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1991, um ano para ser ouvido – Parte 3

Por JÚLIO BLACK

23/11/2016 às 07h01 - Atualizada 22/11/2016 às 16h06

Oi, gente.

Vamos enfim falar de “Achtung baby”, o álbum que desencadeou toda a lembrança afetiva a respeito do ano musical de 1991. Lançado em 19 de novembro, o trabalho produzido por Daniel Lanois e Brian Eno é o registro de uma das mais sensacionais reviravoltas artísticas na carreira de um banda de rock – no caso, os irlandeses do U2.

Explicando. Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. formavam a maior banda de rock do mundo no final dos anos 80, com “The Joshua Tree” conquistando o planeta graças a “With or without you” e “Where the streets have no name”, entre outras canções. Obcecados pelos Estados Unidos, eles partiram para o megalomaníaco projeto de disco ao vivo “Rattle and hum”, que ainda rendeu um documentário – e uma saraivada de críticas. O quarteto foi tachado de pretensioso, hipócrita, megalômano. E, de repente, o U2 se viu num beco sem saída artístico e correndo o risco de encerrar as atividades – Bono Vox chegou a dizer no último show da turnê que ele significava “o fim de algo” para a banda.

A solução inicial foi buscar novos ares. Eles foram para Berlim em 1990, às vésperas da reunificação da Alemanha, a fim de encontrar inspiração para uma nova sonoridade. O grupo se trancou no Hansa Studios, mas o trabalho não rendia. Bono e The Edge – principalmente este – estavam dispostos a apostar em um rock mais “europeu”, dançante, com influências da música eletrônica, e os demais integrantes preferiam o U2 “clássico”. O resultado foi um impasse que terminou apenas quando a banda começou a trabalhar na canção que hoje conhecemos como “One”.

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A partir daí, o álbum foi ganhando formato, ainda que lentamente, ao retornarem para a Irlanda. Com o material pronto, o U2 apresentou ao mundo um trabalho radicalmente diferente de tudo que os irlandeses tinham feito até então. A começar pelo título do álbum: ao invés de nomes grandiloquentes como “A Árvore de Josué” e “O fogo inesquecível”, o escolhido foi “Achtung baby”, que poderia ser traduzido como um maroto “te cuida, neném”.

Ao ser colocado na vitrola, “Achtung, baby” entrega um U2 até então desconhecido: pesado, “sujo”, irônico, festeiro, até mesmo sexy. E o principal: clássico desde o seu nascimento, graças a canções como a faixa de abertura, “Zoo Station”; a empolgante “Even better than the real thing”; a cativante “One”,que fala de amor e união (“somos um, mas não somos os mesmos (…) o amor é a mais alta lei”), a dançante “The fly”; a exótica “Misteryous ways”; a pouco conhecida mas fenomenal “Ultraviolet”; e o encerramento com a melancólica “Love is blindness”.

“Achtung baby” é, ainda, o álbum com alguns dos melhores momentos de The Edge, entre eles os solos de “The fly” e da poderosa “Until the end of the world”, um hipotético diálogo entre Jesus Cristo e Judas Iscariotes marcado por um dos mais impressionantes solos do guitarrista, que na opinião deste não-músico só encontra rival na carreira do U2 com o que se ouve em “Bullet the blue sky”.

Vinte e cinco anos após seu lançamento, “Achtung baby” ainda é o melhor trabalho feito pelo U2, e um dos mais significativos da década de 1990. Foi o ponto de partida para a histórica turnê “Zoo TV”, sendo sucedido por outro álbum que merece figurar na lista dos três melhores da banda, “Zooropa”. Para quem gosta de sentir a cada acorde a história da música sendo escrita, “Achtung baby” é item obrigatório e fundamental.

Vida longa e próspera. E te cuida, neném.

Júlio Black

Júlio Black

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