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Corpo de homem morto por doença desconhecida será necropsiado em BH

Homem estava internado na Santa Casa e faleceu na noite de terça; médico diz que não há motivo para pânico

Por Sandra Zanella

08/01/2020 às 07h40- Atualizada 14/01/2020 às 09h59

O paciente internado em Juiz de Fora por doença desconhecida, que atinge mais sete pessoas na Região Metropolitana de Belo Horizonte, não resistiu e morreu na noite de terça-feira (7). Paschoal Demartini Filho, 55 anos, era morador de Ubá, a cerca de 110 quilômetros de distância, e estava na Santa Casa de Misericórdia desde o dia 31, após ser transferido da sua cidade. Segundo a assessoria do hospital, o óbito aconteceu às 19h45, em decorrência de uma parada cardiorrespiratória. A morte aumenta a preocupação em torno da moléstia ainda misteriosa, que ganhou mais dois casos e teve um dos sete iniciais descartado. As autoridades de Saúde, no entanto, afirmam que não é necessário pânico, pois todas as providências adequadas estão sendo tomadas. Além da realização de exames laboratoriais na Fundação Ezequiel Dias (Funed), sem resultados conclusivos até o momento, o corpo de Paschoal foi encaminhado para necropsia em Belo Horizonte. O Ministério da Saúde também está mobilizado, e a Polícia Civil de Minas trabalha no levantamento de informações para verificar se há indícios de crime. Amostras de bebidas foram encaminhadas ao Instituto de Criminalística e estão sendo examinadas.

Os primeiros sintomas da doença são gastrointestinais, como náuseas, vômitos e/ou dores abdominais, associados a insuficiência renal aguda grave de evolução rápida (até 72 horas), seguida de uma ou mais alterações neurológicas.

Em entrevista à Rádio CBN, o médico nefrologista da Santa Casa, Vinícius Sardão Colares, falou sobre o quadro do paciente que morreu na terça (Foto: Cris Hübner)

Até o dia 6, foram notificadas sete ocorrências suspeitas, todas de homens com idades entre 23 e 76 anos. Além do morador de Ubá, um é de Nova Lima, na grande BH, e cinco são residentes na capital mineira. Um desses casos foi descartado pelo fato de não apresentar os mesmos sintomas dos demais e por conta de o paciente ter doença renal prévia, segundo informou a Secretaria de Estado de Saúde (SES) nesta quarta, sem fornecer mais detalhes. Ao mesmo tempo, entretanto, mais dois novos casos foram notificados, totalizando oito que permanecem em investigação. As vítimas mais recentes também são do sexo masculino, com 56 e 64 anos, e são moradores do Buritis, bairro de classe média alta e alta da região Oeste da capital, que, curiosamente, tem concentrado a maioria das notificações. Os dois últimos homens estão internados em hospital particular de Belo Horizonte.

Apesar de Paschoal ser morador de Ubá e ter sido atendido em Juiz de Fora, ele também teria contraído a doença ou sido contaminado em Belo Horizonte. Segundo informações de familiares, a vítima esteve desde antes do Natal junto com uma filha e parentes em um condomínio no Buritis. O genro dele está entre as seis pessoas que permanecem internadas. Outro morador do mesmo residencial em que a filha de Paschoal mora no Buritis também seria um dos pacientes que apresentaram sintomas da doença ainda desconhecida. Ou seja, entre os sete homens inicialmente identificados, três teriam estado no mesmo condomínio. Ainda conforme a família, a Vigilância Sanitária da capital mineira compareceu à casa da filha de Paschoal no início do mês e recolheu amostras de gêneros alimentícios, que foram encaminhadas para análise.

Busca por diagnóstico

Em nota, a SES confirmou, com pesar, o falecimento ocorrido em Juiz de Fora, acrescentando tratar-se de um dos casos investigados pelos Centros de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs) de Minas e Belo Horizonte, com o objetivo de esclarecer diagnósticos e buscar novos possíveis pacientes. “Desde que foi notificada, a Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte acompanha e monitora os casos e investiga os aspectos clínicos, epidemiológicos e sanitários que envolvem a ocorrência. Essa investigação abrange, inclusive, ação dos fiscais sanitários na coleta de alimentos e demais produtos, para análise laboratorial, além de vistorias nos locais de aquisição desses produtos.”

O primeiro relato de insuficiência renal aguda com alterações neurológicas foi notificado no dia 30 de dezembro em hospital privado de Belo Horizonte, seguido pelo homem atendido em Juiz de Fora no dia 31. Os sintomas com início mais precoce surgiram no dia 19, e a média de dias entre as primeiras manifestações e a internação foi de 2,5. “As investigações seguem seu curso, realizadas pela força-tarefa composta por técnicos da SES, da Secretaria Municipal de Saúde de BH e do Ministério da Saúde.” Ainda conforme a SES, o grupo esteve reunido nesta quarta “para alinhamento das informações e dados colhidos até o momento e definição dos trabalhos nos próximos dias”.

Sobre as investigações, a Polícia Civil acrescentou estar realizando entrevistas, comunicação com outras instituições públicas, entre demais providências pertinentes, “primando por procedimentos científicos que permitam analisar se existe nexo entre os eventos e/ou vítimas”. Um inquérito policial só será instaurado se houver indicativos de ação criminosa.

