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Insegurança compromete serviços da Cesama, da Cemig e dos Correios em áreas violentas

Leituristas das companhias já foram alvos de criminosos e, por conta do risco, hoje não entram em alguns pontos de bairros da Zona Norte. No caso dos carteiros, informação de sindicato é de que entregas só são feitas com apoio de escolta policial

Por Michele Meireles (colaboraram Marcos Araújo e Vívia Lima)

01/02/2018 às 07h00- Atualizada 01/02/2018 às 08h06

PM afirma que nenhuma instituição procurou a corporação para relatar o ocorrido (Foto: Leonardo Costa)

A insegurança já limita e prejudica a prestação de serviços públicos em pontos da Zona Norte de Juiz de Fora. A Cesama não manda mais leituristas de hidrômetros nas Vilas Esperança I e II como medida de segurança para seus funcionários. A medida afeta mais de mil clientes. Já os Correios só fazem entrega em alguns pontos da Vila Esperança II com escolta policial. A Cemig, por sua vez, está deixando de enviar trabalhadores no Parque das Águas, pois estão sendo impedidos de realizar o trabalho por pessoas que os ameaçam.

Os três locais evitados são os mesmos onde traficantes expulsaram famílias para fazer das casas pontos de venda de drogas. A situação crítica das três categorias é a mesma vivida por motoentregadores, que evitam circular em áreas violentas da cidade, como a Tribuna mostrou em reportagem publicada na última quarta-feira (31).

A Cesama afirmou que cerca de 1.300 clientes dos bairros Vila Esperança I e II já não recebem leituristas em suas casas. O valor das contas mensais de água nestes casos é calculado conforme uma média de consumo. A companhia afirmou que “os serviços de leitura foram suspensos com o objetivo de preservar a integridade física de seus empregados”. A Cesama informou ainda que, independentemente da área, sempre passa orientações de segurança a seus servidores. O último roubo registrado na Vila Esperança II aconteceu no dia 26 de outubro de 2016.

Um funcionário da Cesama, de 35 anos, foi assaltado enquanto fazia a leitura do hidrômetro, na Rua Lima Duarte. De acordo com a Polícia Militar, a vítima relatou que foi abordada por dois homens com revólver. A dupla obrigou o funcionário a entregar seu telefone celular particular e o da empresa. Em seguida, os criminosos fugiram e não foram localizados.

Precisamos que nos procurem e se manifestem a respeito dos problemas levantados”

Jovanio Campos, assessor da 4ª RPM

Um morador da Rua Dona Ana Salles, que é o acesso principal aos bairros Vila Esperança I e Vila Esperança II, na Zona Norte, afirma que a Cesama não envia funcionários para fazer a leitura dos hidrômetros na região há cerca de um ano. Por conta disso, a conta é calculada por média de consumo. “A situação aqui está cada vez mais crítica. A gente se sente prejudicado e até mesmo ofendido. Somos de bem. Mas ao mesmo tempo, entendo a posição destes prestadores de serviço não virem aqui. Se nós temos medo, imagine eles”, comenta. O homem, que preferiu não ter o nome divulgado, diz que se sente lesado pelo cálculo de média. “Estou pagando uma média de R$ 230 de água, a verdade é que tem meses que sei que consumi menos, mas não consigo tempo para ir até a Cesama. Então, acabo pagando.”

Mesmo a Rua Pedro Garcia sendo considerada como Benfica, residentes da via também são afetados pelo mesmo problema, já que ela também é muito próxima às duas comunidades. “É realmente complicado. Entendo o lado da Cesama, é mesmo perigoso. Mas acho que poderiam achar outra forma de se protegerem, como, por exemplo, vindo em grupos”, disse uma moradora que também não quis se identificar.

A Cesama informou que já está estudando uma alternativa para regularizar a situação. “As contas estão sendo emitidas pela média de consumo e enviadas pelos Correios, mas os usuários que quiserem sua conta feita pelo consumo real podem apresentar a mesma na Agência de Atendimento da Cesama ou no Centro Regional Norte da PJF, juntamente com a leitura do hidrômetro, de preferência por meio de foto que identifique o número do hidrômetro e a leitura, e a conta será refaturada. É necessário que os usuários apresentem, também, o documento de identidade.”

Correios trabalham com escolta na Vila Esperança II

Também na Vila Esperança II, os moradores só conseguem receber em casa entregas dos Correios duas vezes por semana com a escolta policial. A informação é do Sindicato dos Trabalhadores em Empresa de Comunicação Postal, Telegráfica e Similares de Juiz de Fora e Região (Sintect/JF). Conforme o diretor financeiro da entidade, Alan Marques, a medida foi tomada após seis episódios de assaltos, tanto a funcionários a pé, quanto de carro. “Hoje os trabalhadores só vão se tiver escolta. Até um supervisor que acompanhava o trabalho foi assaltado. Mas tem outras áreas consideradas de risco, nas quais os carteiros trabalham com medo.”

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Um carteiro, que não quis ter o nome divulgado, confirmou a situação e disse que não vai ao bairro sem a segurança devida. “Sabemos que todos precisam do nosso trabalho. Mas, infelizmente, somos muito visados, pois fazemos entregas de coisas de valores. Não dá para arriscar.” A assessoria dos Correios foi procurada, mas não se pronunciou sobre o fato.

