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Mulher Maravilha de jaleco branco

Por Marcos Araújo

18/02/2021 às 07h07 - Atualizada 17/02/2021 às 22h33

Lá estava ela de jaleco branco balançando-se no arame. O objetivo era atravessar o obstáculo e salvar a vacina. Parece cena de filme de super-herói, mas não. A situação foi protagonizada pela auxiliar de enfermagem Ângela Maria de Jesus, que precisou cruzar uma enxurrada para vacinar idosos contra a Covid-19 na área rural de Porto Rico, na região noroeste do Paraná.

Um vídeo mostra a profissional andando em uma cerca para não se molhar e não perder a dose da vacina que seria destinada ao “seu Manoel”. O idoso seria vacinado em casa pela equipe que trabalhava na imunização de pessoas acamadas com mais de 90 anos, quando a chuva surpreendeu os profissionais de saúde em uma estrada de terra.

Ângela contou que ficou preocupada com a possibilidade de as vacinas estragarem. Por conta disso, ela resolveu enfrentar o desafio e equilibrar-se na cerca. “Eu parei e falei: ‘como vou fazer?’ Não posso perder doses. Não importa o obstáculo, o importante é fazer a vacina da Covid-19. Nós somos sérios no que fazemos e temos amor à profissão”, afirmou, acrescentando que as vacinas precisam ser aplicadas em um intervalo de até seis horas depois que a ampola é aberta. Porto Rico tem cerca de 2,5 mil habitantes. Aos jornais que noticiaram a história de Ângela, a prefeitura do município informou que já vacinou todos os idosos com mais de 90 anos.

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Por que me lembrar de Ângela nesta coluna? Porque ela nos devolve a crença de que há brasileiros que pautam suas vidas pela honestidade. Em meio a tristes notícias sobre o desvio de imunizante e de casos de fura-filas sendo investigados pela Polícia Civil e Ministério Público, a Mulher Maravilha de jaleco branco do Paraná é exemplo de gente cumpridora do seu dever.

A pandemia, como já disse aqui neste espaço outras vezes, tem nos feito aprender diversas lições. Da mesma forma que fez brotar sentimentos nobres em grande parcela da população, como a solidariedade, o cuidado com o próximo e a compaixão, aflorou o lado mais nefasto do ser humano. Ao longo desse tempo, não foi raro se deparar com situações de egoísmo, propagação de inverdades e falta de empatia com o outro. E, agora, com o começo da vacinação, vem à tona o retrato do Brasil do privilégio e da impunidade: o desrespeito às filas.

O desacato aos grupos prioritários para a imunização é mais um sórdido capítulo de nossa história que teremos que amargar no futuro, incorporando-o no rol das cenas de falta de civilidade que são cometidas diariamente em nosso país, como furar a fila do banco, do supermercado, da lotérica, do trânsito, do transporte público. Já conseguimos uma vacina contra o coronavírus, mas contra o vírus da incivilidade ainda falta muito empenho de nossa parte.

Já tem gente trabalhando em busca dessa descoberta. A auxiliar de enfermagem Ângela Maria de Jesus é uma delas. Seu exemplo merece ser vangloriado e copiado. Como uma malabarista, passo a passo se equilibrando no arame e sem ter medo de ser atingida por um raio, essa profissional tornou-se um modelo de solidariedade. Ângela, nós, brasileiros, estamos muito orgulhosos de você!

Marcos Araújo

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