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Homem supera 36 anos de dependência química


Por Marcos Araújo

04/10/2015 às 07h00- Atualizada 05/10/2015 às 19h09

Feliz por recuperar o contato com a família, A.R. projeta um novo horizonte para sua vida  (Marcelo Ribeiro/12-09-15)

Feliz por recuperar o contato com a família, A.R. projeta um novo horizonte para sua vida (Marcelo Ribeiro/12-09-15)

“Só não perdi o meu corpo devido ao vício, porque todos os outros setores da minha vida decretaram falência antes. Hoje, tem dois anos e cinco meses que estou limpo.” Uma frase como esta pode muito bem ser o prólogo do livro que A.R., de 53 anos, pretende escrever para contar como, depois de 36 anos de dependência química e oito internações, apenas uma delas voluntária, conseguiu, com a ajuda dos Narcóticos Anônimos (NA), se desvencilhar do hábito diário de consumir cocaína. “O NA me ensinou a abraçar uma outra pessoa. Antes, eu só conversava à distância. Agora, eu tenho respeito pelo outro e por mim, e isso foi fundamental para minha recuperação.”

A.R., assim como outros usuários, começou pelo álcool aos 14 anos. Em seguida, experimentou a maconha, que só fumava nos fins de semana. O vício foi tornando-se mais intenso e, antes dos 20 anos de idade, já conhecia os efeitos da cocaína injetável, que, segundo ele, naquela época, era mais pura e causava mais mortes por overdose. “A gente usa droga porque é gostoso. Se não fosse, ninguém usava. Esta história de fugir de problema é conversa. Eu usei porque era bom, fazia me sentir o cara. Só que chega um ponto que o descontrole é tão grande que passa a ser nocivo.”

Em mais de três décadas, A.R. traficou, viu seu sonho de fazer curso superior se desmoronar e seu primeiro casamento ruir devido às drogas. “Minha esposa não aguentou. Fiquei apenas dois anos com ela e tivemos duas filhas. Hoje, uma tem 32 e a outra, 30 anos. E tenho um neto. Meus filhos viram tanta porcaria devido a meu vício, que nenhum deles entrou nessa”, orgulha-se, para logo lembrar que precisou abandonar a segunda companheira, com quem também teve dois filhos, para poder largar as drogas. “Ela também é usuária. Ficamos 27 anos, mas tive que deixá-la.”

A vida de A.R. começou a mudar depois que ele foi preso. “Meu clique aconteceu quando estava na Penitenciária Ariosvaldo Campos Pires, quando fiquei dois anos sem ver minha família, para cumprir pena por tráfico e receptação, de 2005 e 2008. Lá percebi que estava vestindo uma fantasia de bandido, vi muitas pessoas morrerem. Pensei: estou no lugar errado. Tinha que rugir como leão para sobreviver”.

Muitas histórias dos outros

Como tinha instrução, A.R. passou a escrever cartas dentro do presídio para detentos que eram analfabetos. Nas histórias dos outros, ele se achou. “Com as cartas, fui tomando consciência de mim, da minha própria vida. Passei a incentivar os detentos a aprender. Foi assim que comecei a me encontrar e ver que poderia ajudar alguém, fazer diferença na vida de outras pessoas. Quando passei para o regime semiaberto, entrei no Narcóticos Anônimos”, relata.

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“No início, achei que era tudo comédia. Ficava vendo aquele monte de gente olhando para mim, tive recaídas. Mas, com o passar do tempo, toda a filosofia foi sendo absorvida e me salvou. Hoje estou escrevendo um livro para contar essa história. Quero publicá-lo para servir de exemplo para outras pessoas”, almeja A.R.

Esperança compartilhada

O NA é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham força e esperança a fim de resolver seus problemas comuns e ajudar uns aos outros a se recuperarem. O programa exige que seu frequentador evite o vício um dia de cada vez. A.R. adverte que é importante comparecer às reuniões todos os dias. “É preciso ter frequência em sala. O usuário consome drogas todo dia. No NA é necessária a mesma frequência.”

Em Juiz de Fora, o NA funciona em quatro sedes (ver quadro), com reuniões realizadas ao longo da semana. A irmandade é aberta a qualquer pessoa, independente da idade, raça, identidade sexual, crença e religião. Há somente um requisito para ser membro: ter o desejo de parar de usar drogas. O grupo nasceu na década de 1940, nos Estados Unidos, e espalhou-se pelo mundo, presente, atualmente, em mais de 130 países.

Para A.R., o diferencial do NA é que o dependente é recebido por uma pessoa que vivencia o mesmo problema, que sabe exatamente a luta que é para deixar o vício. “Falamos a mesma língua.”

Antes de terminar a entrevista, A.R. menciona a felicidade que sentiu, horas antes de comparecer à Tribuna, ao presenciar uma cena comum à rotina de muitas famílias, mas, por muito tempo, desconhecida da família dele. “Hoje, após o almoço, fiquei admirando meus pais, a quem tanto fiz sofrer, tirarem um cochilo tranquilo. É uma paz que me deixa transbordando de alegria.”

Política pública

A Secretaria de Saúde disponibiliza serviços para dependentes químicos através das Uaps e do Departamento de Saúde Mental. Outra ação oferecida é a da equipe do Consultório de Rua, que aborda e oferece assistência a usuários em situação de rua.

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