Conflitos éticos na terminalidade da vida

Por Bruno Fernando da Silva Reis, especialista em clínica médica com área de atuação em medicina paliativa pelo Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo

04/01/2018 às 07h00

Estamos envelhecendo… Fato! O que a medicina enxergou como cura hoje se tornou crônico… Crônico que pode progredir e ameaçar a vida… Ainda entra o cuidado paliativo, uma modalidade de cuidado que busca qualidade de vida no tempo que se resta para pacientes/familiares que se encontram diante de uma doença ameaçadora da vida. Infelizmente, cuidado paliativo ainda é muito confundido com eutanásia!

Eutanásia, etimologicamente falando, significa “boa morte”, porém é crime em nosso país. Por quê? Eutanásia significa abreviar a vida de um paciente a pedido deste ou não, diante de um quadro de intenso sofrimento físico-emocional-social, sendo que esta pode ser feita de forma ativa (por exemplo: uma injeção letal) ou passiva (por exemplo: não realizar um determinado procedimento, como por exemplo uma intubação, no caso de uma “falta de ar extrema”). Deve haver um sentimento de compaixão entre quem pratica o ato e o paciente, com o objetivo de cessar o sofrimento. O paciente parte antes da hora!

Ortotanásia, etimologicamente falando, significa “morte no tempo certo”, o que se aproxima do cuidado paliativo. O paciente é acompanhado, sem jamais ficar abandonado, porque os procedimentos invasivos já não são benéficos, sendo a prioridade o controle de sinais/sintomas e busca por qualidade de vida no tempo que se tem pela frente. É como se médico e paciente estivessem caminhando lado a lado… No mesmo ritmo! Isso é ortotanásia: proporcionalidade nos tratamentos/cuidados instituídos.

Distanásia, etimologicamente falando, significa uma “morte ruim/prolongada”, termo que se confunde com obstinação terapêutica, quando o profissional da área de saúde, geralmente o médico, não enxerga o processo de morrer em curso, e os investimentos invasivos são realizados, mesmo com a ciência de que não vão alterar o curso da doença, cujo desfecho, inevitavelmente, será o óbito. Paciente/família expostos a franco sofrimento desnecessário…

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Mistanásia, anteriormente referida como “eutanásia social”, significa o paciente que não teve acesso ao sistema de saúde, ficando à margem deste, morrendo em corredores de hospitais, esperando vagas em unidades de terapia intensiva ou mesmo procedimentos cirúrgicos… É o que vemos nos jornais! A realidade dos hospitais públicos brasileiros! E Kalotanásia? Etimologicamente, também significa “boa morte”, porém, aqui, paciente/família puderam ressignificar todo esse processo de finitudade e estão sendo abordados dentro da filosofia do cuidado paliativo.

Muitos termos e complexidade de pensamentos! Simplificando: – Sr. João, com 87 anos , com diagnóstico de câncer de próstata avançado, com metástases ósseas, vem nos últimos seis meses perdendo peso, adquiriu lesões por pressão (“escaras”), já se alimenta por dispositivo de alimentação artificial (gastrostomia) e teve cinco episódios de infecção com necessidade de duas internações. Hoje não consegue ficar em pé, já que suas pernas nos últimos dois meses vêm enfraquecendo… Sr. João possui dor EM Dor 8/10 em coluna lombossacra irradiada para MMII, em queimação e de forte intensidade, com prejuízo do sono.

Como agir? Receita de bolo? Nunca! Sr. João é sr. João! Dona Maria será dona Maria… Vidas e biografias diferentes! Sofrimentos distintos que precisam ser amenizados, urgentemente! Cuidado paliativo é um direito universal segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Onde ele está? Por que há tanta carência?

Como iremos resolver todos esses conflitos éticos? O que será o certo e o errado? Ou o que será, simplesmente, o proporcional… Refletir!

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