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O adversário ainda é o coronavírus

Por Juliana Netto

07/05/2020 às 07h00 - Atualizada 06/05/2020 às 16h47

Jogadores do Inter se apresentaram nesta terça sob rigoroso procedimento de segurança (Foto: Ricardo Duarte/Internacional)

Nos últimos dias, mesmo com o aumento dos casos de Covid-19 no Brasil, país avaliado por especialistas como o novo epicentro mundial da doença, muita é a pressão para que o futebol retorne às atividades. Alguns clubes, aos poucos, começam a voltar aos treinos. O Internacional, presidido por Marcelo Medeiros, infectado pela doença, é um deles. Na reapresentação do elenco, o mandatário gaúcho disse que “o jogador que não quiser jogar, que peça demissão”.

Não devemos contestar a popularíssima frase de Nelson Rodrigues de que o futebol é o ópio do povo. Durante o ócio, provocado pelo isolamento, tal ópio faz-se ainda mais necessário. Com as partidas na TV, o delicado momento vivido contaria com aquele entretenimento característico dos admiradores do esporte bretão.

Ao descobrir que, por si só, a modalidade não se sustenta, dirigentes e federações do mundo todo tentam acelerar o retorno aos gramados para voltar a desfrutar das milionárias cifras que deixaram de cair nos cofres dos clubes.

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E aí pode estar escondido um importante pecado capital: a soberba. Ao colocar-se superior a um vírus invisível, que paralisou o mundo, como não se via desde a Segunda Guerra Mundial, a condição humana do atleta – e de todos que produzem o espetáculo – pode estar ameaçada. Mesmo com testes, técnicas de higienização, estádios sem torcida e toda uma série de medidas protocolares, há, ainda sim, um risco iminente para jogadores, comissão, arbitragem e toda uma rede de estafes que sequer conhecemos.

A morte de Jorginho, famoso massagista do Flamengo por 40 anos, por Covid, é um alerta importantíssimo. Por mais que as atividades no clube carioca, aparentemente, não tenham tido relação com o contágio, deixo a questão em aberto: jogadores com salários astronômicos, acobertados por bons planos de saúde, protegidos por seus carrões, podem até se sentirem mais protegidos. Mas e aquele funcionário menos abastado, que, mesmo de forma amadora, também faz a engrenagem funcionar? Expô-lo ao risco para satisfazer nosso desejo pelo futebol na nossa TV é humanamente racional? Pensar em partidas onde, além da falta da torcida, será proibido comemorar o gol? Justo este lance, o momento mágico do futebol, para evitar contato? Não estariam os clubes tratando vidas de uma forma muito soberba?

Perdoe-me você que pensa diferente, mas sou do team Raí e acredito que ainda é cedo para pensarmos em ver a bola rolando novamente. Como entendo que também é precoce ver o vôlei, o basquete, a Fórmula 1, as minhas adoráveis corridas de rua.

Por mais que nós, amantes do mundo da bola ou de qualquer outra modalidade, achemos que o esporte é uma atividade essencial, ele não é. Neste momento, dos gramados a qualquer outro palco esportivo – tal como disse o ex-ministro Mandetta em uma das suas últimas coletivas como titular da pasta da Saúde – nosso adversário é um só: o coronavírus.

Juliana Netto

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