Trabalho da Cemig cerceado no Parque das Águas

Já no caso da Cemig, cerca de 30 clientes do Bairro Parque das Águas, também na região Norte, estão tendo suas contas de luz calculadas por média de consumo. A situação, segundo a companhia, se dá em uma rua, onde, há cerca de três meses, os leituristas estão sendo impedidos de entrar. Por meio de sua assessoria, a Cemig informou que os trabalhadores vêm sendo ameaçados no local, que não foi divulgado. A empresa afirmou que está em negociação para conseguir acessar a via. A companhia informou que os consumidores que não concordarem com o valor da média podem fazer contato via telefone, pelo 116, ou pessoalmente, na Rua Espírito Santo 467, Centro.

A Cemig apontou ainda que a insegurança não é só de seus funcionários, mas dos clientes. Segundo a companhia, é muito comum os moradores não recebem os leituristas por medo de eles serem ladrões se passando por funcionários. Um caso assim ocorreu no Bairro Vale do Ipê, região Central, em junho do ano passado. Um trio de criminosos, caracterizados com uniformes semelhantes ao da Cemig, invadiu uma residência e fez três reféns. A companhia disse que os trabalhadores perdem muito tempo para ganhar a confiança dos clientes. Com isso, os serviços têm sido mais demorados. Uma saída dada pela Cemig é que os padrões sejam fixados nos muros, com os leitores voltados para a rua. Dessa forma, não é necessário que o leiturista entre na casa.

PM afirma não ter sido procurada por companhias

Apesar dos problemas relatados pelos profissionais e por moradores , a Polícia Militar afirma desconhecer essas questões. De acordo com o assessor organizacional da 4ª Região da Polícia Militar (4ª RPM), major Jovanio Campos, nenhuma das instituições citadas procurou a corporação para relatar sobre esses problemas, sendo, portanto, desconhecidos. E, por isso, não há nenhuma atuação específica neste sentido. “Precisamos que nos procurem e se manifestem a respeito dos problemas levantados. Não temos registros suficientes que demandem atenção especial por parte da PM”, afirma Campos, ressaltando a importância de se registrar ocorrências nestes casos, uma vez que é com base nos registros que a polícia traça estratégias de segurança em toda a cidade. Sobre a realização dos serviços sob escolta policial, o assessor garante que isso não ocorre.

Desde o início de 2017, a Vila Esperança conta com o policiamento do Grupo Especializado de Policiamento em Áreas de Risco (Gepar). “Detectamos a necessidade da implantação do serviço por ser uma área que precisava deste trabalho mais estreito com a comunidade.” Sem apresentar números, o major garante que, desde a implantação do programa, houve queda significativa da incidência criminal. “Se pegarmos os números de crimes violentos que tiveram na Vila Esperança e os de hoje, poderemos ver que houve uma redução significativa e tem dado um resultado muito bom “, enfatiza Campos, acrescentando que o grupo atua no bairro 24 horas por dia, sendo deslocado para outros lugares apenas em casos pontuais. “A PM está aberta a diálogos, e os órgãos que quiserem procurar a instituição devem assim fazê-lo.”

Principais vítimas são comunidades

Pesquisador acredita que é preciso atacar as causas deste problema nos âmbitos regional, nacional e internacional (Foto: Arquivo pessoal)

De acordo com o sociólogo e cientista político, Moisés Augusto Gonçalves, o prejuízo causado pela insegurança à prestação de serviço em determinadas comunidades é uma situação grave, que não é uma particularidade de Juiz de Fora e pode ser percebida em diversos municípios do território nacional. Dentro desse contexto, ele considera que, primeiro, é preciso pensar que as principais vítimas dessa criminalidade urbana são as comunidades pobres e periféricas. Depois, ter a consciência de que há uma carência de política pública de segurança.

“Com isso quero dizer que políticas públicas de segurança efetivas têm que, de imediato, garantir os direitos dessas comunidades, mas, ao mesmo tempo, buscar atingir as causas mais profundas da criminalidade. O mundo do crime organizado não é mais localizado. As redes internacionais proporcionam que armas pesadas cheguem a determinados grupos na periferia. Então, é preciso pensar o problema local, a necessidade de resposta rápida e efetiva do Estado, mas, se quisermos ser sérios, temos que pensar que há múltiplas causas, profundas e escondidas dessa criminalidade. São dois movimentos que precisam ser realizados, e não dá para fazer um isolado do outro”, considera o sociólogo.

“O mundo do crime organizado não é mais localizado”

Moisés Augusto Gonçalves, sociólogo e cientista político

Ele ressalta que a presença do Estado não pode ser apenas repressiva. “É preciso que ele se faça presente com equipamentos comunitários, com postos de saúde com especialidades, com áreas de lazer e de esporte, com alternativas de formação profissional, com escolas, ou seja, uma política mais geral.” Moisés enfatiza que as pessoas são perigosas não apenas porque estão nessas áreas periféricas, mas porque estão armadas. “Então é preciso impedir que as armas cheguem lá, e isso vai além da questão da repressão, pois supõe inteligência, considerando que o problema está fora dessas comunidades. É preciso atacar as causas que estão nos âmbitos regional, nacional e internacional. Senão a mesma história será repetida.”

O sociólogo faz uma ressalva, lembrando que a responsabilidade não é só Estado. “Há grandes setores privados que lucram com o crime, com o tráfico de armas, de drogas e a venda de munições. O mercado do crime é privado e não é distinto do Estado, porque ele só é possível porque tem sua infiltração dentro do Estado. Essa outra faceta caminha junto com o Estado, e esse problema atinge a população brasileira. Assim, não bastam medidas pontuais, é preciso impedir o acontecimento desse processo.”

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