Janeiro Branco: virada do ano amplia ansiedade e cobrança por metas
Campanha de conscientização destaca como a busca pelo ‘novo’ pode ampliar ansiedade e frustração

Janeiro é um mês simbolicamente associado à ideia de recomeços, reflexões e novos trabalhos – uma espécie de “folha em branco” para que as pessoas comecem a escrever suas histórias. A ideia é tentadora, mas, neste processo, muitos ignoram a saúde mental para tentar aumentar a produtividade na vida pessoal e profissional. Estudos e relatos apontam que o período pode intensificar quadros de ansiedade, burnout e depressão.
Criado em 2014 e inspirado em campanhas como Outubro Rosa e Novembro Azul, o Janeiro Branco foi oficializado como campanha nacional em 2023. A proposta é incentivar a reflexão sobre emoções e estimular estratégias para lidar com mudanças impostas pela rotina. Ao longo dos domingos deste mês, a Tribuna publica uma série de reportagens sobre saúde mental e cuidados necessários neste início de 2026.
Dados do Ministério da Saúde indicam que o SUS realizou mais de 14 milhões de atendimentos psicológicos apenas nos primeiros seis meses de 2024. No primeiro semestre de 2023, em comparação com o mesmo período de 2022, houve aumento de quase 40% na compra de antidepressivos no país. Além disso, o Governo federal também aponta que o Brasil lidera o ranking mundial de transtornos de ansiedade, com mais de 18 milhões de brasileiros afetados.
O recorte reforça o alerta para que, nestes primeiros 31 dias de 2026, as pessoas relembrem que diminuir o ritmo ou não cumprir com algumas expectativas não é sinônimo de fracasso e falta de produtividade.
Síndrome de Fim de Ano agrava a ansiedade pelo ‘novo’
A Síndrome de Fim de Ano, termo que se popularizou recentemente, descreve a descarga emocional típica de dezembro e como ela pode ser sentida física e psicologicamente após a virado do ano. Festas, reencontros e viagens elevam expectativas e podem ampliar a frustração quando o período termina, especialmente para pessoas que já atravessam sobrecarga.
“É natural que toda virada de ano funcione para o nosso cérebro como a virada de uma página de livro. O que aconteceu ficou no passado e, agora, a expectativa está no novo. E tudo que se abre para uma nova perspectiva traz o desejo de mudança. É um marco temporal que determina passado e futuro de maneira muito clara”, explica o sociólogo e psicanalista Juber Pacífico.
Uma pesquisa feita pelo Instituto Cactus – entidade filantrópica especializada em estudos sobre saúde mental – revelou que 81% dos brasileiros sofreram com sintomas de ansiedade durante a passagem de 2024 para 2025. O motivo que mais causou transtorno, segundo o estudo, foram problemas financeiros, tendo em vista os gastos diversos ao longo de dezembro, mas, muito além disso, o “combo” de preocupações que vêm com a virada do ano não se limita a problemas financeiros.
Segundo Juber, a ansiedade nesse período tende a estar ligada à expectativa pelo “novo”. “O sentimento de obrigação de fazer algo novo pode desencadear, além da ansiedade, angústias, sentimento de inadequação ou frustração diante das dificuldades. Fazer algo novo traz insegurança e medo. Neste período, estamos mais suscetíveis a julgar nós mesmos e o futuro que projetamos.”
Entre o ‘eterno dezembro’ e as demandas de janeiro
A busca pelo “novo” também preocupa a estudante Ana Júlia Ribeiro, 23. Prestes a entregar o trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) no fim deste mês, ela passou por uma promoção no trabalho e, agora, precisa lidar com novas responsabilidades neste início de 2026. “Talvez se estivesse no meio do ano, eu não estaria tão sobrecarregada, porque o clima de festividade acaba dificultando ainda mais”, analisa.

Segundo Ana Júlia, as expectativas para o novo ano, somadas à ansiedade, dificultaram a sensação de que 2026, de fato, começou. “Expectativas fazem parte do dia a dia, é normal. A ideia de começar o ano formando é ótima, mas parece que as metas que eu estabeleci para 2026 estão estagnadas. As pendências de 2025 e, ao mesmo tempo, o cansaço de estar em um ‘eterno dezembro’ estão me impactando mentalmente”, relata.
A estudante acredita que, mesmo depois de passar pelas demandas de janeiro, a ansiedade pela próxima meta de 2026 fará parte da sua rotina: “Depois que terminar a faculdade, o que vou fazer? São expectativas grandes e é difícil desacelerar sem antes entender quais são meus próximos passos. É um processo.”
Expectativa x realidade: ajustar metas ao momento
Estabelecer metas na passagem de ano é algo natural, mas Juber argumenta que criar planos desconectados da realidade é um passo perigoso. O psicanalista destaca que, para evitar frustrações envolvendo a chamada “expectativa x realidade”, fazer uma lista de metas reais e não tentar mudar todas as áreas da vida é um exercício fundamental. “As mudanças importantes levam tempo para se tornarem hábitos. Parece clichê, mas toda corrida começa com um primeiro passo, então, viva o processo e não tente adiantá-lo a qualquer custo.”
O psicanalista analisa que muitas pessoas não conseguem separar um tempo para cuidar do próprio bem-estar mental. Então, como “desacelerar” em meio a um turbilhão de demandas e novos sentimentos? Para ele, uma estratégia é incluir, na rotina, momentos de relaxamento com atividades que interrompam o ciclo de trabalho e entregas. “Ouvir música, assistir a um filme, ler um livro, fazer exercício físico, ou seja, qualquer coisa que quebre a rotina de trabalho e promova um tempo de qualidade para si mesmo.”
Ana Júlia diz que tenta aplicar essa lógica no cotidiano. “A gente aprende a surfar no caos. Resolver um dia de cada vez, separar um tempo para ter conforto e não pensar no tanto de coisas que tenho para resolver é uma forma de cuidar de mim.” Para Juber, mesmo períodos curtos fazem diferença. “Funciona como pequenos alimentos diários para que continuemos com bem-estar e tendo saúde emocional para os desafios da vida.”
O profissional também diferencia desacelerar de procrastinar e defende a organização como ferramenta de cuidado. “Organizar a rotina é outro segredo para o bem-estar mental. Programar seu tempo também ajuda a ter mais tempo livre e descanso. Quanto mais você desacelerar, mais qualidade terá sua produtividade”, constata.
Além de alinhar expectativas e criar espaço para autocuidado, o Janeiro Branco reforça a importância de buscar acompanhamento psicológico para resolver questões que, muitas vezes, parecem simples, mas que têm impacto significativo. “A regra de ouro é: se sentir que a vida não está boa, que não há motivos para continuar, procure um profissional”, completa Juber.
Em Juiz de Fora, inclusive, é possível encontrar serviços de acompanhamento psicológico gratuito ou com preços acessíveis. Em concordância com a campanha do Janeiro Branco, a Tribuna listou alguns desses serviços.
*Estagiário sob supervisão da editora Carolina Leonel
Tópicos: janeiro branco / juiz de fora / saúde / saúde mental









