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Bordados de costureiro e figurinista de Rio Novo homenageiam divas em mostra na Casa de Cultura

Exposição resgata série de Eloy Woyames, que fez históricos desfiles de escolas de samba de Juiz de Fora e também de São Paulo

Por Mauro Morais

09/08/2018 às 07h00 - Atualizada 15/08/2018 às 13h10

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Trabalhos de Eloy Woyames reúnem lã, fios, pedras e outros ornamentos, retratando divas do imaginário LGBTI+ (Foto: Leonardo Costa)

Ah, o tempo silenciador, capaz de fazer calar as mais altas vozes! Numa vida entre as batucadas de escolas de samba paulistas e juiz-foranas, Ari Eloy Woyames Pinto, ou apenas Eloy Woyames, como o figurinista e costureiro assinava suas criações, escreveu uma história que, passada quase uma década de sua morte, retorna à cena na exposição “Transbordados”, em cartaz a partir desta quinta, 9, na Casa de Cultura, integrando a programação da II Semana Rainbow da UFJF, que segue até o dia 19.

Partindo do fim — da série de bordados produzidos em seus anos finais, após regressar da vida em São Paulo —, a mostra devolve ao presente uma importante figura que inseriu sua pequena Rio Novo, e também Juiz de Fora, na história da moda brasileira. Amigo pessoal de nomes como Clodovil e Dener, Eloy começou na carreira ainda jovem, como desenhista de lojas de tecido do nobre Bairro Jardins, em São Paulo. Dali partiu para o ateliê próprio, coroado com o prêmio Agulha de Ouro, ponto alto da Feira Nacional da Indústria Têxtil (Fenit).

Testemunha do vigor que as companhias de tecidos nacionais e a alta-costura brasileira viveram nas décadas de 1960 e 1970, Eloy era considerado uma potência no grande centro industrial, de onde saíam as principais coleções do país. Em 1976, ele fez sua estreia no desfile de escolas de samba de Juiz de Fora, considerado o segundo mais importante do Brasil. Campeão por três anos pela Turunas do Riachuelo, estreou no Partido Alto em 1981, assinando os famosos figurinos e enredo “Almôndegas de ouro”. Saiu vencedor.

Em novembro do mesmo ano, já anunciava a entrega de todos os desenhos para o carnaval de 1983 da Partido Alto, na sua opinião, um dos mais belos trabalhos que fez. “O enredo — Olé Olá — brasiliano — é dividido em quatro alas: Alegria do Carnaval – Alegria das Festas – Alegria do Futebol – e Alegria brasiliana. Woyames fecha a escola com a ala diplomática com uma fantasia riquíssima nos tons verde-amarelo, azul e branco num civismo total. Com 104 desenhos prontos, a escola já está se movimentando muito, e, segundo Eloy, a beleza total será mostrada mais uma vez na avenida”, descrevia uma nota na Tribuna de 6 de novembro de 1982.

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Disputado no carnaval juiz-forano, Eloy retornou para a Turunas, para comemorar o cinquentenário da agremiação, com superlativos mil componentes, distribuídos em 12 alas, uma delas a bateria, com 160 foliões. “Ela vem equilibrada, com bom gosto. Um visual muito bonito, sem grandes luxos, porque não podemos nos permitir isto, mas muito bonita”, exaltava Eloy, semanas antes do desfile, em entrevista à Tribuna. No ano seguinte, em 1985, o figurinista assinou o desfile “Que rei sou eu”, da Imperador do Ipiranga, no desfile do grupo especial do carnaval de São Paulo, ficando em oitavo lugar.

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Foto: Leonardo Costa

As divas na ponta da agulha

Forjadas em lã e pedrarias sobre juta, as coloridas personagens que Eloy Woyames criou na terceira idade, já de volta à sua Rio Novo natal, retomam seu interesse pelo carnaval e denunciam seu virtuosismo na alta-costura. “São caricaturas bordados, personagens da nossa cultura popular, como a espanhola e a egípcia, além de divas como a Isabelita dos Patins. Certamente tem muito da caligrafia dele ali. Como carnavalesco, ele sempre foi muito transbordante. E essa característica está na exposição”, comenta o curador da exposição Paulo Alvarez.

Segundo Alvarez, “existe um material muito rico a ser explorado”, já que Eloy produziu outras séries ainda inéditas, preservadas por sua família. “É um trabalho divertido e muito vivo. Assumidamente barroco, no exagero e na profusão de materiais, sobreposição de elementos”, pontua o curador, ressaltando a contemporaneidade que se expressa num trabalho altamente resistente ao tempo. “A linha e o discurso ficam fortes no bordados”, acrescenta Alvarez. Em alta nas artes visuais produzidas hoje, os bordados, como linguagem, remetem à memória. No gesto de Eloy, reforçam não somente a memória individual, mas coletiva. Outros e bons carnavais.

TRANSBORDADOS
Abertura nesta quinta, 9, às 20h. Visitação até dia 19, das 14h às 19h, na Casa de Cultura (Avenida Rio Branco 3.372 – Centro)

(Reportagem revisada e atualizada em 15 de agosto de 2018)

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