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Quarenférias e um guitarrista desaparecido

Por Júlio Black

06/05/2020 às 07h30 - Atualizada 05/05/2020 às 15h21

Oi, gente.

Retornamos ao batente depois das quarenférias com sentimentos… não sei se “conflitantes” é a palavra correta, mas certamente as coisas ainda estão fora do lugar. Entrar de férias logo no início das recomendações de isolamento/distanciamento social, em meio ao caos do que fazer, como se proteger, foi estranho e preocupante. Muita coisa passava pela cabeça, em especial o medo de algum parente/amigo ficar doente, morrer, principalmente os mais próximos. Felizmente, estão todos bem.

Podemos dizer que ter as férias antecipadas ajudaram a me organizar com A Leitora Mais Crítica da Coluna, ver como lidar com Antônio, O Primeiro de Seu nome, com a creche fechada. Precisamos dividir tarefas como passar aspirador de pó, lavar louça, dar banho no Imperador Django e trocar o jornal onde ele faz suas necessidades, e ao mesmo tempo acompanhar as notícias e passar raiva com essa gente tão orgulhosa de sua maldade e estupidez.

O grande desafio é atender às necessidades de Antônio – e uma criança de 3 anos de idade tem muitas demandas (cantar “Eduardo e Mônica” dez vezes por noite para ele dormir é a mais fácil delas) e uma energia infinita. Acredito que estamos a fazer o nosso melhor, mas deu um aperto no coração esta semana, quando ele perguntou já na cama “papai, quando vai acabar esse coronavírus?”.

Como tantos compromissos domésticos nas quarenférias, deu para assistir a exatos dois filmes inéditos (“Resgate” e “John Wick 2”, gostei de ambos), terminar a temporada de “Hunters” (até gostei, mas estou sem ânimo para comentar), uma única HQ (“Clube da Luta 2”, que decepção) e cinco livros – recomendo “Um artista no mundo flutuante”, “Valis” e “Os três estigmas de Palmer Eldritch”. Para relaxar, eu e A Leitora Mais Crítica da Coluna assistimos a “The Office”.

Enfim, preciso pensar em algo para a coluna que não sejam digressões, mas estou sem ânimo para as tradicionais resenhas. Vamos partir então para uma efeméride: os 25 anos do desaparecimento de Richey Edwards, um dos guitarristas e letristas do Manic Street Preachers, que deveria ter escrito em fevereiro mas consegui o prodígio de esquecer na ocasião. E eu fiquei meses esperando pela data, shame on me.

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O grupo formado em 1986 no País de Gales era um dos mais populares na Inglaterra nos anos 90. Os primeiros álbuns eram bons, as músicas misturavam punk, hard rock, rock alternativo e outras bossas, os caras tinham posicionamento político claro e fizeram barulho na mídia quando prometeram que o primeiro álbum, de 1991, venderia 16 milhões de cópias (foram apenas 250 mil) e que a banda iria acabar logo depois.

Mas quem chamava mais atenção era Richey Edwards. Em uma entrevista para a “NME”, em 1991, ele foi questionado sobre a autenticidade dos Manics e, em resposta, usou uma navalha para escrever em um dos braços a expressão “4real” (“Pra valer”, em inglês). Três anos depois, procurou internação numa instituição psiquiátrica por causa das crises de depressão, insônia e o costume recorrente de cortar a si mesmo.

Em 1º de fevereiro de 1995, dia em que viajaria para os Estados Unidos com o vocalista e guitarrista James Dean Bradfield a fim de promover “The Holy Bible”, Richey deixou o hotel em que estava hospedado em Londres e sumiu. Dias depois, o carro do músico foi localizado na Severn Bridge, uma ponte entre a Inglaterra e o País de Gales conhecida pelo número de suicídios cometidos no local. Richey Edwards nunca foi encontrado, e a suspeita de que ele se jogou da ponte aos míticos 27 anos de idade foi se tornando certeza com o tempo. Ele foi considerado “presumivelmente morto” pela Justiça britânica em 2008 – a família poderia ter feito o pedido a partir de 2002, mas preferiu esperar. Há testemunhas que juram tê-lo visto em vários locais desde seu desaparecimento, inclusive na Índia, mas essas informações nunca foram provadas.

Os três remanescentes dos Manic Street Preachers pensaram em acabar com a banda, mas voltaram ao batente seis meses depois do desaparecimento de Richey com o apoio da família do guitarrista. “Everything must go”, um dos maiores sucessos do agora trio, foi lançado em 1996 e contou com várias letras deixadas por Edwards. “Journal for plague lovers”, álbum de 2009, foi todo gravado com letras escritas exclusivamente por Richey Edwards. Desde a sua presumida morte, a banda sempre se apresenta com um microfone montado para o amigo ausente.

Escrever sobre suicidas não é o melhor assunto para o momento, há várias formas de recomendar a banda galesa para meus 13 leitores, porém é o que temos para o momento. O importante é todos ficarmos bem, e em casa, ouvindo a discografia do Manic Street Preachers.

Sobreviver é o que interessa.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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