Como Ernesto virou Abud e montou um bar

Dono do Bar do Abud conta a história que o levou a homenagear um libanês conhecido em praia baiana

Por Mauro Morais

06/08/2017 às 07h00 - Atualizada 05/08/2017 às 16h59

Abud comanda o bar durante a semana e, aos domingos, é mais um motociclista na estrada. (Foto: Felipe Couri)

Ernesto é Abud. Abud, porém, não é Ernesto, mas um turista de Arraial d’Ajuda, distrito de Porto Seguro, na Bahia. “Conheci o Abud na praia. Não era muito conhecido em Arraial, porque era muito simples e muito tímido. Tinha uma condição financeira boa ou tinha rendas lá fora. Ele viveu muitos anos lá. Sempre que eu o encontrava na praia, ele falava: ‘Abud vai ensinar Ernesto a fazer mercadoria’. Passei, então, a frequentar a casa dele e aprendi a fazer a esfiha, o quibe cru, a cafta, o homus, o tabule e tudo o mais”, conta Ernesto.

“Nos tornamos muito amigos e resolvemos montar uma casa. Ele entrou com o dinheiro, e eu, com o trabalho. Ele alugou a loja, comprou mesas e cadeiras, letreiro, já tinha tudo pronto, mas na semana de inaugurar ele sofreu um infarto fulminante. Eu não tinha condições de tocar o negócio. Expliquei a cada fornecedor e devolvi todas as mercadorias. Foi aí que coloquei uma meta para mim: Iria trabalhar mais um ano, juntar dinheiro e abrir a Esfiha do Abud. Fiz uma homenagem, e até hoje ele me abençoa e me ilumina.”

No dia a dia baiano, todos os que passavam pelo local eram chamados por Abud, e Ernesto foi, pouco a pouco, também sendo chamado por Abud. “Passei a chamar as pessoas, e todo mundo passou a me chamar assim. Como está Abud? Virei Abud. Hoje poucas pessoas sabem, como os amigos antigos, que também já não me chamam pelo nome, mas por Abud. Meus irmãos me chamam de Abud, meus filhos me chamam de Abud, todo mundo me chama assim”, diz. Gosta? “Até prefiro.”

‘A dois passos do paraíso’

Nascido em Rochedo de Minas, a cerca de 50km, de Juiz de Fora, Ernesto não tem traço libanês no sangue. É brasileiro por inteiro, há 60 anos. É mineiro também por inteiro, daqueles que se encantam sobremaneira com o mar. “Vim morar em Juiz de Fora quando tinha 2 anos. Vim com a minha família. Meu pai mexia com caminhão, tinha fazenda e quando vendeu tudo, nos mudamos para cá”, conta o quinto filho entre seis. Concluído o ensino médio, Ernesto foi ser faturista numa loja, onde permaneceu por oito anos.

Com a família, montou uma confecção infantil, mas diante da crise dos anos 1990, desfez o negócio. Chegou a abrir uma padaria, mas fechou pouco tempo depois. Até que conheceu o lugar dos sonhos. “Fui passear em Porto Seguro, gostei e resolvi mudar para lá. Fiquei um tempo como turista, vivendo do dinheiro da venda da padaria, até que resolvi morar lá. Como precisava de alguma coisa para sobreviver, fui fazer empadinhas para vender na praia”, recorda-se. “Foi a melhor época da minha vida, porque conheci gente do mundo inteiro, fiz amizades.

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Era conhecido como o empadinha. Eu mesmo fazia, eu mesmo vendia. Vender na praia dá dinheiro, porque a gente ganha muito mais e não tem despesa, só gasta matéria-prima e tempo”, comenta ele, que soube o momento de guardar e também de regressar. “Lá é um paraíso. E meu sonho ainda é voltar.”

‘A vida em duas rodas era tudo que ele sempre quis’

Quando Abud desembarcou, de malas nas mãos, em Juiz de Fora, trazia consigo um novo nome, e o bar com quase uma década de funcionamento em Arraial D’Ajuda. Montou seu Bar do Abud no Cascatinha e logo mudou-se para a Rua Oswaldo Aranha, onde permanece há mais de dez anos. As receitas do amigo Abud seguem como o carro-chefe. “Sempre gostei de cozinhar”, conta o chef que vai das massas italianas à feijoada de sábado. Trabalha de segunda a sábado, da manhã até meia-noite. Aos domingos, passeia de moto.

“Vou a Itaipava, Bicas, São João del Rey, nessas cidades mais próximas, geralmente com mais dois amigos. Gosto de pegar a moto e sair por aí, sem compromisso. Todos os anos vou a Porto Seguro de moto, no carnaval. Ando de moto há muito tempo. Tenho carteira desde 1978”, destaca o motociclista que integra dois motogrupos, o V8, com os frequentadores das quintas-feiras do bar, e o Surerus.

“Não tenho grandes ambições. Já conquistei o que queria: sou uma pessoa feliz”, diz o pai de Thaís, 30 anos, Leandro, 27, Aressa, 22, Vitor, 17, Vinícius, 12 e Matheus, 7. “O Vinicius é um artista. Toca violino, você tem que ver. O Vitor, meu outro filho, toca violão. O Matheuzim falou que vai tocar também. Vou fazer uma banda, então!”, ri. “Eu não toco nada, mas a minha família toda é musical, meus irmãos, meus tios, todos músicos. Família festeira”, orgulha-se o marido de Aparecida, parceira na vida e também no bar. Simpático, o Abud que é Ernesto, avô de duas, emociona-se ao se recordar de tudo o que o libanês na Bahia foi capaz de lhe proporcionar. Digno de um brinde. Com cerveja, Abud? Ou não bebe? “Uma cervejinha, de vez em quando, todo dia, é bom”, responde, aos risos.

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