O Papa e a (re) construção da Igreja

Por Matheus dos Reis Gomes, bacharel em Ciências Humanas, graduando em Filosofia e pós-graduando em Ciência da Religião

09/08/2018 às 07h00 - Atualizada 09/08/2018 às 07h22

Após a confirmação de que Bergoglio assumiria o bispado da Igreja de Roma, a comunidade católica e, principalmente, os teólogos inclinados a este setor se espantaram, positivamente, com a escolha de um cardeal que estava ligado – até o momento da eleição – diretamente com setores eclesiais de base. Não foi uma grande surpresa para algumas esferas da Igreja que Bento XVI renunciaria ao posto por questões de saúde.

A teologia que Bento XVI fez durante o seu pontificado não resultou em grandes aspectos “diferentes” diante da ótica de São João Paulo II. Não obstante, o interesse sobre própria sucessão “política” institucional, Bento XVI assumiu com grande espírito de coragem. Talvez a palavra coragem resumiria, a meu ver, algumas das virtudes que Francisco adotou como espinha dorsal para a condução da Igreja.

Francisco está incorporando, nitidamente, alguns aspectos que dificilmente iríamos ver se o Pontífice não adotasse uma postura horizontal entre a Igreja e os pobres. O que está em jogo não é necessariamente se Francisco apoia ou não a “Teologia da Libertação”, mas uma hermenêutica em que os pobres ganham uma notoriedade no reflexo em que, segundo o Evangelho de Mateus, o próprio Cristo estaria presente neles. “Uma Igreja pobre para os pobres”, disse Bergoglio numa pequena carta ao presidente de “Comunhão e Libertação”.

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“Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim” (Mt 25: 36-37). É notório que na teologia que Francisco está fazendo este versículo o acompanha, principalmente na sua postura como Sumo Pontífice.

Em março deste ano, Leonardo Boff, uma das principais referências da “Teologia da Libertação” na América Latina, escreveu um texto em italiano intitulado “Con il Papa Francesco ha termine la Chiesa solo occidentale e ha inizio la Chiesa universale”, em que sintetiza que com Francisco a imagem de “Igreja ocidental” ressurge como uma “Igreja universal”, com objetivo de construir uma nova face diante da humanidade, a partir da riqueza e da inesgotável fonte do Evangelho.

Por fim, está renascendo uma Igreja com o mesmo entusiasmo de Bento XVI, que, ao assumir o pontificado em 2005, declarou aos 78 anos de idade que quem perde a vida por Cristo não perde nada, mas ganha tudo. Ou seja, uma Igreja desprendida, que entendeu que “todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos foi a mim que o deixastes de fazer. E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna” (Mt 25: 46b).

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