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‘Só mais um episódio’ – Como é a vida de viciados em séries

Sono, leitura e interação social são afetados pelo consumo excessivo de conteúdos das plataformas de streaming

Por Por Julia Campos, estagiária sob supervisão da editora Regina Campos

28/01/2018 às 07h00

Fã das séries Black Mirror, Outlander e Stranger Things, a jornalista Ruth Flores confessa que está dormindo menos para assistir a mais episódios (Foto: Olavo Prazeres)

As séries e os filmes ofertados pelos serviços de streaming on demand já são um sucesso entre crianças, jovens e adultos há algum tempo. A facilidade da escolha dos títulos e do acesso, o conteúdo revolucionário e a grande variedade são alguns dos fatores do êxito destas plataformas. Mas ainda pouco se discute sobre o consumo exacerbado por parte de alguns assinantes, que estão deixando de realizar ações antes rotineiras e dando cada vez mais espaço em seus dias para assistirem ao conteúdo ofertado.

Há quem perca o sono para ver “só mais um episódio” todas as noites. É o caso da jornalista Ruth Flores, 23 anos. Ela diz que nunca deixou de sair com amigos para se divertir por conta das séries, mas confessa que as noites de sono, que antes duravam cerca de sete horas, são agora afetadas pelo hábito. Após a descoberta do streaming, elas duram, em média, cinco horas. “Depois que comecei essa prática de ‘maratonar’ séries, eu passei a dormir mal. Muitas vezes começo uma série já em um horário mais tarde, e, se ela me prender, já era, não durmo até terminar. Já virei noites por causa de séries. E isso, com certeza, afeta meu rendimento. Estou sempre cansada no dia seguinte, ou seja, nunca durmo o necessário para poder ir trabalhar.” Nos fins de semana o consumo é ainda mais intenso. “Pode ser que eu passe mais de dez horas vendo séries.”

A estudante Jéssica Almeida, 20, acredita que seu hábito de assistir a, pelo menos, um episódio de séries todas as noites agravou seu já conhecido quadro de insônia. “Eu tenho muita insônia, daí decido assistir a um episódio. Mas nunca é só um, e isso, ao invés de estimular a indução do sono, provoca um efeito contrário.” Mas Jéssica, que atualmente dorme cerca de quatro horas por noite, garante que o pouco tempo de sono não prejudica seu rendimento na faculdade e no estágio. “Acho que meu corpo já se acostumou com esse ritmo”, conta.

O presidente da Associação Psiquiátrica de Juiz de Fora, Guilherme Henrique Faria do Amaral, confirma que conteúdo audiovisual antes do sono é realmente prejudicial para quem sofre com insônia. “Sempre é determinado para o paciente que tem problema de insônia crônica a higiene do sono. Não é bom assistir a televisão, ter muita luminosidade, muita informação. A questão das séries é mais interessante porque a função delas é prender a sua atenção. Sempre no final do capítulo há uma deixa para iniciar o próximo, o que causa certa ansiedade, e isso é terrível para quem tem insônia.”

 

Quando o hábito vira vício?

O hábito frequente de assistir a filmes e séries tem provocado outra queixa: o afastamento social. O músico Matheus Pierrot, 26, chega a passar, em média, quatro horas assistindo a séries nos dias de semana e até oito horas nos fins de semana. Ele confessa já ter sido advertido pela mãe e por alguns amigos. “Eles reclamam que não tenho mais o tempo que eu tinha antes para socialização. Minha mãe diz que estou mais disperso e deixando de fazer muitas coisas que fazia antes.” Ele admite que faz uso excessivo da plataforma. “Chega uma hora em que temos que assumir que somos viciados em alguma coisa. Hoje eu vejo que é vício, sim! E estou me policiando muito para melhorar isso.”

Apesar de estar consciente de que tem menos tempo para os amigos, Matheus busca um argumento para defender o hábito de assistir a conteúdos de streaming. O músico acha que as séries e os filmes que assiste são assuntos que rendem um bom papo. “Quando termino as séries e descubro coisas novas, fico com vontade de mostrar a meus amigos, trocar ideias sobre tais coisas e procurar mais sobre, lendo os assuntos relativos.”

O conteúdo continua após o anúncio

Mas deixar de fazer coisas que antes eram rotineiras para se dedicar a uma única atividade pode ser considerado um vício? Para o psiquiatra Guilherme Henrique Faria do Amaral, esse diagnóstico deve ser avaliado com muita calma. “Hoje a gente vê uma necessidade de tecnologia muito grande, coisa que não se via há 20 anos. Para nós, de gerações mais antigas, assusta ficar dez horas assistindo a uma série em um fim de semana, mas para os jovens é normal. Agora, quando a pessoa começa a deixar de fazer coisas importantes na vida para ficar só por conta disso, ela já tem que se preocupar e acender uma luzinha vermelha de que tem alguma coisa errada.”

