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Tim Maia segue vivo com lançamento inédito

“Yo te amo”, com versões em espanhol de canções do primeiro álbum do cantor e compositor, é lançado 51 anos depois de sua gravação


Por Júlio Black

28/05/2021 às 07h00- Atualizada 28/05/2021 às 07h58

Gravações inéditas de Tim Maia (em foto na década de 1970, com o filho Carmelo) são lançadas mais de 50 anos depois (Foto: Arquivo pessoal)

Um dos fetiches dos apaixonados por música é encontrar aquelas faixas raras e nunca lançadas, sejam inéditas ou versões demo, inacabadas ou completamente diferentes da que se tornou conhecida, até mesmo em outras línguas. Pois os fãs de música em geral e de Tim Maia em particular ganharam um senhor presente na última terça-feira (25), quando foi lançado nas plataformas de streaming o álbum “Yo te amo”. São nove versões em espanhol de músicas cujas versões originais foram gravadas no álbum de estreia do cantor e compositor carioca – entre elas, clássicos como “Eu te amo”, “Azul da cor do mar”, “Primavera” e “Coroné Antônio Bento”.

Esse tesouro foi encontrado há cerca de quatro anos pelo filho de Tim, Carmelo Maia, quando ele iniciou o processo de digitalização das fitas de gravações do cantor que estavam oxidando. Foi no meio desse volume de registros sonoros que ele encontrou a gravação, feita há quase 51 anos. E constavam todos os detalhes do onde, quando e quem: a fita registra que as músicas foram gravadas no estúdio Vitória Régia, no Rio de Janeiro, em 12 de julho de 1970. A banda que acompanhou Tim na sessão era diferente daquela que gravou sua estreia fonográfica: Fininho no contrabaixo, Luiz “Meio Quilo” na guitarra, Cabeçote no vibrafone, Celio no piano e órgão e o próprio Tim Maia na bateria e percussão. Nos vocais, ele teve o acompanhamento de Mosquito, Soninha Terremoto, Cinara e Doria.

Ninguém sabe, ninguém viu

Em entrevista à Tribuna, Carmelo conta que seu pai nunca havia comentado sobre essas gravações, apesar de na década de 1990 ter retomado – de acordo com ele – o sonho de gravar álbuns em inglês e espanhol. Por isso, foi uma surpresa descobrir o material durante o serviço de digitalização.

“Quando ele veio a falecer (em 15 de março de 1998), herdei todo o material, acervo, processos judiciais, e um dia tive que ir ao estúdio para digitalizar as fitas analógicas que estavam em processo de oxidação. Eu digo que o ‘baú’ do Tim é um baú sem fundo, mas mesmo assim foi um achado quando escutei aquele timbre do meu pai, aquele grave, realmente me causou uma surpresa. Parecia a mãe que estava dando luz a um filho”, compara.

Para Carmelo, esse projeto até então desconhecido reforça a faceta visionária de Tim Maia, que na época era um jovem prestes a completar 28 anos, que mal havia lançado seu álbum de estreia (“Tim Maia” foi lançado em junho de 1970 pela CDB-Philips) e que (provavelmente) mesmo assim estaria já visando o mercado hispânico. Por que o projeto foi abandonado, Carmelo só pode especular.

“Meu pai deve ter apresentado para as gravadoras, e acredito que falaram que não era comercial, assim como o álbum da fase ‘Racional’. Quando isso acontecia ele ficava tão puto que deixava a fita master em qualquer lugar e esquecia. Imagino que foi o que aconteceu com a master em espanhol, pois meu pai não sabia lidar bem com a situação quando se sentia frustrado.”

Segundo Carmelo, foi o mesmo que ocorreu com o “Volume 3” do “Racional”, que ele encontrou 35 anos depois. “O dono do estúdio estava fazendo uma limpeza das fitas master, aí de repente ele escutou o Tim Maia, viu que era da fase ‘Racional’, e foi assim que encontramos esse álbum. Meu pai era muito desprendido das coisas, se você dissesse que não estava interessado, ele descartava.”

