alê começou a perambular pela América Latina com um caderninho, começou a fazer anotações e a desenhar o menino 2D, sem boca, que contaria a história.”

O conteúdo continua após o anúncio

O diálogo entre música e imagem

“O menino e o mundo” credenciou Binho, por exemplo, para assinar a trilha sonora do também brasileiro “Tito e os pássaros” (2018), dos diretores Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto. “‘Tito e os pássaros’ tem uma trilha mais convencional se comparado a ‘O menino e o mundo’, por exemplo. Tem uma cara mais de Hollywood”, pontua. Parte da trilha sonora foi gravada no estúdio Abbey Road, em Londres, onde gravaram bandas como os Beatles e Pink Floyd. “Gravamos com músicos da Orquestra Filarmônica de Londres. Foram dez músicos. Os músicos são tão bons e o estúdio é tão absurdamente bom que o trabalho soa como se fosse gravado com mais de 20 músicos.” Conforme Binho, “Tito e os pássaros” é um trabalho grandioso por ter uma trilha sonora grandiloquente. Mas o produtor ressalta trabalhos recentes como os documentários “Sangro” (2019), de Tiago Minamisawa, e “Você não é um soldado” (2021), de Maria Carolina Telles.

Seria “insuportável” trabalhar apenas com um gênero, afirma Binho. “É bacana o desafio de, uma hora, fazer a trilha de um documentário, outra, a de um suspense, e depois, de um filme infantil. Se fizesse sempre a mesma coisa, invariavelmente eu me repetiria.” Contudo, independentemente do gênero, um princípio inegociável para o produtor é de que a música não domine tampouco atrapalhe a narrativa. A música tem que dialogar com o plano de fundo. “A música não existe sozinha. É diferente da canção de um álbum, que existe por si só. A trilha sonora está a serviço de um filme, de uma história, de uma mensagem. Ela tem que trabalhar junto.” Só que o extremo disso é o documentário, pondera. “Em documentários, é muito fácil colocarmos uma música e tendenciar a narrativa. Se não quisermos tendenciar a audiência, temos que tomar muito cuidado para não colorir a narrativa com a própria opinião pessoal. Como, por exemplo, em um documentário sobre política. O som é uma camada mais sutil da produção.”

Cada gênero exige de Binho particularidades para a composição da trilha sonora. Os atos reais, por exemplo, já têm um universo sonoro próprio. “Em geral, tem diálogo, ruídos ambientes. A música tem que trabalhar junto com estes diálogos, falas e outros sons. Ela vai coexistir com um universo já dado.” Já nas animações, o universo sonoro e musical é todo construído. “Começa literalmente a partir de uma folha em branco. Em ‘O menino e o mundo’, por exemplo, a decisão se haveria diálogo ou não foi bem no final, quando o filme já estava quase pronto. Várias interações já tinham sido criadas naquele momento. Não é todo mundo que sabe, mas a língua falada no filme foi o português ao contrário. Não foi um diálogo entendido pelas palavras, mas, sim, pela musicalidade das palavras. Foi distribuído no mundo inteiro sem legenda e dublagem. A música teve um papel extremamente relevante neste caso.”

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é dos autores das mensagens.
A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros.



Desenvolvido por Grupo Emedia