Essa tendência de consumo observada nos depoimentos dos entrevistados já foi alvo de diversos estudos feitos pela Netflix, uma das maiores plataformas de streaming do mundo. Um deles, publicado pela revista “Meio e Mensagem” em junho de 2016, diz que os assinantes levam, em média, uma semana para maratonar uma temporada inteira. Outro estudo, divulgado em novembro do ano passado pela revista “Galileu”, afirma que 67% dos assinantes assistem a filmes e séries fora de casa, sendo 26% no trabalho. O estudo foi realizado com base nos depoimentos de 37 mil adultos em todo o mundo.

Uma nova e mais barata forma de consumir cultura

A professora Juliana Bellini, 29, que antes da fixação pelas séries lia cerca de quatro livros por mês, agora lê apenas um. Ela conta que já chegou, em um dia de maratona, a ficar 12 horas assistindo direto. Para Juliana, assim como para tantos outros, todo dia é válido para dedicar um tempo às séries favoritas. Em dias de semana, ela se diverte nas plataformas por cerca de duas horas, e a média, aos fins de semana, sobe para oito. “Se for algo que eu quero muito assistir, ou acabei gostando muito, eu vou até onde aguentar ou puder”, conta.

Para Juliana, o fator financeiro também pesa na hora de escolher este tipo de programa. “Muitas vezes, eu e meu namorado, e mesmo meus amigos, escolhemos assistir a alguma coisa em casa ao invés de sair, pois sai bem mais em conta!”

De fato, o valor dos planos da Netflix, por exemplo, é mais acessível que uma ida ao cinema. O pacote mensal mais caro e mais completo da plataforma custa R$ 37,90, enquanto assistir a um filme em um cinema, para o público que não é mais estudante, custa cerca de R$ 50 para o casal, sem contar com outras despesas, como alimentação e estacionamento.

Este fator ajuda na atual transformação de consumo de cultura, mas não é o único. Para a mestre em comunicação pela UFJF e vice-coordenadora do Observatório da Qualidade no Audiovisual, Daiana Sigiliano, os serviços de conteúdo on demand, como a Netflix, a Amazon Prime Time e a HBO Go, refletem não só o atual ecossistema de conectividade como também os novos hábitos do cidadão. “A rápida adesão do público por esse tipo de serviço se dá por três pontos principais: a oportunidade de assistir ao conteúdo no horário em que lhe for mais conveniente, sem ficar preso à grade de programação; o amplo catálogo de conteúdos que abrange diversos gêneros e que é atualizado semanalmente; e a produção de conteúdos direcionados, ou seja, tramas que dialogam com as preferências dos assinantes. Além disso, o público pode assistir ao conteúdo em várias telas, como TVs, smartphones, notebooks e tablets.” Daiana ainda ressalta o interesse dos mais jovens pelos conteúdos de streaming. “Uma pesquisa realizada pelo Moffett Nathanson Research aponta que 81% dos jovens entre as idades de 18 e 35 têm contas na Netflix.”

Segunda temporada de “The crown” impulsionou audiência da Netflix no último trimestre de 2017 (Foto: Divulgação)

Arcos narrativos e algoritmos estimulam maratona

O motivo de tanta fascinação por parte de algumas pessoas pelas histórias exibidas pode parecer mais simples e lógico do que parece. O binge watching, expressão em língua inglesa para o nosso “maratonar”, é, muitas vezes, resultado da construção narrativa do conteúdo aliado aos algoritmos das plataformas. “A estrutura narrativa das séries produzidas pela Netflix apresenta ganchos e clímax pontuais que estimulam a curiosidade do público, dessa forma, ele irá assistir ao próximo episódio para saber quais serão os desdobramentos da história. Outro ponto que é importante considerar é a forma de distribuição da Netflix, pois, ao contrário dos canais de TV, a plataforma libera todos os episódios de uma temporada de uma só vez, o que propicia o consumo ininterrupto. E por fim, o marketing do serviço aproxima o público do binge watching, criando um hype (exagero) em torno do hábito. Já os algoritmos identificam e ajudam a delimitar quais são as preferências do público, e, a partir daí, ajudam a moldar as tramas, e também o modo como os arcos narrativos são desenvolvidos é diferente”, ressalta Daiana.

Em 2017, a Netflix alcançou a marca de 110,6 milhões de assinantes em todo o mundo. Segundo dados divulgados pela empresa na última segunda-feira (22), o serviço de streaming ganhou 6,4 milhões entre outubro e dezembro de 2017, graças ao bom desempenho de séries como “Stranger things” e “The crown”, que estrearam no 4º trimestre. Para o próximo trimestre, a empresa prevê que terá 8,5 milhões de novas assinaturas, impulsionadas pelas novas temporadas de séries como “Love”, “Jessica Jones”, “Carbono alterado” e “Grace & Frankie”.

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