Carmelo tentou obter mais informações sobre as gravações em espanhol, sem sucesso. “Ninguém soube dizer, inclusive um dos produtores do disco em português, o Jairo Pires. O outro produtor, o Arnaldo Saccomani, já havia morrido, assim como os músicos que participaram das gravações, que não eram os mesmos do álbum original.”

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Restauração meticulosa

Um dos motivos para a demora entre a descoberta do material e seu lançamento foi a necessidade de fazer um trabalho cuidadoso de restauração e masterização das músicas, que tivesse o nível de excelência que sempre era buscado por Tim Maia. Para o serviço, foi contratado o engenheiro de som André Dias, que no material de divulgação de “Yo te amo” diz que o trabalho foi um dos mais desafiadores e emocionantes da sua carreira, tendo que usar soluções de engenharia muito específicas e de alto nível de complexidade para reconstruir e restaurar partes perdidas e danificadas do conteúdo. No total, o processo durou sete meses.

“Durante esse tempo falei nada para ninguém porque precisava pensar com a cabeça do meu pai, por meio do olhar dele, que sempre deixou claro o que gostaria que fosse feito após sua partida”, explica Carmelo. “Reunir os melhores profissionais, o melhor estúdio demanda trabalho, pois primeiro quem banca isso sou eu, é um custo muito alto, sei que um dia vou morrer e não quero ouvir esporro lá em cima. Por isso, procuro o melhor engenheiro de som para cada projeto, e neste caso precisava do melhor para restauração artesanal, fazer uma remasterização bem especifica.”

Para esse trabalho, uma exigência foi não fazer recortes ou edições que deixassem o álbum “perfeito”. “Pedi para deixar (na gravação) ele dando esporro, errando, errando e voltando, a fim de permitir que as pessoas tenham acesso a esse processo de gravação que mostra como o Tim pode errar, assim como todos os outros artistas, afinal todos são humanos. Acredito que é mais rico ver os erros que acertos. Sei que meu pai estará feliz, pois estou fazendo o melhor para ele.”

Homenagem a Cassiano

“Yo te amo” tem quatro versões em espanhol de canções compostas por um dos grandes nomes da MPB, Cassiano, seja sozinho ou em parcerias. Carmelo Maia lamenta que o artista – que morreu em 7 de maio, aos 77 anos – não possa ter ouvido o trabalho devido à necessidade de distanciamento e isolamento social decorrente da pandemia. Por isso, o álbum foi dedicado ao artista, autor de clássicos como “Primavera”.

“Eu já tinha um encontro pré-agendado com o Cassiano para mostrar as músicas. Ele era uma pessoa imprevisível, meio parecida com o João Gilberto, que às vezes não aparecia. O único pedido dele foi que nos encontrássemos depois que estivéssemos vacinados, mas infelizmente Deus quis levar o Cassiano. O que me restou foi fazer uma homenagem dedicando o álbum a ele, que foi um grande amigo e parceiro do meu pai. O título escolhido para o álbum é de uma das músicas compostas por ele (‘Eu amo você’) que ficaram famosas na voz do Tim.”

Tim Maia na Broadway

Questionado sobre futuros lançamentos de material inédito de Tim Maia, Carmelo confirma que ainda existe muita coisa, mas prefere guardar segredo. Ele só confirma que “Yo te amo” deve ganhar, no futuro, lançamento em vinil, e que o cantor e compositor deve ganhar um musical apresentado nada menos que na Broadway, em Nova York.

“Já estava tudo certo com investidores norte-americanos para assinar o contrato em março de 2020, mas então veio o lockdown e tivemos que adiar. É questão de receber a segunda dose da vacina da Pfizer e viajar para Nova York. Os investidores falaram que meu pai era para ser deles se não tivesse sido deportado (em 1963), que seria igual ao Marvin Gaye Stevie Wonder, Michael Jackson”, diz, orgulhoso.

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