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Tribuna disponibiliza versão on-line do livro ‘Museu Mariano Procópio’

Produzido em 1995, material reforça grandeza de acervo que ainda desperta a atenção de pesquisadores de todo o país

Por Mauro Morais

30/09/2018 às 07h00

Nenhuma página de livro é frágil como o papel. Sua perenidade é inversamente proporcional à espessura de uma simples folha. Todo registro combate a ruína. Publicada em fascículos ao longo de dezembro de 1995 e janeiro e fevereiro de 1996, a edição “Museu Mariano Procópio” ganha versão digital a partir deste domingo (30), no site da Tribuna, reabrindo as portas do museu fechado para visitação há dez anos.

Clique na imagem abaixo e veja o livro na íntegra:

Refletindo a grandiosidade do superlativo acervo, com 53 mil objetos de valor histórico, artístico e científico, o material contempla os diferentes setores do espaço, da área externa aos detalhes do interior e dos objetos. Sem se esquecer de seu ilustre idealizador. “Rico, bon vivant, culto, viajado, Alfredo Ferreira Lage era um cidadão cultuado por todos que o conheciam. Seus amigos de faculdade diziam que ele era ‘uma presença marcante, porque era diferente de todos, estudioso, delicado, gentil, sempre pronto a ajudar os outros'”, resgatou o redator e editor Renato Henrique Dias no texto que abre o livro, com suas 120 páginas fartamente ilustradas com as fotografias de Márcio Brigatto.

“É o documento de um período que antecedeu o próprio fechamento do museu, com a vida daquele lugar e a essência vital que tinha”, recorda-se o jornalista, que contou, ainda, com as pesquisas de Márcio de Freitas Gomes. Nas memórias de Renato, naquele momento da publicação o museu gozava de grande prestígio social na cidade, tanto é que, para fotografar alguns setores, foi preciso restringir a visitação, constante e volumosa. Realizado em parceria com profissionais e pesquisadores do museu, hoje já aposentados, o estudo das peças e a definição dos destaques para a edição representaram o primeiro e mais robusto registro do acervo.

“O que mais me chamou atenção na pesquisa foi compreender o valor do museu, que visitava no tempo de criança, levado pela professora, mas do qual não tinha a dimensão. Quando crescemos, ampliamos o conhecimento, percebemos a importância, mas só ao tomar contato com as cerca de 50 mil peças é que acessei a grandeza daquele conteúdo”, pontua Renato, ressaltando a “qualidade e a beleza” das pinturas, bem como o superlativo e amplo acervo fotográfico.

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Páginas do livro foram transportadas para o meio digital, facilitando o acesso de quem quiser conhecer preciosidades do acervo (Fotos: Marcelo Ribeiro)

Um retrato de época

Somente na década de 1990, o período imperial brasileiro retornou ao centro das atenções. Segundo a historiadora, pesquisadora e professora do curso de história da UFJF Vanda Arantes do Vale, esse momento representou uma virada para a historiografia e, por consequência, para os acervos que se relacionam com o recorte temporal no qual o país vivia sob o governo de imperadores. “A pintura brasileira na colônia era sacra. A única pintura laica que temos era a do pessoal que vinha com (o Conde Maurício de) Nassau. Quando Dom João chegou ao Brasil, estávamos em pleno período do liberalismo econômico, iluminismo, e ele contratou a missão artística francesa, que fez retratos da corte e das autoridades, reconhecendo o Reino Unido (de Portugal, Brasil e Algarves, denominação instituída em 1815). Em 1922, com a Independência, a academia fez o imaginário do estado brasileiro, branco, racional e leigo. Tanto que a pintura religiosa nesse período caiu. O moderno era ser leigo. (Alcídio) Mafra, diretor da escola (Nacional de Belas Artes), escreveu para o Ministro de Interior dizendo que precisava importar modelos, adotando teorias hoje consideradas racistas, porque não dava para retratar um país mulato. Essa pintura, então, foi rejeitada e esquecida pelo modernismo, que queria construir um novo Brasil, com as raízes no período colonial. Esse olhar para a história desse período imperial é da década de 1990 para cá”, explica Vanda, que publicou sua dissertação de mestrado, o primeiro trabalho acadêmico sobre o museu, no mesmo ano em que a publicação da Tribuna levava às bancas o registro do acervo do espaço.

“Outono” (2,60m x 1,20m / 1853 – 1890), de Horacio Pinto da Hora, integra acervo de pinturas do Museu

Em “Pintura brasileira do século XIX: Museu Mariano Procópio”, disponível na internet, Vanda destrincha a relevância das 153 telas de 37 artistas que integram a coleção pictórica de Alfredo Ferreira Lage, figura central para a compreensão da escolha das peças. “Ele era um advogado formado na Faculdade de Direito de São Paulo, um berço do positivismo no Brasil. Essa valorização da ciência e sua maneira de ver o mundo é a do intelectual positivista. Na pintura brasileira, tem um peso muito grande a Maria Pardos, casada com ele e aluna do (pintor Rodolfo) Amoedo. Outros alunos do Amoedo são muito representativos na coleção. Na pintura internacional, os impressionistas estavam sendo vendidos nas ruas de Paris e ele (Alfredo) comprou europeus de academicismo eclético, diferentemente dos milionários norte-americanos que compraram os impressionistas”, analisa a historiadora.

