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Após Covid e septicemia, Giulia Aguiar luta pela vida e volta ao tênis

Atleta profissional juiz-forana, que tem pontos na WTA, revela ainda ter tido depressão, mas voltou às quadras e deve competir na Europa no segundo semestre


Por Bruno Kaehler

03/07/2022 às 07h00

Como na velocidade de um saque, a vida pode dar voltas em centésimos de segundos. Mas assim como no tênis, até mesmo um 0 x 40 em um game ou um 0 x 5 em um set não decretam um revés de forma definitiva; ainda há espaço para uma virada de cenário, por mais improvável que ela possa parecer. Principal destaque da modalidade em Juiz de Fora, a tenista Giulia Aguiar tem propriedade nestes assuntos dentro das quadras e, pouco depois de somar os primeiros pontos no circuito profissional (WTA), viveu na pele reviravoltas fora do esporte. Mas a obstinação sempre presente nos jogos de Carol Meligeni e Rafael Nadal, duas das referências da juiz-forana, foi marca também da atleta de 20 anos para que ela retornasse ao que mais ama fazer após um dos períodos mais delicados de sua vida, antes e durante esta pandemia. Como a própria destacou, Giulia renasceu.

Giulia Aguiar, 20 anos, é referência no tênis juiz-forano (Foto: Fernando Priamo)

Praticante de tênis desde os 8 anos, Giulia se acostumou a levar a bandeira de JF aos mais diversos torneios do país. Em meio ao início do processo de transição do juvenil para o profissional, no entanto, antes mesmo do início das restrições no combate ao coronavírus, ela passaria por momentos delicados. “Eu vinha tentando conciliar os estudos com o tênis e isso foi tomando bastante do meu tempo, porque sempre fui muito rígida comigo mesma. No fundo não aceitava ir para os torneios, faltar tantas aulas e ainda achar que tinha que manter minhas notas iguais às de quando não competia. Passei três meses em torneios fora, uma experiência incrível e que, inclusive, muitas portas se abriram e me mostraram que eu estava pronta para enfrentar os desafios, que eu tinha tênis e físico para isso. Ao mesmo tempo, o colégio acabou, passei na faculdade e estava muito cansada. Tive um burnout (exaustão) grande e depois um pouco de depressão. Fiquei um período afastada das quadras e, então, veio a pandemia e, depois, várias pequenas lesões nesse processo de retomada que não me deixaram dar continuidade ao trabalho. Acabou que fiquei dois anos sem jogar nenhum torneio, porque não teve aqui na cidade também”, relembrou Giulia.

Antes do maior desafio, no entanto, Giulia já tinha voltado a competir em alto nível. Na retomada aos torneios, em outubro de 2021, em Piracicaba (SP), ela não apenas jogou sua primeira competição profissional no Brasil, como também pontuou na disputa de duplas pela WTA. “A partir daí o trabalho foi engrenando. Em janeiro fui competir e treinar também, e foi um mês sensacional. Fiz excelentes treinos, consegui mais alguns pontos no ranking profissional de duplas e tive a oportunidade de dividir quadra com pessoas que me inspiram muito, como a Carol Meligeni, pela coragem que tem pra jogar. É extremamente aguerrida, não entrega nenhum ponto, e tive a chance de treinar um dia com ela em Florianópolis”, recorda.

Da Covid à internação

No retorno para Juiz de Fora, porém, veio o primeiro susto. “Voltei cheia de projetos, muito feliz e animada, mas no início de fevereiro deste ano eu peguei Covid. Fiquei mais ou menos na primeira semana, só que depois fui piorando, tive otite, sinusite e faringite. Tomei antibiótico, fui melhorando e retomando minha vida com o passar dos dias, só que não curou 100% e tive uma amigdalite. De um dia pra uma noite se desenvolveu pra uma septicemia. Acordei de manhã numa quarta-feira, dei uma volta em casa e desmaiei. Fui levada direto para o hospital. Chegando lá, estava com menos de 7 por 5 de pressão, com taquicardia, sem pulso e sem noção nenhuma do que tava acontecendo”, rememora Giulia. “O que eu mais faço no dia a dia é cuidar do meu corpo. Tento dormir e comer da melhor maneira, além de treinar, me fortalecer, e em questão de segundos eu não conseguia andar sozinha. Foi bastante desafiador. Fui atendida rapidamente no hospital, fiz todos os exames necessários e descobri a septicemia. Fiquei internada alguns dias, depois mais duas semanas de cama, em casa, sem conseguir fazer nada sozinha, e foi um processo até ter alta dos médicos.”

‘Nunca foi dúvida que eu voltaria’

“Ganhei esse cordão com 15 anos e, desde então, sempre esteve comigo. Mas no dia que tive que ir pro hospital, tirei e fiquei sem até voltar a treinar. E quando coloquei ele, senti muita força.” (Foto: Fernando Priamo)

Questionada se pensou, por algum momento, que não jogaria mais tênis, ela rechaçou de forma imediata em mostra de sua obstinação, citada anteriormente, tal qual de seus ídolos. “Nunca foi dúvida que eu voltaria a treinar. As principais questões na minha cabeça eram quando e como eu retornaria. Porque eu não conseguia fazer o básico sozinha. Fiquei um mês e meio de cama. Mas tinha muita certeza que precisava voltar, me fazia uma falta absurda. E acho que, internamente, essa vontade de retomar os treinos me fez melhorar mais rapidamente”, destaca.

