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‘Ex Libris’, a prática secular para marcar a posse de livros

“Ex libris”, prática secular adotada por pessoas e instituições para marcar a posse de livros, ganham fôlego com carimbos


Por Gabriel Ferreira Borges

04/06/2021 às 07h50

“Ex Libris” são marcas feitas nos livros que carregam a identidade de seus donos

A troca de livros até pode ser generosa. Romântica, por vezes, mesmo que também racional por outras. Há quem fie ferrenhamente a circulação irrestrita e despudorada de livros, sem qualquer apego, vínculo, posse. Não importa a obra, o autor, a edição, a tradução, o volume. Um, dois, três. Quatro até vai. Mas cinco já é demais. O sangue talha quando o desejo por uma consulta miserável, por esclarecer uma dúvida agoniante sucumbe diante da lembrança do livro emprestado ao amigo há três anos, dois meses e 21 dias. Alguns neuróticos até optam pelas planilhas para o controle do mercado paralelo de circulação de livros. Mas, talvez, uma saída possa ser sutil. Não que não seja rígida, severa, deselegante. Só que uma sinalização, um marcador, uma etiqueta, um “ex libris” pode constranger surrupiadores e extraviadores.

A expressão em latim “ex libris” é traduzida como “dos livros de”. É uma marca personalizada criada por proprietários de livros e até instituições, como bibliotecas ou museus, para indicar a posse de determinado título. “Historicamente o ‘ex libris’ está associado a demonstrar a quem o livro pertence ou pertenceu”, explica o livreiro Paulo Roberto de Almeida, 36 anos, proprietário da Livraria Atena. “Mas, além da posse, existe um significado simbólico no ‘ex libris’, porque demonstra valores, trajetória de vida, produção e interesses de conhecimento relacionados à pessoa que produz o ‘ex libris’.” Os ‘ex libris’ são uma etiqueta, uma assinatura ou um carimbo geralmente estampados na contracapa dos livros. “Alguns escritores, como Manuel Bandeira e Cecília Meirelles, utilizavam. São os exemplos mais notórios para a minha memória afetiva”, pontua Paulo Roberto.

Os ‘ex libris’ em carimbo têm recebido maior preferência ultimamente. “Tem gente que ainda confecciona o ‘ex libris’ no papelzinho tradicional. Mas alguns adotaram o carimbo. Além de ser menos oneroso, é mais prático também”, afirma a bibliotecária Mary Komatsu, 57. Mary trabalhou por 33 anos no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e administra uma página no Instagram chamada “Caçadora de ex libris”. Mas os “ex libris” em carimbo estão longe de ser unanimidade entre pesquisadores e estudiosos. “Há controvérsias se a técnica com o carimbo é válida, porque o método tradicional é de etiquetas. A pessoa faz um desenho e o encomenda junto a um artista. Há vários tipos de técnicas de ‘ex libris’. Xilogravura, linoleogravura e litografia, mas tem algumas pessoas que simplesmente fazem a ilustração, imprimem e colam.” Tanto a de xilogravura quanto a de linoleogravura são feitas em madeira, ainda que a última em um tipo mais impermeável, aponta a bibliotecária.

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Identificação gráfica da personalidade o dono

Embora haja a controvérsia, Mary encomendou um “ex libris” próprio em carimbo. A insígnia projetada reúne símbolos afetivos para a bibliotecária. “Há a imagem de Vitória de Samotrácia (escultura da deusa grega Nice exposta no Museu do Louvre), porque trabalhei por muitos anos em biblioteca e museu, além de representar a liberdade, a mulher. Ainda tem um pequeno pinheiro, que é o significado do meu sobrenome (Komatsu) em japonês, e a própria expressão ‘ex libris’.” O “ex libris” ainda traz duas borboletas, como referência à caçadora da página administrada por Mary, bem como a frase em latim “carpe diem, quan minimum credula postero”. “Significa ‘aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã’”, explica. “O livro aberto faz referência à minha profissão, e o pincel, à minha relação com a arte. As referências do ‘ex libris’ são todas à minha pessoa.”

Paulo Roberto não tem um “ex libris” próprio. “A minha esposa sempre fala que preciso fazer, preciso fazer um… mas ainda não cheguei a uma concepção de desenho e frase que poderia colocar para demonstrar a minha relação com os livros.” No entanto, já passaram sob os seus olhos “ex libris” de todos os tipos, para todos os gostos. “Os livros podem ter tanto etiquetas quanto carimbos. Já vi exemplares com os dois tipos de ‘ex libris’. Até há quem considere a assinatura de posse como ‘ex libris’, mas há muitas discussões em torno disso. Não há consenso, não tem o caráter simbólico que alguns acham necessário para caracterizar um ‘ex libris’.” As dedicatórias, acrescenta, podem até indicar posse, mas Paulo Roberto mesmo não classificaria como um marcador. “O ‘ex libris’ tem que levar em consideração uma construção gráfica de alguma pessoa.”
Antigamente, explica Mary, os “ex libris” tinham caráter heráldico, ou seja, fazia-se o uso dos brasões das famílias reais e aristocráticas. “Mas sempre pessoal. Colocavam o nome da família ou então até alguns ‘falantes’, por assim dizer, humorísticos, paisagísticos, simbólicos, mitológicos e até eróticos.” No entanto, os “ex libris” escapam aos sentidos de posse. Mary detalha que, além de haver colecionadores de “ex libris”, há também aqueles marcadores produzidos como obras de arte em miniatura.

Por outro lado, as insígnias podem ser utilizadas como uma espécie de marca de proveniência, isto é, saber quais rastros o livro deixa por onde passou. “Por exemplo, a Biblioteca Nacional recebe um livro que foi de Ruy Barbosa. O livro tem o ‘ex libris’ do Ruy Barbosa. Sabemos de onde ele veio, a história daquela obra.” Quando trabalhava no Museu Nacional de Belas Artes, Mary recebeu a doação de parte da coleção de livros de Quirino Campos Fiorito, por exemplo. O “ex libris” foi fundamental para que o acervo fosse organizado em uma só estante. “Inicialmente até catalogamos no arquivo geral. Depois, fomos buscando um por um para reunir toda a obra junta.”

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