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95% dos idosos recorrem ao SUS

Aos 100 anos, dona Rita Menon busca amparo no SUS, mas familiares também recorrem a serviços particulares para a idosa (LEONARDO COSTA/05-02-16) Dona Rita Pinto Menon tem 100 anos. Moradora do Bairro Quintas da Avenida, na região Nordeste, demonstra lucidez apesar da idade e guarda a religiosidade como um dos valores para sua vida. Dona […]

Por EDUARDO MAIA

12/02/2016 às 07h00- Atualizada 12/02/2016 às 08h26

Aos 100 anos, dona Rita Menon busca amparo no SUS, mas familiares também recorrem a serviços particulares para a idosa (LEONARDO COSTA/05-02-16)

Aos 100 anos, dona Rita Menon busca amparo no SUS, mas familiares também recorrem a serviços particulares para a idosa (LEONARDO COSTA/05-02-16)

Dona Rita Pinto Menon tem 100 anos. Moradora do Bairro Quintas da Avenida, na região Nordeste, demonstra lucidez apesar da idade e guarda a religiosidade como um dos valores para sua vida. Dona Rita assiste à missa pela TV e reza o terço diariamente. Quando precisa se locomover pela casa, embora suscetível a quedas, recusa o amparo dos familiares. Ao necessitar de atendimento médico, seus familiares recorrem ao Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, em casos mais delicados, não pensam duas vezes em buscar a consulta particular, explica sua filha, Rosa Menon Silveira.

Idosos, como dona Rita, são alvo de uma pesquisa da UFJF, que busca traçar o perfil deste público na cidade de Juiz de Fora, terceira do país com maior concentração de idosos em municípios com mais de 500 mil habitantes. O estudo mostra que 95% deles usam o SUS, mesmo que 60% admitam ter plano de saúde. Além disso, entre os entrevistados, os pesquisadores identificaram que 95% apresentam algum comportamento que sugere medo de cair. Entre os ouvidos no levantamento, 35% indicaram ocorrência de queda no último ano e, desses, 44% relataram mais de uma queda. Além disso, 30% dos idosos são classificados com fragilidade leve ou moderada, enquanto 5% com fragilidade severa.

Feita em domicílio, a pesquisa está sendo desenvolvida sob supervisão de doutoranda e mestrandas, envolvendo alunos de graduação em fisioterapia e medicina. Para a amostra, foram entrevistados 423 idosos com perguntas sócio-demográficas, sobre as síndromes geriátricas, como o uso de medicamentos, religiosidade, estilo de vida, medidas antropométricas, entre outras. A pesquisa é desenvolvida pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e o Núcleo de Assessoria, Treinamentos e Estudos em Saúde (Nates), ambos da universidade.

O idoso “de forma abrangente”

Componente do grupo, a professora da Faculdade de Medicina, Danielle Cruz, que atua com síndromes geriátricas, reforça que a saúde do idoso deve ser pensada de maneira abrangente, com foco no cuidado. “Devemos extrapolar a dimensão física e considerar também outros domínios, como cognição, religiosidade, suporte social, acesso aos serviços de saúde, entre outros, admitindo assim que as vulnerabilidades relacionadas à saúde não podem ser interpretadas de forma isolada”, afirma.

O inquérito surge como uma nova etapa de um estudo realizado em 2010, que busca entender quais são as síndromes geriátricas, como a fragilidade, as quedas, o medo de cair e a capacidade funcional. A professora do Departamento de Saúde Coletiva, Isabel Cristina Gonçalves Leite, destaca que este tipo de estudo é necessário para a formulação de políticas públicas na cidade. “Planejar políticas sem informações epidemiológicas, ou seja, sem conhecer a população alvo, é inconsequente. Há que se entender como essa população se comporta, vive, do que ela necessita, o que ela já dispõe para intervenções serem propostas”, afirma.

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Isabel observa, no entanto, que as reflexões da pesquisa não são destinadas somente ao Poder Público, mas à própria sociedade, que envelhece “a passos largos”. “Como cada um de nós está se preparando para isso? Como nos tornar e tornar os idosos mais independentes, participativos? Como trazer qualidade de vida aos anos que a ciência, a tecnologia, os serviços de saúde já conseguiram acrescentar para o homem moderno? Como capacitar o cuidador? Quem é esse cuidador? Essas são perguntas a serem respondidas por toda sociedade”, conclui.

