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Comunidades do Bom Pastor e Alto dos Passos denunciam vandalismo e violência

Polícia Militar admite ter feito uso de força para dispersar brigas generalizadas, com lançamento de bombas de gás lacrimogêneo e disparo de balas de borracha

Por Daniela Arbex e Marcos Araújo

11/02/2019 às 19h31- Atualizada 12/02/2019 às 08h01

A falta de segurança e a perturbação de sossego no Alto dos Passos e no Bairro Bom Pastor voltaram a preocupar após um final de semana de muito vandalismo e violência na região. No Bom Pastor, por exemplo, um evento foi considerado o estopim do tumulto que varou a madrugada e interditou, parcialmente, a Rua Doutor José Procópio Teixeira. A Polícia Militar admitiu ter feito o uso de força para dispersar brigas generalizadas no início da madrugada de domingo, com lançamento de bombas de gás lacrimogêneo e disparo de balas de borracha. Com autorização da Prefeitura para ocupar a Praça Bom Pastor de sexta a domingo, o encontro reuniu cervejarias da cidade, gastronomia e shows de grupos de samba, além da participação de DJ. Os moradores da área, no entanto, se viram acuados e afirmam terem visto consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes, uso de drogas nas imediações do local, barulho e tumulto. Com fotos e vídeos, eles denunciaram, ainda, a transformação do espaço público em depósito de lixo. Imagens feitas na manhã de domingo mostravam o estado da praça, transformada em lixeira a céu aberto.

Segundo o comandante do 1º pelotão da 32ª Companhia, tenente Gilmar da Silva, cerca de 600 pessoas eram esperadas no evento, mas duas mil compareceram após marcarem o encontro pelas redes sociais. Em função do número inesperado de pessoas, ele diz que a PM precisou pedir reforço. A situação foi agravada após um cabo ter sido atingido por uma pedrada. “Após o fim do evento, houve algumas brigas generalizadas, e a PM precisou intervir.

Morador flagrou situação em que foi deixada a praça na manhã de domingo, com centenas de copos, plásticos e latas de cerveja espalhados por todos os cantos (Foto: Paulo César Lourenço)

Com o fechamento da rua principal pelas pessoas, precisamos fazer uso moderado da força para poder liberar a via. Populares, no entanto, jogaram pedras e garrafas contra a polícia e, por isso, usamos mecanismos para dispersão da multidão e de brigas generalizadas. Não excedemos o nosso trabalho, apenas fizemos o necessário para o restabelecimento da ordem”, explicou o comandante. Uma advogada de 31 anos chegou a ser detida. Ela foi orientada a deixar o local, mas teria xingado os militares, resistindo à prisão. A mulher foi levada para a UPA Santa Luzia, onde foram constatadas escoriações nos braços. Depois de atendida, ela foi conduzida para a sede da 32ª Companhia da PM, onde assinou termo de compromisso e teve uma audiência marcada.

Reunião

A situação será discutida nesta terça-feira (12) pelo Conselho de Segurança Centro Sul. Representantes da Prefeitura também foram convocados para o encontro, que acontecerá às 19h30, na sede do Clube Bom Pastor. A comunidade quer que a Prefeitura explique de que forma se deu a autorização para realização do evento e se os organizadores se comprometeram a dar alguma contrapartida para o bairro, já que houve lucro com a utilização de um espaço público, porém residencial.

Em nota, a Prefeitura confirmou que o evento foi licenciado pelos órgãos competentes, como Secretária de Atividades Urbanas e Corpo de Bombeiros, contando com o aval da União Juiz-Forana de Associações Comunitárias de Bairros e Distritos (Unijuf). Cita, ainda, boletim de ocorrência para afirmar que o tumulto ocorrido no sábado se deu em razão da aglomeração de pessoas que não participavam do encontro, após o término do mesmo. A Secretaria de Atividades Urbanas garantiu que esteve no local no sábado para controle dos ambulantes e autuação de veículos com som automotivo. Já no domingo, alega ter agido conjuntamente com a Polícia Militar para encerramento do evento de forma antecipada. Em relação à sujeira, a assessoria de imprensa diz que os organizadores da festa eram os responsáveis pela limpeza após sua realização. “Porém, foi constatado pela fiscalização que o tumulto e a sujeira deixada no espaço não foi gerada apenas pelo evento, mas, sim, por populares que se encontraram no entorno do local”. Devido a essa situação, a Prefeitura admite que o Demlurb realizou a limpeza.

‘Repúdio’

Por meio de nota, a organização do evento, KB Produções, repudiou os atos praticados, lamentou o ocorrido e disse que também foi prejudicada pelo tumulto no entorno. “Lamentavelmente, nesta edição, fomos surpreendidos com a aglomeração de jovens e adolescentes no entorno do espaço, que organizaram pelas redes sociais um evento simultâneo intitulado Bloco do Bom Pastor. Ao tomarmos conhecimento da situação, nos empenhamos para tentar evitar a aglomeração ou minimizar os transtornos. Reforçamos a segurança, delimitamos o ambiente do evento com grades e acionamos as autoridades competentes”, afirmou, acrescentando estar solidária aos moradores.

