O envelhecimento cognitivo


Por José Aparecido da Silva, professor visitante da Universidade Federal de Juiz de Fora

17/07/2019 às 07h00

O declínio cognitivo, normal e não patológico, quando associado ao envelhecimento, é experiência cuja extensão difere entre indivíduos, e seu impacto o torna um problema imediato para a ciência, ainda que ignorado por muitos cientistas. Com o aumento da população idosa em vários países, tal declínio tem sido motivo de preocupação tanto do ponto de vista econômico quanto do pessoal e do sociológico, ocasionando que um dos grandes objetivos das políticas públicas em saúde seja identificar os fatores demográficos, biológicos e psicossociais que possam ajudar as pessoas a manter e enriquecer sua saúde cognitiva e emocional quando se tornam mais velhas. Por causa disso, nos últimos anos, pesquisas têm se voltado para entender mecanismos do envelhecimento cognitivo, bem como fatores que contribuem para suas diferenças individuais.

Em funções mentais, como habilidade verbal, numérica e conhecimento geral, por exemplo, há pouco declínio com o envelhecimento, mas, em outras, como a mnemônica, as funções executivas, a velocidade de processamento e o raciocínio, um declínio substancial ocorre da meia idade em diante, ou mesmo mais precocemente. Sendo estas habilidades denominadas “fluidas”, muito importantes para a realização de inúmeras atividades cotidianas, bem como para manter uma vida independente e completa, ao entrarem em declínio, agravam as perdas de outras funções, que, normalmente, tendem a acompanhá-las. Ademais, a lentidão na velocidade de processamento de informação também parece explicar grande proporção do declínio associado com a idade, em todos os domínios cognitivos afetados, e esta, em alguns casos, começa por volta dos 30 anos.

Variáveis relacionadas às condições médica, genética, vascular, fisiológica, neurológica, dietética, educacional e estilos de vida também contribuem para o envelhecimento cognitivo não patológico. Reveladores, todavia, são alguns estudos recentes, que indicam que as diferenças individuais, na habilidade cognitiva de idosos, refletem dois aspectos: diferenças na habilidade cognitiva prévia e diferenças no grau em que uma mudança começa, tipicamente, a ocasionar deteriorações. Neste contexto, pesquisas correlacionais, e experimentais, revelam, surpreendentemente, que habilidade mental, mensurada na infância, largamente prediz declínio das funções cognitivas na velhice. Em outras palavras, a inteligência mensurada na infância contribui com 50% da variância, ou mais, para a habilidade cognitiva na velhice, por volta dos 80 anos, em pessoas sem demência.

Entender cientificamente o envelhecimento é similar à busca de uma receita bem-sucedida, que, uma vez seguida, permite um envelhecimento cognitivo normal e saudável. Ainda que um desafio, este está, certamente, em nosso alcance.

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