Um chamado para a vida, igualdade racial e de gênero

Noite de abertura da Mostra de Cinema de Tiradentes coloca em discussão a representatividade negra, faz Babu Santana se emocionar e homenageia a própria cidade, que completa 300 anos


Por Carime Elmor

20/01/2018 às 15h56- Atualizada 20/01/2018 às 16h02

Foto Leo Lara exibiçao de cafe com canela
“Café com canela” abre a Mostra Homenagem a Babu Santana (Foto: Leo Lara)

Entro no ônibus, bem no horário em que a tarde é cortada ao meio. Minhas primeiras vezes (no “pluralíssimo”) em Tiradentes e na Mostra de Cinema que há 21 anos inaugura o calendário de eventos audiovisuais no país. A cidade já nos pega pela vontade de ter olhos cada vez mais livres, e também capazes de fotografar a moça na soleira da janela que parece boneca e o horizonte do céu e da montanha, no fundo de uma rua de pedra com casas geminadas intercalando cores. Você entra para a Mostra de Cinema de Tiradentes, que ao todo vai exibir 102 produções do audiovisual brasileiro, com a sensação onírica de que você mesma, ao piscar, está dentro de um grande filme. A cidade comemora seus 300 anos em 2018 fazendo e sendo cinema como um jovem de vinte e poucos anos.

Minas, história, passado, memória, revisitada de forma inusitada. São sonhos e saudades do que ainda está por vir. A palavra “futuro” foi o grande impacto do texto de abertura escrito por Leo Gonçalves, e lido brilhantemente pela atriz e produtora cultural Grazi Medrado no primeiro momento da noite de abertura, na última sexta-feira (19), no Cine Tenda. A sala para 700 pessoas, completamente lotada, começava a ser transportada para uma reflexão sobre o que nos atravessa politicamente e existencialmente. A breve apresentação da temática deste ano, “Chamado realista”, é um alerta, um apontamento, muito mais do que a tentativa de nomear e classificar as mais recentes produções cinematográficas brasileiras. Lastros da vida “real” dos atores para surgimento dos personagens ou mesmo uma direção de atores que não os condiciona a nada, a não ser atuar a partir deles mesmos, são algumas tendências presentes nas produções, que demonstram um caráter quase de documentário nas ficções.

Foto Leo Lara maýra motta
Maýra Motta no palco do Cine Tenda (Foto: Leo Lara)

A partir da criação, que pode ser inclusive completamente inverossímil, os curtas e longas possuem o contraponto de se tornarem realistas no sentido de buscarem o tempo todo uma aproximação com o real, com o contexto político, com um sentimento do agora. Como se estivessem com a cabeça na lua, mas os pés no chão, expressando-se a partir dessa noção. “Um chamado para a vida, para o preconceito de gênero e racial. Sobre esse sentimento de impotência diante da política. Um chamado para refletir, esse é o chamado realista”, disse na abertura Raquel Hallak, diretora da Universo Produção, responsável pela organização da Mostra. Diante das subjetividades em crise, a arte, não só no cinema, mas na música, na performance, sente uma necessidade quase involuntária de se pronunciar contra a política governamental e o esmagamento que o povo, a cultura e a arte sofrem. “Deixe-nos impregnar”, dizia ela em seu discurso. A frase ecoou em minha cabeça ao longo de toda cerimônia.

A performance de Maýra Motta foi a chave de todas as intenções do evento em se manifestar politicamente. Ela, uma mulher negra, seu corpo, suas histórias, seu corpo contando suas próprias histórias, e ao mesmo tempo a de tantas outras. Junto a isso, projeções com dizeres como “a revolução é feminina”, imagens de indígenas e mulheres negras apareciam no telão em simbiose com o que ela provocava em quem assistia. Uma das projeções era a capa do disco da jamaicana Grace Jones, de 1985, intitulado: “Slave to the rhythm”. Dois violinos e um vocal como um mantra indiano, ao vivo, criavam a atmosfera sonora.

A Mostra Homenagem é de pura resistência

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Babu Santana e família no palco do Cine Tenda (Foto: Beto Staino)

Após a exibição de um vídeo realizado pelo Canal Brasil para o ator homenageado pela mostra deste ano, Babu Santana, sua mãe, seu pai e suas filhas sobem ao palco para que ele receba o troféu barroco desta edição. O chamado realista estava concretamente ali, pela voz de sua própria mãe, que brevemente deixou palavras sobre a dedicação do filho para se tornar ator, ainda com as maiores dificuldades a serem encaradas quando se é “negro, favelado e pobre” e quer trabalhar com arte no Brasil. Babu parecia quase desacreditado com 700 pessoas o aplaudindo de pé, conseguindo tirar até mesmo lágrimas de alguns. Eu mesma me segurei.

O filme de abertura, “Café com canela” (2017), de Ary Rosa e Glenda Nicácio, inaugura a Mostra Homenagem, que conta ainda com “Bandeira de retalhos” (2018), “Tim Maia” (2014) e “Uma onda no ar” (2002), todas com atuação de Babu Santana. “Café com canela” tem tudo a ver com a mensagem da abertura da mostra. Um filme que trata da representatividade negra – todos os atores e atrizes do elenco são negros – se passa e foi filmado no Recôncavo Baiano, colocando o nome desta parte do país em destaque no cinema.

“Era aquela galera toda junta, não tinha um fotógrafo, um cinegrafista, um cenógrafo, era uma equipe grande que envolveu a comunidade também, foi uma coisa revolucionária. Uma faculdade no interior do Brasil, no Recôncavo Baiano, é emoção pura. Eu fico muito empolgado porque onde eu passo estão falando bem do filme, então eu penso que tinha atores maravilhosos envolvidos e a equipe era uma galera com muita garra. Aquele sangue no olho, para mim, era familiar e eu sabia que coisa boa ia sair dali”, revelou Babu em entrevista à Tribuna na última semana.

Minas e a indústria audiovisual

A presença do presidente da Codemig, Marco Antônio Castello Branco, e sua fala na noite de abertura, foi em torno do cinema como motivação econômica para desenvolvimento e crescimento de outros setores e serviços. “Desde 2015, nós temos trabalhado com muito afinco para colocar Minas Gerais no hall dos estados captadores do fomento federal da indústria do audiovisual”, diz ele, anunciando o edital 2018 para financiar a produção cinematográfica mineira, que será aberto na quarta-feira, 24, e vai até 3 de abril.

O edital deste ano, em parceria com a Ancine, Fundo Setorial do Audiovisual e Secretaria de Estado de Cultura, vai selecionar 12 novos projetos audiovisuais, ainda incluindo o financiamento de curtas-metragens, algo inédito em outros anos, sendo três curtas de ficção e dois de animação com recursos de até R$ 100 mil por projeto. Outra nova categoria é voltada para obras cuja etapa de produção se realize inteiramente em cidades no interior de Minas Gerais. “Nós queremos descentralizar a produção audiovisual.”

A repórter viajou a convite da organização do festival.

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