Sob o mesmo Sol
por Darlan Lula
Seus nervos estremeciam. Não poderiam acreditar, ele e sua mulher, que aquilo iria acabar. Como uma droga lisérgica contaminando a todos com sua virulência, o mundo parou, a Terra enrijeceu seus músculos e nos ofertou o absinto enigmático, frio e invisível. Tudo aquilo, no entanto, estava prestes a ter fim, pois amanhã será o grande dia, aquele em que todos esperavam, miraculosamente, diante dos olhos incrédulos ainda de muitos e muitos pelo mundo afora. Era a pura verdade! Como isso era possível, ninguém conseguia explicar. Só sabiam que era o fato, não era fake. Uma grande e espessa nuvem se formara em todos os continentes do Planeta. O mundo parou aterrorizado. Será o fim dos tempos? Deus está castigando a todos?! Muitos já encomendavam suas almas para os céus; outros tentavam pacto com o demônio. Mas não seria agora que o mundo se veria livre dos seres humanos. Pelo contrário. Parecia uma chance, uma mísera fagulha de esperança para que todos pudessem refletir e ser mais humanos, uma réstia de sentimento que crescia à medida que o povo se enclausurava em suas casas e percebia que a vida social importa, que os outros importam, que não nascemos para a reclusão e a solidão. Aquela nuvem gigantesca, premissa de novos e bons tempos, era a ressurreição do que viemos perdendo a vida inteira: o amor incondicional e fraterno. O que era essa grande e espessa nuvem, quais suas intenções? A investigação começou, a Nasa disponibilizou uma foto em que se via uma enorme massa cobrindo a Terra, como um manto, visão inebriante. O vírus passou a ser coadjuvante, todos falavam nesta imensa cobertura. Não havia jornal que não noticiasse tal informação. A que ela veio? Por que está aqui nos cobrindo, lançando-nos numa escuridão mórbida, pois o Sol já não aparecia. Todos os dias pareciam noites vazias, melancólicas e tediosas. Uma equipe de cientistas, mobilizada pelo bloco do G-20, grupo formado por ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia, devassou a nuvem, escrutinou todos os cantos e recantos permitidos para descobrir algo. Uma espécie de drone sobrevoou grandes altitudes para colher amostras, laboratórios pelo mundo pesquisaram. Foi uma descoberta magnífica, esplêndida, espetacular, aterradora: a nuvem possuía vários ingredientes de substâncias que eram objeto de estudo pelos especialistas para a produção da vacina contra a COVID-19. Como? Todos se perguntavam. O mundo ficou em êxtase. É um milagre! Os descrentes começaram a duvidar de si, os agnósticos tentavam achar uma explicação plausível e racional, os crentes se persignavam e agradeciam aos céus. Sabiam que a chuva iria cair, fizeram previsões, estudos científicos e descobriram que a sua precipitação seria… amanhã pela manhã. Por isso o casal tinha seus nervos estremecidos, não conseguia pegar no sono, estava eletrizado, ansioso, cheio de planos. A orientação que correu mundo afora é que as pessoas deveriam sair às ruas e tomar um grande banho de chuva, deixando a água penetrar pelos poros, pelas narinas, pela boca, pelos olhos, pois aquilo seria a grande salvação para que a imunidade penetrasse surdamente nos corpos de todos; como se lavasse a alma e nos expurgasse de todos os pecados, iniciando um novo ciclo de vida. A manhã chegou. Os estrondos no céu começaram, raios chapiscaram as nuvens, colhendo fachos luminosos que estonteavam os olhos. Em todos os recantos, desde os maiores cartões-postais do Planeta até num simples lugarejo no interior, o povo começou a sair, muitos de pijama, outros tantos com suas melhores roupas, alguns com trajes de banho, bebês de frauda, nenês no colo, velhos de cadeira de roda, outros sendo empurrados em macas com rodinhas pelos seus familiares; as ruas se encheram. Todos estavam em choque e em êxtase, semblantes anestesiados. De repente, miraculosamente, novamente, o mundo foi tomado por uma música que se podia ouvir de qualquer lugar, qualquer canto, qualquer tribo, qualquer hemisfério e continente. Ecoou com força suprema, cantada na língua nativa de cada país: “Under the same sun”. Vinha dos céus. E todos, sem exceção, como num passo sincopado, vislumbraram o alto. E a chuva começou