Ortopedia e oftalmologia

Segundo a Secretaria de Saúde, as especialidades que têm maior demanda de idosos hoje no SUS em Juiz de Fora são oftalmologia e ortopedia. A cidade dispõe de equipamentos específicos que buscam dar cobertura à saúde do idoso. Um deles é o Departamento de Saúde do Idoso (DSI) localizado na Rua Batista de Oliveira, no Centro, que presta atendimento clínico, geriátrico, otorrinolaringológico, e possui outros profissionais, como enfermeiros, assistentes sociais, fisioterapeutas, entre outros. Além disso, participam nas ações de vacinação e ações de educação em saúde.

Também no DSI, existe o serviço de otorrinolaringologia, que atende aos idosos de todo o município, para os casos de perda auditiva. Nas áreas cobertas pelo SUS, os idosos também são atendidos pela própria Unidade de Atenção Primária à Saúde (Uaps), se necessário, encaminhados ao DSI para a atenção especializada em geriatria. O município também conta com o programa Mais Vida, em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde. No centro Mais Vida, os idosos são atendidos por uma equipe multiprofissional, onde é feito um plano de cuidados.

Apesar da estrutura, a ouvidora da saúde de Juiz de Fora, Samantha Borchear, afirma que Juiz de Fora ainda está abaixo da expectativa de atendimento ao idoso na saúde pública. Segundo ela, do total de reclamações recebidas no órgão, 30% se referem às condições de atendimento a este público. Segundo ela, entre as principais queixas, estão a falta de priorização do atendimento aos idosos dentro do SUS, falta de médicos especializados, filas no PAM-Marechal e Farmácia Central, crescimento de doenças relacionadas à idade e baixo diagnóstico, pouca abrangência de atendimento pelo DSI, que ainda compreende mais a região central.

Demora

Segundo Samantha, é grande a demanda registrada por atendimento médico em ortopedia no HPS. A demora nas consultas complica a situação, principalmente levando-se em conta a questão da fragilidade dos idosos, vítimas de quedas e que apresentam fraturas, conforme demonstra o índice levantado pela pesquisa da UFJF. “Somos uma cidade de grande concentração de idosos, e esta população é muito pouco priorizada. O idoso enfrenta demora nas consultas, buscam a ouvidoria, criticando a dificuldade do acesso ao atendimento”, destaca.

Samantha afirma que a cidade não cumpre as metas da Política Nacional de Atenção à Saúde da Pessoa Idosa, tendo o pacto pela saúde sido firmado em 2009. “A saúde do idoso precisa de uma interface com outras políticas, como a assistência social, a cultura, envolvendo o familiar. Muitas famílias, pela carência de recursos, não conseguem lidar com os tipos de doenças que surgem neste período da vida, como o Alzheimer, o Parkinson. E entre as metas da política está a questão da qualidade de vida do idoso, sua identificação. Quem tem condição financeira consegue, mas quem não tem, sofre”, ressalta.

Consultas programadas

A Secretaria de Saúde afirma que a prioridade no Departamento de Saúde do Idoso (DSI) é absoluta. Já no PAM-Marechal, são acessados os setores de atenção especializada, via Central de Marcação de Consultas. Através da Subsecretaria de Atenção Primária à Saúde, a pasta está trabalhando no Plano Diretor da Atenção Primária que, dentre várias práticas estabelecidas para o acolhimento aos usuários, preconiza o atendimento através da agenda programada, tornando o acesso aos pacientes organizado, eliminando a fila de espera. Assim como os pacientes crônicos, os idosos terão suas consultas programadas, com dia e hora.

Sobre as demandas por ortopedia, a Prefeitura afirma estar em constante abertura de processo de contratação, dada a dificuldade de profissionais nessa especialidade, situação que é a mesma em todo o país. Nesse caso, explica que a Rede de Urgência e Emergência atende os casos, independentemente da idade.

A respeito da Política Nacional de Saúde do Idoso, a secretaria afirma que esta não atua somente na atenção direta aos usuários dos serviços de saúde, mas também na educação em saúde. Assim, são realizadas ações na atenção primária através de grupos educativos, incorporando atividades físicas, práticas de boa alimentação, entre outras. A pasta ainda afirma que há uma preocupação em relação à acessibilidade nas unidades de saúde. Por isso, está realizando obras de revitalização em várias Unidades de Atenção Primária à Saúde (Uaps) e construindo postos que obedecem as novas exigências para o acolhimento dos usuários, como as rampas.

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