Estudo de três décadas mostra JF mais quente e menos chuvosa

Levantamento leva em consideração o comportamento do tempo entre 1981 e 2010. Anteriormente, média histórica era avaliada pelo ciclo de 1961 a 1990; para especialista, crescimento da cidade, com supressão de área verde e aumento da poluição estão entre responsáveis pela mudança

Por Eduardo Valente

14/04/2018 às 07h00

Poluição do trânsito é um dos fatores que interfere no aumento da temperatura (Foto: Fernando Priamo)

Em 30 anos, Juiz de Fora se transformou em uma cidade mais quente, menos chuvosa e com período de estiagem ainda maior. Estes resultados estão em um novo estudo do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) que leva em consideração o comportamento do tempo entre 1981 e 2010. A normal climatológica, como o levantamento realizado em todo o país é conhecido, aponta que 11 dos 12 meses do ano estão com temperaturas mais altas na cidade, com variação média que pode superar um grau. Além disso, o acumulado de precipitações está ligeiramente menor, mas com distribuição bem diferente. Em julho, por exemplo, houve redução de 48% no volume de chuvas, com tendência de prolongamento do período seco, que antes ia de abril a meados de setembro, para até o fim de outubro.

Todas estas mudanças climáticas, na análise feita pela UFJF, ligam um sinal de alerta e estão atreladas ao crescimento urbano e o consequente aumento da frota de veículos, processo acentuado de verticalização e supressão de áreas verdes.

A normal climatológica é considerada um dos estudos mais importantes da meteorologia e serve como base para outras análises sobre comportamento do tempo. É através destes dados, por exemplo, que é possível saber se determinado período tem chuvas, temperaturas e umidade relativa do ar dentro do esperado, ou se ondas de calor e frio são pontos fora da curva. Até então, o país era referenciado pelo estudo anterior, com análise feita entre 1961 e 1990. Deste período para o atual, não apenas Juiz de Fora, como outros municípios do mesmo porte, se desenvolveram, multiplicaram a população, as construções e o número de veículos nas ruas.

Crescimento do município

Para a climatologista da UFJF e doutora em geografia Cássia Ferreira, a tendência de dias mais quentes e redistribuição do volume de precipitações é uma consequência exatamente deste processo de transformação do município. “A cidade se urbaniza, cresce o volume de tráfego, que produz calor antrópico (gerado pela ação humana), e que interfere diretamente no aumento das temperaturas, tanto nas médias, como também nas máximas. Para se ter ideia, nunca tivemos tantos dias com termômetros marcando acima dos 30 graus como nos últimos anos”, pontuou.

Ainda segundo ela, outra tendência apresentada no levantamento do Inmet é de temperaturas mínimas não tão baixas, além da mudança no regime de chuvas. “O acumulado mudou muito pouco, mas a distribuição está diferente. A instabilidade chegava a nossa região, historicamente, no final de setembro, mas agora a estiagem está se prolongando até o fim de outubro. Esta situação é pouco perceptível para a cidade, mas com prejuízos grandes para a agricultura.”

Tendo como referência a média de 1961 a 1990, era esperado em Juiz de Fora acumulado de 1.651,8 milímetros entre janeiro e dezembro, e agora a expectativa é um pouco menor, de 1.624 milímetros. Outro resultado interessante é que dezembro era conhecido como o de maior concentração pluviométrica do ano na cidade, posto que agora pertence a janeiro, com 322,1 milímetros (ver quadro).

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Série histórica

Os especialistas na área usam este estudo para prever o comportamento das temperaturas, chuvas, pressão atmosférica, umidade, além de outros parâmetros, nos municípios brasileiros. A atualização é feita a cada 30 anos, tempo considerado suficiente para identificar uma média, mesmo com anos atípicos, como, por exemplo, quando há a manifestação de fenômenos, como o El Niño e o La Niña. A tendência de dias mais quentes e mudança no regime de chuvas não é uma exclusividade de Juiz de Fora, sendo um comportamento observado em todo o país, guardadas as devidas proporções. Para se ter ideia da dimensão desta pesquisa, o Inmet mantém 414 estações meteorológicas de Norte a Sul do Brasil.

Perspectiva de piora acende sinal de alerta

A climatologista da UFJF e doutora em geografia Cássia Ferreira acaba de retornar de Portugal, onde passou um ano desenvolvendo um estudo de pós-doutorado sobre alterações climáticas, com a criação de um plano de adaptações para Juiz de Fora, aos moldes do que está sendo feito atualmente na cidade lusitana de Porto. Para ela, o resultado local acende um sinal de alerta. “Em Portugal, este sinal já está mais que ligado, inclusive com ações em andamento que levam em consideração as alterações climáticas derivadas do meio urbano e aquelas relacionadas a processos de mudanças globais. Infelizmente, aqui no Brasil, nem sonhamos em ter uma coisa ou outra, mas deveria”, argumentou, acrescentando a hipótese de doenças sazonais, com dengue e febre amarela estarem relacionadas a este aumento da temperatura média. “Por enquanto são interrogações, sem respostas, e outros estudos poderão comprovar esta relação.”

Fato é que a população já percebe este aumento do calor, principalmente pessoas que vivem em casas em piores condições e mal arejadas. “É um reflexo imediato na saúde e na qualidade de vida. Portanto, é um sinal de alerta até tardio, porque as ações já precisam ser colocadas em prática.” Entre elas, conforme a especialista, estão incentivo ao transporte público, para reduzir a frota de veículos poluentes nas ruas, e a criação de corredores verdes em vias de grande movimento.

De acordo com a Prefeitura, a Secretaria de Meio Ambiente está atenta às mudanças climática que afetam Juiz de Fora e acredita que pode minimizar os efeitos do aquecimento com a implantação do Plano de Arborização Urbana, que já está em andamento, e o aumento da arborização viária, por meio do programa “Bairros Verdes e Corredores Verdes”. Entre os trabalhos que deverão ser desenvolvidos, destaca-se o inventário quantitativo e qualitativo da arborização em todo o município, para que outras ações sejam executadas a partir deste conhecimento, inclusive com o plantio de espécies em áreas atualmente desprovidas.

Entre as medidas já executadas, a secretaria afirma que já foram plantadas 120 árvores nativas de Mata Atlântica às margens do Rio Paraibuna, com perspectiva de plantar mais 280 mudas. A mesma ação já ocorreu na praça do Bairro São Judas Tadeu, na Zona Norte, onde foram semeadas cerca de 50 árvores. Apenas este ano, conforme a pasta, o Parque da Lajinha recebeu mais de 13 mil mudas, oriundas de compensação ambiental. “No momento, a secretaria está realizando reuniões com os parceiros e recebendo propostas e sugestões que irão contribuir para a implantação de outras ações do plano”, afirmou, em nota, acrescentando que está em fase de elaboração um convênio com a UFJF.

Levantamento diário

A Tribuna acompanha diariamente o comportamento das chuvas e das temperaturas em Juiz de Fora há mais de cinco anos, e os dados mostram que a tendência é de piora no quadro apresentado no novo estudo. Já levando em consideração a nova normal climatológica, entre 2013 e 2017, o acumulado de precipitações ficou abaixo da média em quatro anos, sendo que choveu acima do previsto, neste intervalo, apenas em 18 dos 60 meses possíveis. Nos últimos 40 meses, os termômetros registraram máxima, acima do esperado pela média, em 28 ocasiões, e apenas em 12 as temperaturas registradas ficaram dentro do previsto: uma em 2015, três em 2016, sete em 2017 e uma em 2018.

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