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Tem Base! Alexandre Ank supera, se reinventa e transforma as pessoas

No terceiro episódio da série de minidocumentários, mãe e amigo do mesatenista esmiuçam a trajetória, desde o acidente que o deixou paraplégico às conquistas como a vaga na Paralimpíada de Pequim

Por Bruno Kaehler

06/09/2020 às 07h00

Alexandre Ank é um dos principais mesatenistas do país (Foto: Fernando Priamo)

“Quando ele estava internado, ficava uma fila de amigos do Clube Cascatinha, todo mundo ia visitar ele. As pessoas entravam e, quando saíam, me cercavam e diziam: ‘Dona Beth, eu estou morrendo de vergonha. Achei que ia chegar e levar um conforto ao Alexandre, mas eu que estou saindo confortado.’ Era assim.” E assim segue na vida do mesatenista Alexandre Ank, 40 anos, como sua mãe, Elizabeth Macieira Ank, destacou à Tribuna no terceiro episódio da série de minidocumentários Tem Base!, gravada antes da pandemia do coronavírus. No lugar de abaixar a cabeça para as dores e dificuldades, o paratleta nascido em Bicas, mas que mora em Juiz de Fora desde os 3 anos, decidiu vencer. Mais que isso, transformar as pessoas ao seu redor.

O espírito proativo do multicampeão, de família moradora no Bairro Santa Luzia, Zona Sul, existe desde criança. “Toda a vida ele adorou praticar esporte. Lá no Clube Cascatinha, fazia todo tipo de modalidade. Sempre foi uma criança muito agitada, gostava de estar participando de tudo, sempre interagindo com as pessoas. Na parte de estudos ele não era muito chegado! Queria mais é praticar esporte”, relembra Elizabeth.

Conforme seu amigo e fisioterapeuta, Jardel Trindade, Ank era visto como uma promessa do futebol local, tamanha sua dedicação e vontade desde adolescente.

Aos 17 anos, no entanto, um drama mudaria completamente a vida do atleta, bem como de sua família. Estava de carona com amigos em um carro, quando o veículo passou por um buraco, rodou na pista e Ank acabou arremessado, de costas, a um muro.

“Foi em 21 de dezembro. Nós estávamos no Clube Cascatinha, ele chegou perto de mim e falou que estava indo no Shopping Santa Cruz comer uma pizza com os amigos. E foi. Aí nós terminamos lá (no clube) e fomos embora. Chegando em casa, nada do Alexandre. Quando foi 1h, o telefone tocou. Fui atender e era um policial avisando que ele tinha sofrido um acidente e que estava na Santa Casa. Nós fomos para lá de imediato e, chegando, ele já estava sendo atendido. O médico estava na função porque as costas dele (Ank) ficaram retalhadas de cacos de vidro, que estavam sendo tirados”, recorda a mãe.

Lutando pela vida, como enraizado na alma do esportista, Ank passou 12 dias em coma, superou cirurgias e acabou paraplégico. “Pra mim e pro pai dele (Ney Ank) foi muito difícil de ter personalidade para aguentar essa situação. Mas graças a Deus, como sou uma pessoa espírita e tenho muita fé, Deus me deu conforto ali para superar tudo isso”, agradece Elizabeth.

‘Ele nasceu para o tênis de mesa’

Em 2003, Alexandre Ank viajou para Uberlândia disputar uma competição de natação. Não imaginaria que outro convite marcaria novamente sua vida. “(Na disputa) ele não conseguiu fazer nada. Aí um senhor, Benedito, perguntou se ele entendia alguma coisa de tênis de mesa. Ele respondeu que já tinha praticado um pouco, mas que o forte dele era futebol. Foi convidado pra tapar um buraco na competição porque tinha faltado um atleta. Participou e ficou em terceiro lugar”, conta Elizabeth, sobre a disputa entre os profissionais. Ank ainda foi campeão iniciante no mesmo evento.

Surgiu, então, uma nova paixão na vida do biquense. “Quando vi os primeiros jogos dele, percebi que ele nasceu para o tênis de mesa mesmo”, crava Elizabeth.

Pais do paratleta radicado em Juiz de Fora, Elizabeth Macieira Ank e Ney Rocha Ank (Foto: Leonardo Costa)

Além do foco e da determinação para evoluir, Ank conheceu, em um clube, uma pessoa que, somado ao auxílio profissional, passaria a ser considerada como um irmão em pouco tempo – o amigo Jardel Trindade.

“Eu era estagiário na fisioterapia. Ele me contou que teve uma luxação medular no nível T10 e no T12, da coluna torácica, e aquilo me despertou uma atenção e também me disponibilizei caso ele precisasse de algum cuidado. Foi onde iniciamos essa trajetória de conhecimento, amizade e irmandade. Costumo dizer assim porque a gente acabou, além da profissão, do conhecimento clínico e científico, aliançando uma amizade. Reconheço que ele representa um prolongamento da minha família”, conta o fisioterapeuta.

