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Pós-Covid ou Covid longa: a vida continua, mas com reabilitação

Como enfrentar os sintomas persistentes, retomar as atividades e alcançar o equilíbrio do corpo e da mente após ter tido a doença; pacientes relatam suas experiências


Por Michele Meireles

01/08/2021 às 07h00

Muitos que venceram a Covid-19 tiveram a saúde e a vida drasticamente transformadas pelas sequelas que a doença deixou. Entre os principais problemas estão prejuízos motores, pulmonares e mentais. Estudos recentes apontam que até 80% dos recuperados sentem ao menos um sintoma até quatro meses depois do fim da infecção. Basta “dar um Google” que as manchetes logo pipocam na tela: “Médicos recomendam check-up pós-Covid para detectar e tratar sequelas”, “Síndrome pós-Covid: como detectar e tratar os sintomas mais persistentes”, entre outras. A cada dia, surgem novas pesquisas, novos dados, novas hipóteses. Em Juiz de Fora não é diferente. Há pessoas que ficaram com sequelas da doença, que precisaram e ainda precisam de cuidados especiais e tratamentos para conseguir voltar a viver com qualidade depois de ter a Covid-19.

Patrícia Moreira ainda não se sente 100% recuperada após meses de tratamento (Foto: Arquivo Pessoal)

É o caso de Bruno Kamil, de 52 anos. Dono de uma pizzaria e sem nenhuma comorbidade, ele sempre teve uma rotina cheia, aliada a corridas de cerca de 40 minutos pelo menos três vezes por semana. Porém, tudo mudou no início de maio deste ano, depois do diagnóstico de Covid-19. Os primeiros dias com a doença, como ele conta, foram sem intercorrências. Porém, houve uma piora, com 50% do pulmão comprometido, e ele precisou ser hospitalizado. “Fiquei seis dias internado, não foi preciso intubação ou UTI, apenas o oxigênio no quarto e medicações. Quando tive alta, notei que não estava bem. Não conseguia subir uma escada, ficava muito cansado, com a respiração ofegante”, relata. Bruno precisou fazer fisioterapia respiratória e física, uma rotina de exercícios diários para sua melhora, feitos três vezes por semana com o auxílio de fisioterapeuta. “É um processo muito lento. Antes eu corria 40 minutos, hoje eu consigo, no máximo, caminhar por 20 minutos, mas já é um grande progresso. Fiz uma tomografia em meados de junho, e meu pulmão ainda estava cerca de 20% comprometido”, observa.

Marcel Sampaio, que teve a forma mais grave da Covid-19, chegou a fechar sua loja para se tratar, mas já voltou a trabalhar (Foto: Arquivo Pessoal)

O também empresário Marcel Sampaio, 44 anos, que possui doença pré-existente, teve a forma mais grave da Covid-19 no fim de agosto do ano passado. Foram cerca de 30 dias no CTI, entre intubação e traqueostomia, para conseguir respirar, e mais 15 dias no quarto para finalmente voltar para casa. O resultado foi a perda de 45 quilos e três infecções pulmonares. Quando acordou da sedação, em outubro, Marcel não tinha qualquer movimento. “Não conseguia apertar os botões do controle remoto, não virava na cama sozinho, não falava. Precisava de ajuda para absolutamente tudo. Quando fui para casa, precisei alugar cama hospitalar, cadeira de banho, contratamos enfermeiro, fisioterapeuta, e um sobrinho veio para Juiz de Fora me ajudar”, lembra.

Segundo Marcel, as sessões de fisioterapia e sua força de vontade foram cruciais para a melhora. Cerca de um mês após a alta, ele já conseguia se levantar com a ajuda de muleta e foi retomando sua vida. Foram muitas sessões, cerca de três por semana, de acupuntura e diversas consultas de acompanhamento. Entretanto, ele precisou fechar sua loja por um período. “Eu trabalho com manutenção de celular, mas não tinha controle das mãos. Como ia, por exemplo, mexer em uma placa que é muito pequena? Então, optei por fechar a loja. Mas com a minha melhora, consegui reabrir e estou trabalhando, já consigo subir as escadas e ando até de moto. Eu me desafiava todos os dias a fazer alguma coisa, e assim fui me recuperando. Hoje sou só gratidão, por tudo que passei e por como estou. A fé da minha companheira, que nunca deixou de acreditar que eu voltaria, e o empenho da equipe médica também foram fundamentais”, diz.

