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Pelo menos duas estudantes são nota mil na redação do Enem em JF

Maria Antônia de Lima Barra e Bruna Dias Santana falam sobre as referências que usaram para escrever seus textos


Por Carolina Leonel

17/01/2020 às 20h35

A discussão a respeito da democratização do acesso ao cinema no Brasil, tema proposto pela redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019, rendeu, a pelo menos duas juiz-foranas, o título de autoras notas mil. Maria Antônia de Lima Barra, de 19 anos, e Bruna Dias Santana, de 18, estão entre os 53 estudantes no país que conquistaram a nota máxima na redação do exame. O resultado individual dos candidatos foi divulgado nesta sexta-feira (17) pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela elaboração, aplicação e correção das provas.

Na preparação, ambas disseram ter participado de cursos específicos de redação para trabalhar as competências textuais exigidas pela prova. Com o resultado, elas aguardam a classificação no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e pretendem cursar Medicina.

Maria Antônia diz ter escrito mais de 70 textos ao logo do ano, com foco no Enem (Foto: Arquivo Pessoal)

A juiz-forana Maria Antônia cursou o ensino médio no Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (Coluni/UFV). No ano passado, ela voltou a Juiz de Fora para intensificar os estudos no cursinho do Colégio Cave e a prática textual no curso Aporia. “Não havia estudado nada sobre o tema, levei um susto quando vi. Mas como nada é muito novo no Enem, acaba que você consegue pegar informações de outros temas e aplicar na discussão”, conta a estudante, que diz ter escrito mais de 70 textos ao logo do ano, com foco no Enem. Na avaliação da jovem, além da prática textual, o fato de ter uma boa base extracurricular e conhecimento de livros e filmes a ajudou a ter referências culturais para elaborar a dissertação.

“Eu fiz a prova nos anos anteriores e achei que o tema da redação de 2019 foi mais abstrato. Apesar de achar que tinha menos informação para usar, achei, por outro lado, mais fácil de usar referências, por ser uma temática cultural”, analisa a jovem, que iniciou a redação citado Bastardos Inglórios, filme de Quentin Tarantino que aborda o cinema em sua trama.

“Também citei Milton Santos (geógrafo e intelectual brasileiro), citando a questão da geografia do espaço urbano, ou seja, dizendo que o uso do espaço define o que ele é. Na minha avaliação, a relação com o tema é que se pessoas de um único padrão frequentam o local, isso causa exclusão indireta de outros públicos.”

Ainda sobre a discussão, Maria Antônia viu relação entre o tema democratização do acesso ao cinema no Brasil com o que é abordado no livro Quarto de Despejo, de uma das primeiras escritoras negras do Brasil, Carolina Maria de Jesus. “Criei o livro porque quis fazer referência sobre a questão do cinema não ser acessível para a maioria da população e a segregação mascarada que isso gera. Por fim, abordei conceitos como o capital cultural, de Pierre Bourdieu, e a questão do costume (em frequentar ou não o cinema)”.

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Leitura de redações notas mil e prática textual

“Na semana anterior à prova eu quis escrever um texto por dia. Tem gente que prefere descansar, mas, para mim, isso funciona. Eu fiquei revisando temas e, ao longo de todo ano, busquei escrever uma redação por semana”, conta a estudante Bruna Dias Santana, que, em 2019, após a conclusão do ensino médio, estudou por conta própria. Para ela, o fato de sempre ter gostado de ler livros possibilitou que ela criasse vocabulário e desenvolvesse boa escrita. “Mas não imaginei que tiraria mil, foi uma surpresa. Quando olhei a nota no aplicativo, pensei que pudesse estar errado. Fechei e abri de novo, daí veio a confirmação”.

Para Bruna, que cursou o ensino médio no Colégio Santa Catarina e fez curso de redação na Oficina das Letras, o tema de 2019 foi um dos mais difíceis.

“Não esperava, até assustei, acho que surpreendeu muitas pessoas. Mas após pensar e organizar as ideias, consegui construir meu texto. Achei o tema bastante específico”.

Na elaboração de sua dissertação, Bruna usou como uma das referências questões abordadas pelo livro Admirável Mundo Novo, do escritor inglês Aldous Huxley. Segundo ela, seu texto buscou falar sobre a negligência do governamental em garantir o acesso à população ao cinema. “Para isso, eu também citei ideias de outros dois pensadores: Norberto Bobbio e Gilles Lipovetsky.”

Bruna considera o tema de 2019 um dos mais difíceis (Foto: Arquivo Pessoal)

A reação de Bruna, após a desconfiança inicial, foi de muita comemoração com a família e amigos. “Todo mundo ficou muito feliz, minha mãe saiu falando para todo mundo da família. Minhas amigas já tinham lido minha redação e falaram pra mim que estava muito boa e que eu poderia tirar mil, mas eu não acreditava, achei que estavam falando para me agradar. Quando falei pra elas, também ficaram super felizes. Ainda estou um pouco sem acreditar”, conta.

Mulheres são maioria e Minas lidera entre estados

As mulheres escreveram 32 das 53 redações nota mil do Enem 2019. A mais de meia centena de autores dos textos com avaliação máxima tem idades que variam de 16 a 28 anos. São de três regiões do país, espalhados por 15 estados e o Distrito Federal. As redações com nota máxima são de estados do Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste: Alagoas (2); Bahia (1); Ceará (6); Distrito Federal (2); Espírito Santo (1); Goiás (4); Maranhão (1); Mato Grosso do Sul (1); Minas Gerais (13); Paraíba (1); Pará (2); Pernambuco (1); Piauí (2); Rio Grande do Norte (6); Rio de Janeiro (6); São Paulo (4).

Se você conhece outro estudante de Juiz de Fora que tenha tirado nota máxima na redação 2019, entre em contato com a Tribuna pelo e-mail [email protected] ou pelo telefone (32) 3313-4440.

Tópicos: enem

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