a cair. “Eu vi a manhã / Ela foi destruída por uma arma / Ouvi um grito, o vi cair, ninguém chorou.” As gotas fortes, obtusas, explodiam nos rostos de todo o mundo, invadindo poros, encharcando roupas, misturando-se às lágrimas de muitos. “Eu vi uma mãe / Ela estava rezando por seu filho / Traga-o de volta, deixe-o viver, não o deixe morrer.” A emoção de quem perdeu um ente, um amigo ou amiga, um conhecido, ou quem simplesmente sente empatia pelo próximo, era enorme; o choro convulsivo tomava conta. Pessoas levantavam as mãos aos céus, abraçando-se a si mesmas, numa comunhão fraterna e espiritual consigo, outras rodopiavam, e a chuva limpava os corpos com sua magnitude. “Você já se perguntou / Se existe um paraíso no céu / Por que não podemos alcançá-lo direito?” Não havia lugar na face da Terra que não estivesse com as ruas apinhadas de pessoas comovidas, como se por alguns instantes todos se conectassem através daquele fenômeno inacreditável, um misto de choro feliz com gargalhadas estridentes de satisfação, reflexão interior e presa dentro do peito, que explodiria em dança, em fraternas manifestações de sociabilidade, filhos carregando seus velhos no colo, crianças se jogando no chão, bebês banhados com fraudas encharcadas, adolescentes se beijando prenunciando vida após o colapso. “Porque nós todos vivemos sob o mesmo sol / Nós todos caminhamos sob a mesma lua / Então por que, por que não podemos viver unidos?” Aquele casal com nervos estremecidos se beijava ardentemente. As gotas da chuva escorriam lentamente sobre seus corpos eletrizados, magnetizados, como se tudo tivesse um propósito, como se aquela quarentena fosse necessária para fazê-los mais fortes, mais coesos, mais unidos, mais rigidamente inseparáveis. “Eu vi o anoitecer / Desvanecendo as sombras uma a uma / Nós vimos o cordeiro, se curvar para o sacrifício.” Era o sacrifício necessário para que todos, sem exceção, entendessem a grandeza de estar no mundo e ser no mundo apenas mais um. “Eu vi as crianças / As crianças do sol / Como elas lamentam, como elas sangram, como elas morrem.” E que a vida é mais importante que qualquer outra coisa, que com ela podemos ser mais, podemos nos preocupar com o próximo, podemos ser menos egoístas e monetizados. “Você já se perguntou / Se existe um paraíso no céu / Por que não podemos parar a luta?” Aquele casal tinha a certeza de que, depois daqueles acontecimentos, não seria mais o mesmo consigo mesmo muito menos com seus semelhantes, porque a vida vale mais e devemos preservá-la a qualquer custo. “Às vezes eu penso que estou ficando louco / Nós estamos perdendo tudo que temos e ninguém parece se importar.” E que o mais importante é não perder o controle e viver em harmonia com o mundo que nos cerca. “Mas no meu coração isso não muda / Nós precisamos nos recompor e trazer um pouco de amor ao nosso mundo.” O casal, assim, se descola um do outro e começa a abraçar seus vizinhos, e são retribuídos na mesma intensidade. E o mundo se abraça, as pessoas se beijam, fazem cirandas, dançam na chuva, cantarolam a canção que ecoa dos céus, um presente divino. “E tem realmente importância / Se existe um paraíso lá em cima? / Nós certamente poderíamos ter um pouco de amor.” O amor toma conta, pelo menos neste momento, países em guerra param para se banhar, faixas de guerra se harmonizam num tácito acordo silencioso de paz. “Porque nós todos vivemos sob o mesmo céu / Nós todos olhamos as mesmas estrelas / Então por que, por que não podemos viver unidos? / Porque nós todos vivemos sob o mesmo sol / Nós todos caminhamos sob a mesma lua.” E, neste conluio amoroso, as gotas arrefecem, uma fenda se abre no horizonte e, depois de dias, o Sol surge, traçando seus raios dourados sobre a chuva que cai. E o Mundo se imuniza.
Darlan Lula é poeta, escritor e professor, autor de, entre outros, “Viera tarde” (Funalfa Edições, 2005), “Desvios” (Funalfa Edições, 2008), “Casa de madeira” (Funalfa Edições, 2015) “Todos os dias” (Funalfa Edições, 2016, em parceria com o artista visual Paulo Alvarez). Nasceu em Itacarambi, no norte de Minas Gerais, e vive e trabalha em Juiz de Fora.
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