Patrícia Cony Menezes Moreira, 57 anos, também precisou de ajuda profissional após se curar da Covid-19. Acometida pela doença em março deste ano, a fisioterapeuta teve cerca de 25% do pulmão comprometido e precisou ficar internada por dez dias. Embora Patrícia ainda fizesse acompanhamento depois de se curar de um câncer de mama, ela não tinha comorbidade e levava uma vida ativa. O agravamento do quadro pegou a fisioterapeuta de surpresa. “Eu estava em um estado em que não conseguia abrir o olho, não queria levantar para nada, então precisei ser internada. Foram dias muito difíceis, apesar de não ter ido para a UTI, eu precisava do oxigênio o tempo todo. Mal conseguia comer.

Patrícia Moreira ainda não se sente 100% recuperada após meses de tratamento (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando tive alta, fui para casa ainda com muito cansaço, nem falar eu conseguia por muito tempo”, conta. Patrícia buscou ajuda médica, e foi indicada a fisioterapia respiratória. “Fiz sessões por mais de um mês para melhorar minha saturação. Tive alta, mesmo assim não sou mais a mesma, ainda me sinto cansada com facilidade, acho que só com o tempo ficarei 100% bem”, diz.

Sequelas podem durar anos

Ao longo de quase um ano e meio de pandemia, o médico infectologista Marcos Moura acompanha os pacientes quando estão com Covid-19 e depois que eles vencem a doença. Ele recebe em seu consultório pacientes se queixando de diversos tipos de sequelas após a doença, que vão desde perda prolongada de olfato e paladar, a problemas de memória e até sequelas pulmonares graves e perda de movimentos. “De maneira geral, os pacientes que têm a forma branda da Covid-19 evoluem sem sequelas físicas, mas, às vezes, desenvolvem depressão, ansiedade. Alguns apresentam perda de olfato e paladar que podem perdurar por muito tempo, alguns estão assim faz mais de um ano. Isso causa má adaptação à alimentação, perda de apetite e diminuição da ingestão de alimentos”, explica.

Segundo ele, os pacientes que tiveram formas moderadas e graves da doença ficam com sequelas principalmente respiratórias. “Geralmente eles apresentam falta de ar, tosse, fadiga, já sendo necessária a reabilitação, com acompanhamento de fisioterapeuta e pneumologista. Aqueles que ficam internados por muito tempo podem desenvolver lesões renais, hepáticas, feridas no corpo, perda muscular, dificuldade para andar e perdas cognitivas. Ainda podem ocorrer lesões por trombose, por exemplo, no pulmão, no coração. Quem tem alta precisa ter acompanhamento médico e rever os remédios que tomava antes. As sequelas são as mais diversas. Dependendo de qual for, encaminhamos para as especialidades que irão fazer o acompanhamento”, destaca.

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De acordo com o médico, ainda não há comprovação científica de que as novas variantes do coronavírus causem mais sequelas. O que se observa é que os idosos são os que mais sofrem com as internações. “Eles perdem muita massa, e a doença base deles, por exemplo, como uma diabetes, desregula. O tempo de duração das sequelas depende muito da gravidade do caso de coronavírus. Podem durar uma semana, meses ou até anos”, completa.

