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A onça de Schrödinger

Por Tarcízio Dalpra Jr.

18/05/2019 às 17h04

Ilustração: Monique Oliveira/Riso Leve

Saíam da oficina e ficavam sentados ao balcão até fechar o bar, na avenida, às margens do rio. Ali tomavam toda sorte de destilados. E cerveja, para hidratar. A estufa, reluzente, apresentava o menu do jantar, servido em pequenas porções, como manda a alta gastronomia. Vez ou outra, o Mudinho, figura folclórica da região, brotava por lá.

– Lá vem o filão.

– Come rápido que ele vai pedir.

Pedia, filava, sentava e, se estivesse futebol na TV, murmurava entre um lance e outro.

– Dizem que perdeu a língua comendo. De esganação. Mordeu, engoliu e nem sentiu.

As cadeiras suspensas e a porta de ferro semiaberta eram o cartão de despedida do dono, que raramente se fazia ler pelos dois.

– Dá pra pegar! Já peguei capivara assim. Não comi porque é crime. E a carne é dura. Pego, depois solto. Se cabe capivara, cabe onça.

– Não dá. A bicha é muito maior.

– É capivara crescida… To falando que a arapuca é forte. Madeira de demolição.

– Woooowwwoooowwww (gol do Botafogo).

– E por que ninguém pega? Tão tentando faz mais de semana. Tá famosa até a bicha.

– Esses bichos não são bobos! Tem que atrair direito.

– Então pega, uai! Deve ter até recompensa.

Breve silêncio.

– Patrão, bota esse resto de estufa numa quentinha que eu vou levar! Precisa separar não. Quanto mais misturado melhor. E pode entornar o caldo todinho por cima.

Pegou o marmitex e saiu sem dar tchau, enquanto o Mudinho lamentava o gol de empate do Bangu.

Dia seguinte, quando o amigo já se conformava com sua ausência, surge ele esbaforido, sob a porta entreaberta do bar.

– Peguei. Peguei a bicha!

– Tá de sacanagem!

– Num disse que era só botar a isca certa? Tá lá. Presa na arapuca.

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– Deve ser capivara.

– Capivara não rosna daquele jeito!

– Tá de onda!

– Vamos lá ver! To te falando que é ela.

Caminharam até o quintal da casa, onde a suposta onça já havia feito um estrago no galinheiro, dias atrás. Por alguns minutos, apenas encararam a arapuca desarmada, em completo silêncio.

– Não to ouvindo rosnado nenhum.

– Mas tava. Rosnou alto e se debateu. Deve ter cansado.

– Esse bicho não cansa assim não.

– Ou comeu tudo e capotou.

– Deve ser capivara. Ou não tem nada aí dentro.

– Certeza que é ela.

– Então morreu. Não tem entrada de ar. Há quanto tempo tá fechada?

– Deve ter umas três horas já.

– Então morreu.

– E dão recompensa mesmo assim?

– Aí não sei.

– Devia ter feito uns furos na madeira.

– Onça ou capivara, na certa tá morta.

Cheio de certeza, deu alguns passos e ergueu a arapuca. Nada de onça. Nada de capivara. Só o Mudinho, de barriga cheia, cochilando depois do jantar.

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