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Motoboys restringem locais de entrega em Juiz de Fora

Alvos de assaltos e com receio de atender clientes em locais onde índices de criminalidades vêm crescendo, motoentregadores admitem que já não atuam em várias áreas da cidade

Por Michele Meireles

31/01/2018 às 07h00- Atualizada 31/01/2018 às 07h22

Motoentregadores falaram sobre a tensão que vivem no dia a dia e sobre a necessidade de mais segurança (Foto: Leonardo Costa)

O medo dos motoentregadores de serem alvos de assaltos durante o trabalho está fazendo com que, pelo menos, nove bairros de Juiz de Fora fiquem fora da rota da entrega de parte destes profissionais. Entre os pontos em que eles afirmam haver restrições para levar as mercadorias estão principalmente bairros de cinco regiões da cidade (ver quadro). Com a situação, há áreas do município sem acesso a serviços essenciais, como a entrega de remédios, principalmente durante a noite. A limitação se dá, principalmente, entre 18h e 22h, hora em que a maioria encerra os serviços. Em algumas comunidades, como Vila Esperança I e II e Vila Olavo Costa, as entregas não são mais feitas em nenhum horário do dia. Há ainda bairros onde os clientes já marcam pontos de encontros mais movimentados com os entregadores para terem acesso aos seus pedidos já que os profissionais evitam determinadas ruas. A violência tem feito também com que vários motoboys desistam da profissão. Outros preferem não trabalhar mais durante a noite. Eles se sentem inseguros e pedem mais policiamento nas áreas críticas.

Segundo a categoria, áreas de risco têm sido demarcadas por eles próprios. São pontos onde a violência é considerada mais latente, mesmo que nenhum condutor tenha sido assaltado no local. “A gente fica com o coração na mão de deixarmos de ir, sabemos que a maioria dos moradores são pessoas de bem, mas não podemos arriscar nossas vidas”, afirma o motoboy Thiago Damasceno, assaltado em dezembro, em plena luz do dia no Bairro Guaruá, Zona Sul.

Conforme levantamento da Polícia Militar, 23 motoboys foram vítimas de assalto no ano passado. Nos últimos quatro meses de 2017, foram nove casos contabilizados pela Tribuna. O último deles aconteceu no dia 24 de dezembro. Era véspera de Natal, 13h, quando Thiago Damasceno foi fazer uma entrega na Rua Anhanguera, no Guaruá. Ele foi rendido por um assaltante armado, que colocou um revólver em suas costas e ordenou que passasse as chaves da moto e o capacete. “Na hora fiquei sem reação e entreguei a ele as chaves e meu capacete. Tinha pago só a primeira prestação da moto, que não tinha seguro. O bandido subiu na minha Fan, e eu ainda dei um tapa na mão dele para tentar fazer com que a arma caísse. O revólver não caiu, e ele o apontou para mim e disse: quer morrer? Eu coloquei as mãos para o alto e o ladrão fugiu”, conta.

Thiago trabalha entregando remédios e também presta serviço para um restaurante. Segundo ele, nos dois estabelecimentos, não é prestado mais o serviço em nenhum horário para o Guaruá, Vila Ozanan, Vila Ideal, Furtado de Menezes e Solidariedade. “Tínhamos uma cliente idosa no Solidariedade que sempre pedia insulina, fraldas e outros remédios. Mas depois que eu e outros colegas fomos assaltados, o bairro foi cortado, não entregamos mais lá”, comenta.

Mazza Dias, que já foi presidente da extinta Associação dos Motoentregadores, trabalha fazendo entrega de pizzas durante a noite. Segundo ela, antes de assumir qualquer serviço, ela demarca com os comerciantes as áreas de risco. “Eu não vou em certos lugares. Os patrões apoiam esta nossa posição, não assumem o risco.”

O motoboy Alessandro Silva também trabalha para uma rede de farmácias. Ele e outros colegas já foram assaltados nas Vila Esperança I e II, Zona Norte. Por este motivo, a partir das 22h, nenhum motoboy faz entregas nos bairros. “Os bandidos ficam na parte alta observando a movimentação, quando avistam que estamos chegando, gritam: se subir vai perder. Não tem a menor condição de irmos lá, infelizmente, a população fica sem receber remédios em um horário crítico, em que não acha mais nada aberto.”

O assalto mais recente registrado na Vila Esperança II aconteceu no dia 17 de dezembro. Um motoboy de 20 anos foi roubado enquanto fazia a entrega de lanche. Ele relatou aos policiais que recebeu a solicitação de um homem na Rua Carlos Alberto Quirino. Por volta de meia-noite e meia, quando o trabalhador se deslocou até o endereço, foi surpreendido por um grupo de cinco a seis pessoas, a maioria com os rostos cobertos. Conforme o boletim de ocorrência da PM, um dos homens estava armado, aproximou-se do motoboy e apontou a arma em sua direção. A vítima teve a Honda Biz e os objetos que levava roubados. Os suspeitos fugiram e não foram encontrados pela PM.

Márcio Bento só trabalha durante a noite. Ele presta serviço para um restaurante de comida japonesa e faz entregas por toda a cidade. O trabalhador contou que se nega a circular em alguns bairros, como Vila Esperança, Vila Olavo Costa, alto Dom Bosco e Parque das Águas. “A insegurança e esta violência faz com que todos percam: nós, que deixamos de receber por serviços, os donos dos estabelecimentos comercias, que perdem várias vendas, e também a população, que sequer consegue comer aquilo que está com vontade. Viramos todos reféns.”