Um dos artigos mais recentes e abrangentes sobre a “Síndrome Pós-Covid”, “Covid longa”, “Covid persistente” ou “Covid prolongada” é de um grupo de universidades dos Estados Unidos, do México e da Suécia. Eles fizeram a revisão de 18 mil pesquisas publicadas sobre o assunto até 1° de janeiro de 2021. Entre os 47.910 pacientes que integraram os estudos, os cinco principais sintomas detectados foram: fadiga (58%), dor de cabeça (44%), dificuldade de atenção (27%), perda de cabelo (25%) e dificuldade para respirar (24%). Cerca de 80% das pessoas que pegaram a doença ainda tinham algum sintoma pelo menos duas semanas após a cura da doença.

Reabilitação

O fisioterapeuta Romero Carvalho de Oliveira trabalha com a reabilitação de pacientes com coronavírus desde o início da pandemia, tanto na UTI quanto em atendimentos domiciliares. “Quem teve coronavírus de uma forma leve, provavelmente, não irá precisar de reabilitação, mas vai precisar se exercitar, pois perde o condicionamento físico. Foi o que aconteceu comigo, inclusive. Já quem ficou internado vai precisar de fisioterapia, respiratória na maioria das vezes, mais intensiva. Tenho pacientes que atendo seis vezes na semana. E há ainda os casos graves, são pessoas que não conseguem se mover na cama, perdem todos os movimentos”, explica.

Romero conta que o tratamento feito por ele, nos casos mais graves, é dividido em três fases: a primeira, em que o paciente volta a adquirir movimentos básicos, como ficar em pé; a segunda, que é o ganho de força, ficar em pé; e a última fase, com condicionamento cardiorrespiratório. O que chama a atenção do fisioterapeuta são as idades dos acometidos. Há pacientes de 27 a 83 anos com as mesmas sequelas graves, como perda de movimentos e uso de oxigênio em casa. “Os jovens estão sofrendo com as mesmas sequelas que os idosos. O tempo de recuperação é muito individual, depende muito do fator nutricional. Se comparado dois pacientes que ficaram graves, quando faço trabalho combinado com nutricionista, esse paciente consegue se recuperar em 40 dias. Já o que não faz, demora três meses. E, claro, outros fatores, como idade, doenças prévias, se já tem restrição articular. Os pacientes leves ou moderados se recuperaram entre duas e três semanas.”

Ansiedade, depressão e stress pós-traumático

Desde o início da pandemia, o número de atendimentos on-line triplicou, um reflexo, na maioria dos casos, do medo dos pacientes saírem de casa. É o que constata o médico psiquiatra Helio Fádel de Araújo. São pessoas que tiveram a doença ou que desenvolveram algum problema por medo de contraírem o vírus. Os casos são diversos. “Mesmo com todas as medidas sanitárias que tomamos na clínica, muita gente não quer se expor, tem muito medo. Alguns chegam com mais de uma máscara, luvas, não se assentam nas cadeiras com medo de contaminação. O teleatendimento é uma modalidade que funciona tanto na psiquiatria quanto na psicologia. Na psiquiatria pode ter alguma perda, mas conseguimos criar uma atmosfera de confiança, um vínculo positivo, além de conseguir atender em horários que no consultório seria inviável”, diz.

Os casos de ansiedade são os mais comuns. “Quando se fala em ansiedade, há uma série de transtornos: o de ansiedade generalizada, o transtorno obsessivo compulsivo – sobretudo de limpeza, de pessoas com medo de contaminação. A ansiedade tem sintomas físicos, como sudorese, taquicardia, tremor. Quem teve coronavírus e já está com medo da recontaminação pode associar essa taquicardia a um resquício da doença, com um acometimento do coração, e potencializar a ansiedade. Se esse paciente liga a TV e só ouve notícias sobre o coronavírus, pode ter o quadro agravado”, afirma.

Outro problema que vem surgindo em pessoas que tiveram coronavírus é o stress pós-traumático, um transtorno psicológico que provoca medo excessivo após situações muito chocantes, assustadoras ou perigosas. “O paciente desenvolve um bloqueio. Algumas pessoas não passaram pela doença, mas vivenciaram isso com alguém muito próximo, pessoas que vieram a óbito ou tiveram casos muito graves. Há ainda os casos de depressão maior, com a perda de familiares ou amigos.”

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