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Com que conceito de Inclusão iniciaremos 2020?


Por Gabriel Pigozzo Tanus Cherp Martins, professor

05/01/2020 às 07h02

Mais um ano letivo se encerra e nós docentes passamos a limpo os momentos desafiadores que vivenciamos (ou deveríamos fazer isso). Acredito que para grande parte de nossos colegas a inclusão das crianças com deficiência e “laudadas” (palavra que escutei inúmeras vezes) é a maior barreira a ser transposta. Por isso, fazer do templo do saber um local acessível e de permanência, com qualidade, para essas crianças é o principal objetivo para 2020, certo?

Para que isso aconteça, de fato, algumas questões precisam ser postas, como por exemplo: o que é incluir? Quais os conceitos que permeiam esta prática? Incluir quem? Como? Em quais circunstâncias? Existem incluídos pré-determinados? Por que uns e não outros? Indagações que nos fazem repensar a maneira de “falar” e viver a inclusão escolar.

As políticas públicas, em sua grande maioria, buscam assegurar acesso e permanência nos espaços escolares para alunos com deficiência, ou seja, aqueles que são referenciados como público alvo da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). Mas a escola é constituída de tantos outros, de tanta diversidade. E esses “outros” não pertencentes a esse enquadramento político, não serão incluídos?

Nossas legislações (que tratam da educação inclusiva) são excludentes, discriminatórias, normatizadoras na medida em que estabelecem uma política que “escolhe” quem fará parte deste TODOS. É inegável os inúmeros avanços em função da promulgação destas leis. A maior delas é, sem dúvida, a garantia de acesso à escola comum por crianças que foram alijadas por anos do direito à escolarização, ao direito de estar nestes espaços de formação.

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Incluir é garantir acesso e permanência nestes espaços formais de educação, com qualidade para cada sujeito envolvido neste processo. E quando falamos em “cada sujeito” estamos nos referindo a TODOS. Cada sujeito é único. Possui histórias e subjetividades que precisam ser pensadas, repensadas e respeitadas. Trabalhamos com vidas, sonhos e esperanças. Trabalhamos com o que de melhor existe dentro da escola: a criança aprendente.

Para que possamos ter uma verdadeira inclusão é necessário que se garanta igualdade e equidade, deveres e direitos, ser e estar. Repensar a forma e os discursos que permeiam a educação inclusiva é algo que precisa ser realizado urgentemente na busca da promoção de uma inclusão de direitos. Direito de aprender, de estar, de ser e de permanecer. Direito de ir e vir com autonomia, direito de ter sua cultura, língua e identidade respeitadas.
Prática e reflexão são indissociáveis. Assim como docência e discência. Respeito e alteridade. Estética e ética.

A prática docente consciente nos leva a pensar e a agir de acordo com concepções que enxergam nossos educandos enquanto seres cognoscentes. Como seres capazes de buscar e apreender saberes que estão implícitos nos currículos, que estão ocultos em nossos discursos. Seres que interagem e agem de acordo com saberes práticos e que permeiam o seu cotidiano.

Pensar uma prática de maneira a não colonizar. Pensar uma prática que liberta, que retira as amarras das classes hegemônicas, opressoras. Uma prática capaz de acender o desejo pelo saber, a vontade de mudar e a necessidade de se repensar a posição que ocupamos atualmente. Uma prática que nos mova, que movimente multidões, que estabeleça diálogos, que aceite o novo, o diferente, o diverso. Uma prática que aguce a curiosidade, que exija empenho, comprometimento, respeito e disponibilidade. Ou seja, uma prática que nos faça sentir, perceber e acreditar em uma educação de qualidade, uma educação que liberta, que faz sonhar.
Um 2020 mais inclusivo.

 

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