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Morador diz que área foi transformada em ‘praça de guerra’

Arquiteto e urbanista, Paulo César Lourenço, diz que é favorável ao uso coletivo do espaço público, mas discordou da forma como se deu a apropriação do local. Morador da área, ele disse que a praça foi transformada em “praça de guerra”. “Acho que o espaço público tem que ser utilizado, sim, porque é a maneira de se garantir a qualidade, para que não haja uma apropriação inadequada. Mas o que aconteceu no bairro foi um verdadeiro vandalismo. O evento festivo, ainda que tivesse o propósito de reunir famílias, não contou com nenhum tipo de controle. A praça do Bom Pastor se transformou em praça de guerra, consumo de droga e de bebida alcoólica por adolescentes. Foram cenas de selvageria. Como morador do bairro, cidadão e também como urbanista, é fundamental não só a cessão do espaço mediante a garantia de limpeza e segurança. Acho que, em uma negociação do espaço público para eventos, deveria haver uma contrapartida antecipada para o bairro, como melhorias no espaço, algum tipo de investimento que qualifique o uso”, comenta.

Tumulto migra para o Alto dos Passos

O tumulto que foi registrado no Bairro Bom Pastor, após a realização de um evento na praça, migrou para o bairro vizinho Alto dos Passos, onde novas situações de perturbação do sossego deixaram moradores indignados. Brigas, correria, carros com som alto, consumo de bebida alcoólica e urina na frente das portas de algumas casas elencam a lista de reclamação dos residentes, que afirmaram que o tumulto, na Rua Dom Viçoso, atravessou a madrugada até por volta das 4h, no último sábado.

De acordo com a presidente da Associação de Moradores do Alto dos Passos e do Conselho de Segurança (Conseg), Rita de Cássia Guimarães Pipa, como seu bairro é conhecido pela presença de bares e restaurantes, atrai a presença de muitos jovens e oriundos de diversas parte da cidade. “Há bares, aqui, que percebemos que têm uma consciência de não prejudicar a vizinhança. Todavia, há alguns, cerca de quatro num universo de 40, que são estabelecimentos que possuem multas, havendo omissão por parte dos proprietários. Eles permanecem abertos até as 4 horas da manhã e não respeitam os alvarás, pois desviam sua função primeira, abusando do som alto sem ter cuidado acústico e promovendo eventos. Essa situação é agravada por estarmos no verão e ser um período de início de aula, o que funciona como atrativo para a juventude”, afirma Rita de Cássia, acrescentando que a falta de políticas públicas e a carência de opções de lazer contribuem para essa aglomeração de jovens perdure há anos pelas ruas do bairro.

A presidente da Associação de Moradores ainda ressalta que, além dos estabelecimentos que insistem em continuar abertos até alta horas, há a prática entre os frequentadores de comprar bebida em outro local, a custo mais baixo, e levar para o bairro para ser consumida nas ruas. “Esses estabelecimentos que ficam abertos fornecem copo plástico, banheiro, refrigerante para misturar na bebida e gelo. Nesse contexto, há aquele que chega com o carro de som e para na rua, nas frentes das garagens, na porta dos prédios e vai juntando gente. O dono do bar acha que não tem responsabilidade nisso, e isso colabora para esse tumulto que vem sendo promovido e tende a aumentar com a aproximação do carnaval.”

Impedida de chegar

A professora Carla Lúcia Ferreira, 55 anos, mostrou indignação ao relatar o episódio no qual se viu impedida de chegar em casa, no Alto dos Passos. Ela diz que, no domingo, após a mãe de 77 anos ser internada, ela retornou à casa dela, na Rua Dom Viçoso, para pegar umas roupas, porém, às 22h30, a rua estava tomada por jovens. “Havia carros de som parados no meio da rua e venda de bebida na via. Buzinei para tentar passar, mas fui alvo de críticas dos frequentadores do local. A via é pública e tem que ser livre para passagem. A situação não pode continuar do jeito que está. Os moradores estão reféns em suas próprias casas”, lamenta.

Briga generalizada na madrugada de sábado foi flagrada na Rua Barão de Aquino próximo à Dom Viçoso. Carro parou no meio da rua, e várias pessoas trocaram agressões. Um jovem foi visto atirando um possível pedaço de pau no veículo

Canal aberto com a Polícia Militar

Segundo Rita de Cássia, a associação mantém um canal aberto com a Polícia Militar, que atende, dentro da sua possibilidade, as demandas, todavia há situações em que não pode atuar sozinha. “Geralmente, há a presença de menores, o que exige a presença do Juizado de Menores. Existem prerrogativas que dependem da Prefeitura. A fiscalização é precária, mas o maior problema é de gestão. A Prefeitura age de maneira paliativa, mas o ônus sempre fica com o morador, que sabe que isso vai voltar a acontecer novamente”, pontua a presidente da entidade, acrescentando que a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) da Zona da Mata deveria orientar os proprietários dos bares a assegurar o sossego dos moradores.

A presidente da Abrasel, Carla Pires, considera que a aglomeração de pessoas nas ruas do Alto dos Passos não tem ligação direta com os bares, uma vez que as pessoas que são alvo das reclamações dos moradores levam a própria bebida para o local, assim como os carros de som. “Essas pessoas não são o público dos bares associados. Na última segunda-feira, por exemplo, estudantes de uma faculdade estavam em determinado bar, na Rua Oswaldo Aranha, e, depois que o bar fechou, eles se dirigiram o Alto dos Passos. Todavia, o dono do estabelecimento no qual pararam na frente também fechou porque não tinha estrutura para atendê-los”, afirma Carla, ressaltando que é preciso se criar espaços de lazer para atender a juventude de Juiz de Fora, que acaba migrando de bairro em bairro em busca de diversão.

Ela também assinala que todos os bares que são associados à Abrasel recebem orientação a fim de adotar medidas de garantir a tranquilidade dos moradores, como respeitar os horários e não manter som nas portas.

 

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