De forma imediata, o comportamento de Ank, que otimizava suas capacidades físicas, surpreendeu Jardel. “Esse cuidado do Ank me chamou muita atenção porque uma luxação medular gera uma sequela irreversível. A medicina ainda tenta explicar e reabilitar esses pacientes. Foi onde me interessei a estar auxiliando as sequelas do tratamento dele. E tem sido um aprendizado constante. Não só na área da pesquisa e da ciência, mas entender que, após uma sequela, uma lesão que é irreversível, a pessoa compensa aquela sequela em outros dons. O Alexandre tem uma inteligência emocional muito grande para lidar com as adversidades”, reitera.

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De busca por conhecimento e auxílio na reabilitação, Jardel virou irmão de consideração de Ank (Foto: Reprodução)

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Seleção, Parapan e Paralimpíada

Em 2004, Ank representou pela primeira vez a seleção brasileira de tênis de mesa. Acabou campeão de um torneio na Argentina, pela Classe 4 (categoria de Ank determinada por sua deficiência e pela capacidade física), mesmo após 58 horas de viagem de ônibus. O suor só traria recompensas ao paratleta, que no ano seguinte era medalhista de ouro por equipes com a camisa canarinha no Pan-Americano de Mar del Plata.

E as conquistas seguiam. Em 2007, Ank e seus familiares presenciaram um dos momentos mais importantes de sua carreira, a disputa do Parapan-Americano do Rio de Janeiro, com o ouro por equipes e o bronze individual. “Nesse evento graças a Deus conseguimos ir. A cada minuto que estávamos ali dentro era uma emoção muito grande, porque você vê a superação e a dedicação dele ali. Se entrega de corpo e alma quando compete”, ressalta Elizabeth. “E quando vi com a medalha foi uma emoção muito grande. Ajoelhei em frente a ele, o abracei e dei os parabéns. Não tenho palavras pra expressar como foi a emoção.”

O coração de Elizabeth estaria preparado, ainda, para um dos maiores sonhos de todo esportista no mundo: a participação em uma paralimpíada. Em 2008, Ank disputou o evento de Pequim, na China. “Quando chegou o e-mail dizendo que ele tinha conseguido a vaga, todo mundo ficou muito emocionado. Ficamos querendo ir com ele, mas sem poder, porque até o patrocínio para ele é difícil de conseguir. Mas ficamos aqui torcendo para que tudo ocorresse da melhor maneira possível”, recorda a mãe.

Em 2015, o atleta ainda foi ao Canadá e representou o país com a conquista do título do Parapan de Toronto por equipes, além do terceiro lugar individual, mesmo com uma lesão no ombro. Agora, Ank, recuperado de uma osteomielite no tornozelo, que o fez ficar internado durante 41 dias sem contato com os familiares por conta das normas de prevenção no combate ao coronavírus, já pensa na Paralimpíada de Paris, em 2024.

‘Quando nós tratamos, nós somos tratados’

“Gosto muito de uma frase que diz que ‘quando nós tratamos, nós somos tratados.’ Por diversas vezes, além de aprender com a capacidade do Alexandre de se readaptar a uma nova função, uma nova etapa de vida, ele leva esse exemplo para as pessoas”, destaca Jardel, reiterando não apenas o poder transformador de Ank em sua vida, como na de pessoas que acabam de o conhecer, por exemplo.

“Posso falar que, em diversas vezes, ele mais me ajudou do que o oposto. Tem uma história muito bonita de um primo meu. Há cinco anos ele também sofreu um acidente automobilístico, e o Ank se dispôs a viajar três horas e meia pra uma cidade do interior que não tinha infraestrutura nenhuma. Comprou essa briga comigo”, inicia o relato.

“Costumo falar que isso me emociona muito porque as pessoas estão dispostas a ajudar, mas será que também estão dispostas a se colocar no lugar e fazer a diferença na vida das pessoas? Esse grande primo meu estava enfermo, em cima de uma cama, tinha acabado de ter alta, e o Alexandre chegou em uma cadeira de rodas e contou sua trajetória de vida. Ele disse: ‘Olha, eu pude me reinventar, hoje tenho uma vida social, sou independente e gostaria de falar que você também pode dar a volta por cima e reconquistar sua independência.’ E nós, da fisioterapia, estudamos com esse objetivo”, conta.

Consciente da importância de contar sua história cercada de superação para o maior número de pessoas possível, Ank também possui o hábito de ministrar palestras de caráter social. “Também o acompanho (nas palestras), e ele tem uma pegada para pessoas de escolas municipais, estaduais, pessoas de baixa renda. Essa palavra de incentivo, de testemunho de vida em relação às medalhas, aos títulos, quando você leva para uma parte social, tem um alto poder de impacto e isso faz a diferença na vida das pessoas.”

O exemplo transcende gerações e comunidades. Ele vem da família e volta para ela, como um ciclo, de forte gratidão, perceptível até mesmo na simplicidade das palavras da mãe, Elizabeth. “É difícil dizer como a gente sente isso tudo. Porque ele teve uma superação muito grande. É uma emoção muito profunda em saber que ele é assim, tanto como filho, quanto como atleta, amigo, irmão, como tudo. Ele é um cara muito especial, um filho maravilhoso.”

 



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