Bem-estar animal: Juiz de Fora faz menos de 2 mil castrações em 2025, e tutores reclamam de demora na fila
Número está abaixo da meta considerada ideal e revela gargalos do serviço
Um total de 1.980 castrações foram realizadas pela Secretaria de Bem-Estar Animal (Sebeal) em Juiz de Fora entre 1º de janeiro e 15 de dezembro de 2025, uma média inferior a 200 procedimentos por mês, conforme dados da pasta. O número está abaixo da meta considerada ideal pela Comissão de Defesa, Controle e Proteção dos Animais da Câmara Municipal: de 3 mil a 3.500 castrações mensais. A demanda existe. Tutores, inclusive, relatam demora na fila de espera para o atendimento.

Mariana Nunes, 27 anos, tutora de Luke, cachorro da raça Lhasa-apso, afirma que fez o cadastro para a fila do serviço há mais de um ano, em setembro de 2024, mas nunca foi atendida. “Eles alegam que os tutores não atendem as ligações de chamada para castração, mas não é verdade, porque tenho atendido todas, e nenhuma delas foi do Canil.”
A espera pela cirurgia fez com que Mariana ouvisse de tudo sobre o serviço, inclusive que a PJF não realizava castração em cães de focinho pequeno, como o dela – o que não é verdade. “Então, não sei o porquê de tanta demora”, completa.
Mariana não foi a única a encontrar dificuldades. Nas postagens nas redes sociais do Canil Municipal, há diferentes relatos sobre a demora no atendimento. Um deles é de Rosilene Assunção, que afirmou não ter recebido nenhum contato do Município. Em conversa com a reportagem, ela explica que precisou recorrer a um deputado estadual para realizar a castração do seu pet.
Número de clínicas contrasta com a demanda
Uma das possíveis razões para o baixo número de cirurgias em 2025 é a dificuldade da população em acessar o serviço. Atualmente, as castrações são realizadas por clínicas credenciadas e pelo próprio Canil Municipal.
A informação é que há apenas quatro clínicas que prestam o serviço à Sebeal no município, sendo a DVets, no Bairro Democrata, a Clínica Vida Animal e a HV Clínica Veterinária Popular, ambas no Morro da Glória, e o Centro Veterinário Santa Cruz, no Bairro Santa Cruz.
Das quatro clínicas credenciadas com a Prefeitura, três estão no Centro – e distribuídas a menos de 2 quilômetros uma da outra. Mesmo concordando que os espaços físicos são importantes aliados na castração, a protetora de animais Miriam Neder destaca que as clínicas não dão conta sozinhas de garantir acesso aos animais que estão na fila para castração em Juiz de Fora. “O fato das castrações serem realizadas em pontos fixos contribui para o baixo número de cirurgias”, afirma.
A Tribuna questionou à PJF se a opção de investir em clínicas conveniadas poderia indicar que o Poder Público não está conseguindo atender à demanda sozinho, mas o Executivo municipal evitou responder a pergunta diretamente, argumentando que teria sido orientado pela Procuradoria-Geral do Município a contratar novas clínicas para cobrir uma lacuna deixada no serviço ainda em 2024.
Antes de recorrer ao convênio com essas clínicas, entre 2021 e 2022, o serviço esteve parado, como explicou Miriam em entrevista à Tribuna em julho. “Retornaram no fim de 2022, em parceria com a Cimpar, mas de forma tímida”, informou sobre as cirurgias à época. Em maio de 2024, após dois anos de parceria, a Cimpar rompeu o convênio que possuía com a Prefeitura. Em nota, a PJF informou que “a CIMPAR, que realizava as castrações para a PJF até maio de 2024, rompeu unilateralmente o convênio com a Prefeitura, sendo judicialmente responsabilizada por isso. Assim, por orientação da Procuradoria Geral do Município, foi aberto o chamamento para clínicas que pudessem cobrir esta lacuna.”
A reportagem também solicitou um levantamento do valor gasto com as clínicas. São R$ 31 mil mensais, o que resultaria em mais de R$ 370 mil ao ano. O orçamento da Sebeal, inclusive, é um tópico que sequer foi estabelecido pela Prefeitura, tendo em vista que a Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2025 foi aprovada antes mesmo da criação da pasta.
Ausência do castramóvel agrava situação
A ausência do castramóvel é outro fator que contribui para o baixo número de procedimentos. O veículo, que funciona como clínica itinerante e poderia ajudar a sanar a dificuldade da população em acessar o serviço, não foi usado em 2025. “Todas [as cirurgias] foram realizadas nas clínicas credenciadas”, informou a PJF em nota.
“A pessoa que não tem dinheiro para pagar uma cirurgia de esterilização, geralmente também não consegue levar seu animal numa clínica longe de casa”, afirma Miriam Neder. Atuando na causa animal há mais de 30 anos, a presidente da Associação Amor Não Tem Raça JF acredita que, além de ser gratuito, o serviço também precisa ser itinerante para alcançar o máximo de tutores possíveis. Ela argumenta que o castramóvel poderia ser mais uma ferramenta para garantir maior cobertura.
Cerca de 1,5 mil animais aguardam na fila para castração em JF
“Os tutores deveriam poder acompanhar o andamento da fila de espera. O tempo está passando, meu cachorro está ficando velho e nada é feito”, lamenta Mariana Nunes. Ela reclama que os critérios utilizados para definir a ordem da fila de espera são pouco claros, mesmo que a PJF afirme que as castrações são feitas pela ordem de inscrição. “Não faz sentido mais de um ano de espera”, pontua.
A Tribuna questionou se há a possibilidade de desenvolver alguma plataforma para que tutores acompanhem o andamento das filas, e a PJF negou. A explicação foi que o cadastro é feito pelo Prefeitura Ágil, um sistema que, segundo o Município, é 100% seguro, mas no qual não é possível acompanhar o andamento da fila. Em dezembro de 2025, são 1.500 pets esperando por atendimento.
Miriam acredita que para diminuir a fila seria necessário um programa de castração permanente. “De 2013 a 2018, as cirurgias funcionaram a todo vapor, e o resultado foi a diminuição do número de abandonos. O Canil Municipal chegou a ter 480 cães em agosto de 2018, depois de cinco anos de castrações ininterruptas.”
Para a protetora de animais, é fundamental que o Poder Público invista nos meios para serem feitas as castrações, mas também que haja campanhas de conscientização pela guarda responsável, porque, na prática, as muitas leis municipais relacionadas à proteção animal não funcionam.

*Estagiário sob supervisão da editora Gracielle Nocelli
Tópicos: animais / castração / juiz de fora / pjf









