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Quadrinhos “à trois”, sobrenaturais, fofinhos e + 2 clássicos

Por Júlio Black

18/11/2020 às 07h00 - Atualizada 17/11/2020 às 20h29

Oi, gente.

Recebemos nas últimas semanas três quadrinhos nacionais que valem a pena ser adquiridos pela galera. Dois deles têm roteiro e arte da arretada Germana Viana: “Só mais uma história de uma banda” e “Gibi de Menininha apresenta: Patrícia”. O terceiro é “Ménage”, no esquema “a três é beeeeeem melhor”, em que Germana Viana divide o cafofo com Laudo Ferreira (da já resenhada “Olimpo Tropical”) e Marcatti.

“Ménage” reúne três histórias curtas, uma de cada artista, e tem como objetivo tratar em edições temáticas do bom e velho séquiço. Em seu número de estreia, o tema é… armário. Na primeira história, Marcatti coloca um casal em conflito em “De mão beijada”: enquanto a esposa se mata de tanto trabalhar, o marido só quer saber de vagabundear e pensar no próprio umbigo, sexualmente falando. “Nós quatro”, de Germana Viana, é passada na São Paulo dos anos 50, época em que qualquer caso extraconjugal já seria um escândalo, e apimenta ainda mais a história colocando Benedito com Ernesto e Marlene com Vera – tudo graças a um armário embutido que ligação as casas dos casais de vizinhos.

 

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Por fim, ainda temos “Cupim brasileiro”, em que um casal profundamente religioso e sexualmente reprimido morre de vergonha de revelar suas fantasias para o outro – fantasias estas que são realizadas quando entram em um certo armário… Para quem curte quadrinhos adultos, “Ménage” é tão divertido quanto bem escrito e desenhado. E também vai deixar muita gente com a cabeça cheia de ideias 😉

Quanto aos quadrinhos de autoria exclusiva de Germana, “Só mais uma história de uma banda” parece uma daquelas comédias românticas que faziam sucesso nos anos 90, porém com temática LGBTQI+ (espero não ter esquecido nenhuma letra). É uma história bem fofinha, aliás.

Na HQ, uma turminha de xófens do novo milênio, desses que têm seu canal de vídeos na internet, resolveu tentar reunir bandas da última década do século XX para uma apresentação ao vivo. E um dos alvos é a Cecília Não Sabe Cantar, grupo de indie pop que fez sucesso no finalzinho dos anos 90 a ponto de conseguir estourar a bolha do underground. O problema é que seus ex-integrantes se afastaram depois do primeiro álbum, pois uma briga entre o vocalista (Marcelo) e o guitarrista (Raul) tornou as “diferenças musicais” impossíveis de serem resolvidas.

Com a ajuda dos ex-integrantes Roberta e os irmãos Robson e Mariana, a turminha tentará fazer as pazes entre Raul e Marcelo, mas só lendo a revista para saber o final da história, nem adianta que não daremos uma pista sequer.

A última HQ da lista é “Gibi de Menininha apresenta: Patrícia”, lançada por Germana Viana em março. Com a premissa “Toda rua tem uma Patrícia”, a trama é a que mais se aproxima das coletâneas “Gibi de Menininha”, organizadas pela quadrinista e com participação de outras artistas brasileiras, dedicadas ao terror e ao sexo despudoradíssimo.

A protagonista, claro, é a menina Patrícia, que precisou ficar com os avós quando a mãe teve de ir para o exterior por causa de sua carreira acadêmica. Os idosos, porém, estão sendo pressionados por um pastor neopentecostal hipócrita e picareta, interessado em comprar a casa da família. E o líder da seita está disposto a tudo para conseguir o que quer, e caberá à menina dar um jeito na história de forma surpreendente.

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Germana Viana conhece as manhas do sobrenatural e desmembramento de membros, e o componente emocional ajuda a fazer de “Patrícia” uma daquelas HQs recomendáveis para a turma que curte os bons quadrinhos nacionais.

Pois bem. A ideia era escrever apenas sobre quadrinhos nacionais, mas conseguimos ler dois clássicos gringos nos últimos dias e aí fiquei pilhado de escrever de uma vez. Um deles é mais um encadernado do Juiz Dredd publicado no Brasil pela Mythos. “Mandroide” é sobre tragédia, dor, vingança e como os Juízes, tão zelosos pelo cumprimento da lei, podem se tornar reféns da burocracia que envolve a Justiça e da própria inflexibilidade.

O protagonista é o sargento Nate Slaughterhouse, da Força Espacial, que tem o corpo dilacerado durante uma missão e sobrevive graças à tecnologia do século XXII: o que restou da carcaça é unida a partes mecânicas, transformando-o num Mandroide – uma espécie de androide que pode arrebentar qualquer um na porrada sem fazer muita força.

Como desgraça pouca é bobagem, ele, a esposa e o filho voltam à Terra, especificamente para Mega-City-1, e não demora muito para Slaughterhouse ter de encarar uma série de tragédias em sua vida. A revolta cresce ao perceber que os Juízes, mesmo com evidências claras sobre quem transformou a vida do militar num inferno, não podem fazer nada por conta da exigência de provas conclusivas dos crimes. E isso inclui o Juiz Dredd, encarregado da investigação, que vê em Nate um bom homem e compreende sua tragédia, mas se mantém irredutível no seu papel de cumpridor da lei ao pé da letra.

Com roteiro de um dos criadores do personagem, John Wagner, e arte de Kev Walker, Carl Critchlow e Simon Coleby, “Mandroide” pode ser vista como uma crítica à burocracia e excesso de zelo que muitas vezes engessam o sistema judiciário, que acabam por fazer o povo acreditar que é necessário fazer justiça com as próprias mãos. Recomendamos, claro.

Para encerrar, temos “American Flagg!”, um dos clássicos de Howard Chaykin. Só podemos agradecer à Mythos por republicar esse material por aqui, pois quando ele saiu pela primeira vez, lá no final dos anos 80, ainda éramos lobisomens juvenis que só sabiam ler Marvel e DC Comics.

“American Flagg!” estreou no distante ano de 1983 pela First Comics, e só posso dizer o seguinte: como essa HQ não envelheceu! Howard Chaykin pira o cabeção com um futuro agora tão próximo, em que o mundo passou por todo tipo de desgraça, a violência é gratuita, pessoas moram em shopping centers, o basquete é ilegal (!). É um futuro tresloucado que não aconteceu, mas que segue tão “possível” como há quase 40 anos.

O início da década de 80 ainda era marcada por HQs cheias de falas expositivas, ritmo mais lento, mas “American Flagg!” era um passo (bem) além do que se fazia na época. Roteirista, desenhista e designer, Howard Chaykin mostra toda sua genialidade na série, com roteiro e diálogos ágeis, arte espetacular, cinética, explosiva, arrojada e ousada, além de onomatopeias explodindo a cada quadro.

Misturando política, sci-fi, literatura pulp, crítica social e muito sexo, “American Flagg!” é uma série a que a molecada deveria ser apresentada como se não houvesse amanhã. E também para os macacos velhos que, há três décadas atrás, só queriam saber se o Hulk era mais forte que o Superman. Tipo este que vos escreve,

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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