Essa turma dos Direitos Humanos

O consumidor, hoje, vem exigindo das marcas e empresas mais postura, mais opinião sobre questões relevantes para a sociedade. Toda empresa atual, mais cedo ou mais tarde, vai precisar se posicionar sobre assuntos que ainda são polêmicos.


Por Marcos Villas Boas, Sócio da República Comunicação, Professor do curso de Publicidade e Propaganda e tenista nas horas vagas.

13/05/2018 às 09h00

Entre os dias 09 e 13 de maio, o CES JF realizou a sua décima primeira Semana da Comunicação. O tema: 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nas palestras, mesas de debate e oficinas, muita discussão sobre como a comunicação está trabalhando com temas como diversidade, representatividade, direito à educação, à vida, entre outros. Tive a honra de mediar uma dessas mesas, com a participação dos publicitários Vítor Resende e Dalmo Dal Bianco, que abordou a temática dos direitos humanos na criação publicitária e no branding. Foi uma verdadeira aula teórico-prática de como as marcas, hoje, precisam ter uma postura que condiz com seu discurso publicitário. Deu um orgulho danado de ver como um ex-aluno está fazendo história à frente da marca Lolja.

Essa história de Direitos Humanos me faz lembrar de um amigo de Caxambu, capital do Sul de Minas. Era radicalmente contra a “turma” dos Direitos Humanos e gostava de compartilhar um discurso raso e raivoso de que bandido bom é bandido morto. Numa tarde qualquer, em mais uma discussão calorosa, deram para ele uma cópia da Declaração. Ele nunca tinha lido. Parou no artigo 1º, pediu desculpas e foi para a casa apagar alguns posts e desfazer algumas amizades virtuais.

O consumidor, hoje, vem exigindo das marcas e empresas mais postura, mais opinião sobre questões relevantes para a sociedade. Toda empresa atual, mais cedo ou mais tarde, vai precisar se posicionar sobre assuntos que ainda são polêmicos. O absurdo é pensar que questões como respeito à diversidade, à liberdade de escolha e pensamento ainda sejam questões polêmicas, mas o fato é que ainda vivemos numa sociedade de maioria conservadora, o que faz algumas marcas patinarem entre discurso e prática.

E esse é um erro fatal. Na era do prosumor (produtor e consumidor de conteúdo), qualquer discurso oficial falso é trucidado nas redes sociais, gerando crises complexas para a marca, que tiram o sono dos profissionais de marketing e assessoria de comunicação. Até a fantástica ação de endomarketing da Coca-Cola para o Dia Internacional do Orgulho LGBT, que transformou uma piada homofóbica (essa Coca é Fanta) em marketing e orgulho para funcionários, recebeu críticas nas redes sociais, pois essa diversidade divulgada não foi percebida no perfil dos colaboradores da fábrica. Exageros à parte, pois está claro que não se trata apenas de um discurso moderno da Coca-Cola, todo cuidado é pouco quando se assume um posicionamento. Se ele não tem correspondência na prática, no dia a dia da empresa, em pouco tempo a máscara cai e o dano é irreparável.

Voltando para a Semana de Comunicação do CES JF, e para a mesa de debates que participei, vale a pena ver o que a Lolja, a marca de camisetas mais formidável da internet, como eles se autodenominam, está fazendo. Suas estampas, comunicação e discurso estão alinhados com o que acreditam e, principalmente, praticam. É possível ver ali, no dia a dia, toda a diversidade e representatividade que algumas marcas apenas discursam sobre. Como disse Vítor Resende, a relação das empresas e marcas com a sociedade mudou, não se trata mais apenas de negócios e quem não perceber isso, vai perder o novo bonde da economia, que vem abalando a estrutura do capitalismo como conhecemos. Quer um conselho: comece lendo o que a turma dos direitos humanos tanto defende.

coca

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