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Imersa durante mais de uma década no acervo do Mariano Procópio, Vanda afirma que o museu carrega, em sua constituição, as marcas dos espaços de memória contemporâneos, que, aos moldes das catedrais do passado, desejam servir como ícones da sociedade atual.

O que temos no Museu Mariano Procópio é representativo do que estava sendo feito nacionalmente. Essa coleção é uma amostragem muito boa daquele momento. É uma pintura que estilisticamente chamamos de academicismo eclético, num museu de características enciclopédicas. No Brasil, naquele período, organizaram-se coleções, só que a que permanece inteira é a do Alfredo Lage, que construiu um museu com isso. A de outros colecionadores foi inventariada. Ela é sobrevivente

Vanda Arantes do Vale, pesquisadora e professora do curso de história da UFJF 

Vanda lamenta o presente do lugar: “Todo museu deve estar com todo o seu acervo digitalizado. Esse museu deveria estar à disposição da comunidade, do Brasil e internacionalmente também. O fechamento é um prejuízo intelectual para a cidade sem tamanho.”

Pesquisas redimensionam potência do museu

Assim como o livro “Museu Mariano Procópio”, agora digitalizado, e o pioneiro trabalho de Vanda Arantes do Vale, pesquisas acadêmicas continuam a manter as portas abertas da casa fechada. O museu juiz-forano, considerado o segundo mais importante acervo imperial do país, é um dos muitos endereços listados no best seller “Brasil: Uma biografia”, de Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling, lançado em 2015 e reeditado em 2018. Na última década, desde o fechamento do espaço para visitação, oito distintas pesquisas – entre trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses – foram produzidas na Universidade Federal de Juiz de Fora, em diferentes áreas do conhecimento. O mais recente deles tem a assinatura do graduando do curso de arquitetura e urbanismo da instituição Rodrigo de Almeida Spinelli Pinto, que se prepara para defender seu trabalho final em novembro, reunindo tanto as características físicas do prédio quanto a subjetividade da família que o ocupava.

Interessado pelas discussões patrimoniais, pelos estudos acerca de conforto acústico e amante da música, o futuro arquiteto e urbanista, que também é pianista e integrante do Laboratório de Performance Historicamente Informada do Bacharelado em Música da UFJF, juntou diferentes saberes. “Quis unir as três ciências, patrimônio, acústica e música, e comecei a estudar dentro do campo da ecologia sonora a questão da paisagem sonora, que nunca teve uma vertente histórica por ser difícil buscar relatos de recriação de paisagens sonoras. O som é efêmero. Quando acaba, perdemos o conteúdo informacional dele, em termos de originalidade do contexto em que foi criado. A pesquisa começou nesse ineditismo de investigar a paisagem sonora da época. Procurando fontes documentais que falassem dos padrões sônicos de uma época, escolhi a música, que entendo como a paisagem sonora ideal, que a gente cria a partir do que ouvimos de sons que nos envolvem. Ora a música se comporta como crítica à paisagem sonora, ora como mimese da paisagem sonora”, explica Rodrigo, que por ter uma relação afetiva com a Villa Ferreira Lage, onde sempre foi levado em passeios da infância, restringiu-se à paisagem sonora das salas de música e de jantar do lugar.

Última visita da Tribuna ao museu, em junho de 2015, na sala de música, onde obras ainda não foram concluídas (Roberto Fulgêncio/Arquivo TM)

Buscando relatos de viajantes que se hospedaram na casa, e da própria família imperial, além dos Ferreira Lage, Rodrigo encontrou indicações que lhe sugeriram os sons, naturais e mecânicos, que rodeavam o lugar. “A família era forte anfitriã, recebendo os convidados com a banda dos músicos da Colônia Dom Pedro II, trabalhadores da Estrada União & Indústria que o Mariano recrutou para aprenderem músicas e tocar para autoridades. Fontes documentais contam e dão prova dessa paisagem. Ao entrar nas salas de música, vemos que não havia só um ideal sônico, mas uma maneira de montar o ambiente para favorecê-lo acusticamente. As formas foram pensadas nesse sentido, e existem sistemas técnicos muito elaborados para a época, o que comprovamos com instrumentos atuais, como decibelímetro e sonômetro de alta precisão, usando como fonte emissora o piano-forte de 1863 do acervo, que continua na sala”, comenta o estudante.

“O que me chamou mais atenção foi perceber a preocupação que a família tinha em preconizar vários princípios acústicos numa casa de veraneio deles, favorecendo a vivência musical da paisagem sonora idealizada por eles. Existem estruturas realmente complexas na Villa. Encontramos estruturas reverberantes, ressonantes e absorvedores, que integram um programa de acústica. Há uma estruturação de planos, chanfros, reentrâncias, materiais como estuques, feltros, madeiras de cedro, papéis de parede e câmaras que emitem e que amplificam. Percebemos claramente que o espaço para ouvir o piano é a sala de jantar, já que a sala de música não tem nem espaço para ser uma sala de concerto”, aponta Rodrigo, de 23 anos, reforçando a singularidade do lugar: “Não achamos nenhuma referência de sala acústica como a que se tem no Museu Mariano Procópio. É um projeto encomendado de fora, não era do (alemão Carlos Augusto) Gambs. Não há registro de onde veio. Se buscamos referências projetuais semelhantes, não achamos em nenhuma sala brasileira ou europeia. Trata-se de uma casa única. Temos um preciosidade em Juiz de Fora.”

 

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