“Ficou ainda mais claro que não vivo sem o tênis. Quando recebi alta dos médicos pra poder voltar a treinar, foi uma sensação diferente de tudo o que já tinha sentido. Eu voltei fazendo muito menos do que antes, mas só de poder voltar pra quadra, foi uma felicidade muito grande e significava muito”, enfatiza a atleta. “Entrar no clube de novo como jogadora… a primeira vez em quadra, o primeiro treino, jogo, foram momentos muito marcantes, uma das fases mais marcantes da minha carreira, que ainda não é tão longa quanto espero que seja.”

Gratidão à família, comissão e médicos

“Eu queria ressaltar a importância do meu irmão e da minha família, que estiveram comigo em todos os momentos. Todo esse processo de volta ao tênis não teria acontecido se não fosse o apoio deles, da minha comissão técnica e dos médicos”, reitera Giulia, que também é treinada pelo irmão, Thiago Aguiar, desde os 14 anos. À Tribuna, o técnico ressaltou que, além dos problemas de saúde, Giulia ainda vinha de um período de idas e vindas também nos treinamentos pelas incertezas quanto à Covid e vacinação no país.

“Foi um período que pegou todos de surpresa, bem difícil também pra todo mundo ligado ao esporte. Ficamos oito meses sem poder treinar e com dificuldades em planejar uma sequência, até porque a academia também ficou fechada em períodos distintos. Primeiro seis meses, depois 15 dias, depois 45. A tentativa foi sempre de, em primeiro lugar, não pegar Covid e ficar bem de saúde. Não fizemos muitos planos, o circuito também parou. Quando começou a liberar, voltamos a treinar. E quando o atleta fica um tempo parado, também precisa praticamente do dobro de tempo pra voltar à sua forma. Também aproveitamos o período para estudar um pouco mais e colocar em prática no retorno. No esporte, temos que nos preocupar com aquilo que está ao nosso alcance. O que depende de fatores externos, precisamos tentar administrar as situações”, explica.

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Apesar de tudo, Thiago entende que a experiência da irmã pode ter reflexos positivos em quadra. “As dificuldades do dia a dia têm que servir pra nos deixar mais fortes para encarar as dificuldades. Um atleta que quer ter uma carreira de cinco, dez, 15 anos vai ter esses momentos. Não são só glórias. E essas cascas adquiridas vão dando maior sabedoria e uma oportunidade de enxergar que os momentos bons podem ser ainda mais valorizados, porque nem sempre acontecem”, avalia.

Mesmo em transição do juvenil ao adulto, Giulia já soma pontos no circuito profissional (Foto: Fernando Priamo)

Nova pré-temporada e torneios profissionais de tênis

Uma segunda pré-temporada foi necessária após a internação de Giulia e quase dois meses fora das quadras. O preparador físico da juiz-forana, Daniel Schimitz, explicou o procedimento adotado, gradativo. “Após a liberação médica, nós retomamos os treinos preocupados com a saúde dela, em um primeiro momento, e com o intuito de retomar a condição física que ela tinha em um processo devagar, com progressão de acordo com a evolução dela, que tem ocorrido muito bem, como sempre fez, tanto na parte muscular, que ela tem uma boa condição, como na cardiovascular. Procuramos colocar ela de volta ao circuito profissional, que com certeza é o caminho dela.”

Os treinamentos estão sendo finalizados neste mês. “Acredito estar bem mais forte fisicamente e também conseguir evoluir no aspecto técnico e tático nas quadras. Do meio para o final de julho embarco para Portugal para começar uma gira de torneios profissionais da Europa”, destaca Giulia, que ainda critica o preço das passagens para poder viajar.

Focada no fortalecimento e nas quadras, Giulia deverá disputar torneios pela Europa a partir do final deste mês (Foto: Fernando Priamo)

A atleta voltará, após um início de ano inimaginável, a fazer o que mais ama em caráter competitivo e representando não apenas Juiz de Fora, como seu país. Conforme o irmão e técnico Thiago, “a tendência pra frente é, quando vierem jogos duros, situações difíceis no meio esportivo, essa parte que ela passou pessoalmente vai dar mais força. O que vai ser um 30 x 40 perto do que aconteceu? Virou história pra contar e um exemplo mesmo até pra outros atletas, de superação e valorização do dia a dia. Ainda mais nesse período de transição dela pro profissional, que se torna mais lenta ainda mais por conta da pandemia.”

Seja em quadra ou fora dela, há uma Giulia renascida. “Uma Giulia mais forte e que acredita mais nela também. Que se sente muito abençoada por estar bem, com saúde e poder fazer o que mais amo.”

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