Médico que acompanhou paciente fala sobre doença

Em entrevista à Rádio CBN na manhã desta quarta-feira (8), o médico nefrologista da Santa Casa de Misericórdia, Vinícius Sardão Colares, que acompanhou o tratamento de Paschoal Demartini Filho, reforçou que todos os sete pacientes internados inicialmente têm em comum o fato de terem passado o final de ano em Belo Horizonte. As vítimas apresentaram na fase inicial, já nos primeiros dois ou três dias, diminuição da quantidade de urina, com insuficiência renal. “Com essa intoxicação, por diminuir a limpeza do organismo, com a falta do rim funcionando, os pacientes chegam com queda do estado geral. (Paschoal) começou com quadro de náusea, cefaleia, piorando o estado geral, onde deu entrada no hospital de Ubá. Lá já foi iniciado o procedimento de hemodiálise.”

Outro ponto confluente entre os homens investigados em Belo Horizonte e o internado em Juiz de Fora, segundo o especialista, é que, após a insuficiência renal, eles evoluíram em um período curto, de horas ou poucos dias, para quadros neurológicos, com “diminuição da força do pescoço para baixo, associado também com lesão de nervos da face: dificuldade de olhar e casos relatados de cegueira ou de redução da capacidade visual.”

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Conforme o nefrologista, apesar do rápido avanço dos sintomas, Paschoal deu entrada consciente na Santa Casa, ao ser transferido do hospital de Ubá na véspera do ano novo. “Os pacientes começam com náusea e vômito, cefaleia e alteração visual. Em segundo lugar vem a insuficiência renal. De cinco a sete dias depois aparecem os sintomas mais graves neurológicos. Esse paciente chegou aqui acordado, depois de estar uma semana internado em Ubá.”

Como profissional da área de saúde, Vinícius pontuou que a falta de uma causa definida para a doença é o que chama mais a atenção. “Não conseguimos estabelecer uma etiologia clara para esses casos, dizer o que está acontecendo exatamente, encaixar em uma doença específica. Por isso fizemos uma notificação para a Vigilância Epidemiológica e já entramos em contato direto, em Belo Horizonte, com os médicos que estavam fazendo tratamento do primeiro paciente diagnosticado. Com isso foram surgindo outros casos.”

De acordo com o especialista, os exames realizados para viroses mais comuns em circulação, como zika, chikungunya e febre amarela, deram negativo. “São preliminares, têm exames mais sofisticados que são possíveis fazer. Todas as bactérias investigadas também foram negativas.”

A Secretaria Municipal de Saúde confirmou, na terça, que o setor responsável havia encaminhado uma amostra de líquor (líquido que banha o sistema nervoso e se encontra dentro das meninges) do paciente para a Fundação Ezequiel Dias. A SES informou que o laboratório realiza pesquisa de arboviroses (causadas por vírus como da dengue), febres hemorrágicas, infecções bacterianas e fúngicas sistêmicas, doenças neuroinvasivas, intoxicações exógenas, dentre outras.

População deve manter a calma

O médico nefrologista Vinícius Sardão Colares afirmou ainda que a população deve manter a calma e ficar tranquila, não sendo necessário qualquer tipo de pânico, porque todas as medidas necessárias estão sendo realizadas pelas autoridades de Saúde. “A investigação está sendo conduzida, e as doenças mais comuns do dia a dia já foram excluídas. Inclusive doenças mais raras, que conseguimos fazer algum exame, deram negativo. Não parece ser uma coisa transmissível por via aérea ou pelo ar. Isso também nos deixa mais tranquilos.”

Conforme o especialista, todas as possibilidades ainda estão abertas. “Não sabemos exatamente o que está acontecendo. Pode ser desde uma intoxicação, da ingestão de algum produto contaminado, até um caso de vírus transmitido por mosquito.” O médico voltou a enfatizar que todos os casos até agora têm relação com Belo Horizonte, já que Paschoal precisou ser internado logo após retornar da capital. “Parece que todos entraram em contato com essa região do Bairro Buritis. São poucos casos até agora e não temos nenhum local, nem de Juiz de Fora, nem de Ubá. As coisas estão sob certo controle até o momento.”

Sobre a possibilidade de se tratar de uma intoxicação, o médico explicou como ela se diferenciaria. “A intoxicação alimentar que temos no dia a dia, de produto contaminado por bactéria, geralmente dá náusea, vômito, diarreia, e o quadro se resolve em um curto período de tempo. Se houver dúvida, temos como medir como o rim está funcionando pelo exame de dosagem de creatinina. Isso é fácil de fazer em prontos socorros e hospitais de atendimento básico”, avaliou, destacando que todos os pacientes com a doença não determinada chegaram para tratamento já com o funcionamento dos rins abaixo de 10%.

Segundo o nefrologista, o homem internado em Juiz de Fora foi tratado sem restrições. “Não foi tomada nenhuma precaução específica de isolamento, nada diferente, não demandava isso. Todos eles, em todos os hospitais, receberam procedimento padrão feito em pacientes graves internados no CTI. Nada além.” De acordo com ele, o período para diagnóstico definitivo pode demorar de 30, 60 até 90 dias, devido ao prazo para exames “mais refinados”. “Os quadros todos são atípicos”, enfatizou.

A Secretaria de Estado de Saúde (SES) voltou a alertar para serem imediatamente notificados, em até 24 horas, os Centros de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs), de Minas e Belo Horizonte, sobre casos ocorridos a partir de dezembro, iniciados com sintomas gastrointestinais (náusea e/ou vômito e/ ou dor abdominal) associados à insuficiência renal aguda grave de evolução rápida (até 72 horas), seguida de uma ou mais alterações neurológicas: paralisia facial, borramento visual, amaurose (perda parcial ou total da visão), alteração de sensório e paralisia descendente.



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