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Outro motoboy, Humberto Giovanotti, trabalha fazendo entregas de produtos diversos. Ele reclama que alguns patrões não se preocupam com a segurança dos trabalhadores. “Quando chega um pedido para determinado bairro, eu e outros colegas já avisamos aos patrões que não iremos. Alguns entendem e cancelam a encomenda. Outros tentam nos forçar a ir e até ameaçam dispensar os serviços caso a entrega não seja feita. É uma situação complicada.”

Comerciantes preferem perder clientes diante do risco

Os donos de um restaurante de comida japonesa na Zona Norte preferem perder pedidos a deixar seu motoboy se arriscar. Eles, que preferiram não ter seus nomes revelados, não fazem entregas nos bairros Vila Esperança I e II e Miguel Marinho. “Ficamos chateados, pois sabemos que a maioria das pessoas é de bem. E os clientes ficam chateados quando ligam, e informamos que não vamos lá, mas não tem outro jeito”, comentou a comerciante. Segundo ela, alguns clientes ponderam que moram logo na entrada dos bairros para tentar fazer o pedido. “Meu motoboy já foi, mas, quando chegou na Vila Esperança, a rua era muito lá pra cima, aí voltou com a comida. Agora já negamos de cara, independente de onde é.”

O proprietário de uma pizzaria também da Zona Norte, cujo nome não será divulgado, restringe as entregas às Vila Esperança I e II, Parque das Águas, Miguel Marinho, Parque das Torres, parte do Jóquei Clube e alto Santa Cruz. “Um dos meus motoboy sofreu uma tentativa de assalto no Parque das Águas, teve uma arma apontada para ele. Os bandidos se assustaram com um carro que passou e desistiram do crime. Para os clientes, a impressão é que estão sendo discriminados. Muitos dizem que o dinheiro deles vale o mesmo que o de qualquer um. É ruim ver a que ponto chega a insegurança”, reforça.

Moradora diz se sentir como refém dentro de casa

Moradora da Vila Esperança I, uma técnica de enfermagem que preferiu não ser identificada, confirma a dificuldade de acesso ao serviço. “Lanche e remédio não chegam de noite, quando a gente passa o endereço, eles já pedem desculpa e dizem que não têm como ir. Eu entendo a posição deles, mas nós ficam desassistidos, pois eu não tenho coragem de sair de casa tarde para, por exemplo, buscar uma pizza. Me sinto refém dentro da minha casa, é triste.”

Funcionária de um estabelecimento comercial, uma moradora da Vila Olavo Costa confirma a restrição de entregas em seu bairro. “Eles não vêm mesmo, falam logo quando a gente diz que é aqui a entrega. A gente acaba ficando ilhado, não consegue pedir um lanche, um remédio, até mesmo táxi e Uber. Não temos nada com a violência e somos os mais prejudicados. Eu entendo o lado deles, pois se vier aqui de moto, os meninos roubam mesmo.”

Um residente do Jardim Cachoeira, que também não quis ter o nome divulgado, relata passar pelo mesmo problema. “Minha rua fica um pouco distante do Parque das Águas, mesmo assim, já tive vários pedidos negados, principalmente mais tarde, depois de 23h.

Alvos mais fáceis são os que entregam lanches e remédios à noite

Os trabalhadores dizem que os bandidos agem de duas formas: fazem emboscada ao se passarem por clientes ou então assaltam quando os motoboys estão indo fazer a entrega. Os alvos mais fáceis são aqueles que entregam remédios e lanches durante a noite, e, segundo eles, em locais com pouco movimento. Quando o crime é planejado, na maioria das vezes, os ladrões pedem troco para R$ 100, tendo assim a certeza que conseguirá roubar dinheiro. “Quando o lanche, por exemplo, fica em R$ 30 e pedem troco para R$ 100, já desconfio. Ligo para conversar com o cliente, às vezes, a gente percebe na hora que é uma cilada. Mesmo que o pedido já esteja pronto, peço na cozinha para cancelar e não vou”, disse o motoboy Lucas Silva.

Quando o crime é de oportunidade, e é este que a categoria tenta evitar, os bandidos agem em áreas de risco, aquelas onde acontecem muitos assaltos e outros crimes. “Nessas áreas, a gente já sabe que não dá para ir. Muitas vezes, o patrão não concorda. Eu já perdi emprego por conta disso. Não vou arriscar minha vida, arriscar de perder minha moto”, afirma outro trabalhador.

Sem uma associação que os represente, os motoentregadores criaram um grupo no WhatsApp para se manterem conectados e tentar evitar novos casos. “A gente fica sabendo na hora o que está acontecendo, um ajuda o outro. Nossa categoria precisava ter um representante, para termos mais voz para pleitear as coisas”, diz o motoboy Alessandro Silva

Polícia afirma estar atenta aos casos

De acordo com o assessor organizacional da 4ª Região da Polícia Militar, major Jovânio Campos, a maioria dos 23 casos aconteceu em uma das áreas evitadas pela categoria: a Vila Olavo Costa e o entorno. Ele destacou que, pelo levantamento feito pela PM que apontou os 23 casos, não é possível apontar que todos eles ocorreram no exercício da função. “Pode ser que sejam casos em que um motoboy foi vítima como transeunte, por exemplo. Apesar do número baixo, estamos atentos aos casos, e os motoboys podem nos procurar para que os ajudemos nessa questão.”
Segundo o oficial, a área da Olavo Costa recebe atenção especial e policiamento preventivo durante todo o dia. “Esta é um preocupação nossa. São feitas operações específicas voltadas ao combate de assaltos de motocicletas, que também têm o intuito de abordar veículos e pessoas suspeitas. Só na região do Olavo Costa, foram 1.485 ações, que resultaram na apreensão de 15 armas de fogo e na prisão de 12 pessoas”, disse, acrescentando que denúncias podem ser feitas via 181.

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