A moção do 1º de abril

“É isso que esses vereadores que aprovaram essa moção pensam? Essa é a moral de vocês?”


Por Marcos José Ortolani Louzada - servidor público federal

03/04/2025 às 08h00

Ao ver as primeiras postagens de que a Câmara Municipal de Juiz de Fora tinha aprovado uma moção pela anistia aos “presos políticos” de 8 de janeiro de 2023, pensei: isso é fake news. Só pode ser uma brincadeira de 1º de abril. Como assim? Os vereadores de Juiz de Fora estão se mobilizando contra o STF, pela anistia aos vândalos, chamando-os de presos políticos, por terem participado de uma tentativa frustrada de golpe de estado? É sério mesmo?

Primeiramente, presos políticos são pessoas detidas por motivos meramente políticos, como crenças políticas, opiniões, atividades ou associação a um determinado grupo político. Na maioria dos casos, não há nem uma acusação formal por crime comum, mas somente o fato de se oporem ao governo ou defenderem ideias consideradas subversivas pelas autoridades. Presos políticos são detidos de forma arbitrária, sem um julgamento justo, sendo considerados prisioneiros de consciência por organizações de direitos humanos. Foi o que ocorreu, por exemplo, na ditadura, quando pessoas foram presas por motivação exclusivamente ideológica, sendo muitos torturados, desaparecidos e mortos, e esses, sim, sem nenhum julgamento. Se não entenderam, vejam o filme “Ainda estou aqui”.

Isso, definitivamente, não foi o que ocorreu em Brasília no dia 8 de janeiro de 2023. As pessoas que ali estavam ultrapassaram o limite da manifestação ideológica, invadindo e vandalizando as instituições públicas, nosso patrimônio e os símbolos nacionais. Chamar essas pessoas de “presos políticos” ou, pior, de “pessoas bem”, chega a ser uma piada e de péssimo gosto. Não
obstante, como qualquer cidadão, concordo que elas merecem um julgamento justo e é isso que está ocorrendo. Mas não é isso que vocês propõem.

O que vocês pedem é a anistia. O perdão indiscriminado aos golpistas. Essa proposta significa fazer com a constituição exatamente o contrário do que a moção se propõe. É rasgar a constituição. É defender aqueles que se mobilizaram pelo retorno à ditadura militar, pois muitas destas pessoas estavam acampadas em frente aos quartéis pedindo exatamente isso.

É isso que esses vereadores que aprovaram essa moção pensam? Essa é a moral de vocês?

No 31 dia de março de 1964, partiu de Juiz de Fora um comboio militar, chefiado pelo general Olímpio Mourão Filho, que culminou com um Golpe Militar, abolindo o estado Democrático de Direito no Brasil por 21 anos. Naquele 1º de abril de 1964, nossa Juiz de Fora foi a protagonista do dia da vergonha nacional. Infelizmente, hoje, passados 61 anos, com a aprovação desta Moção de Anistia, a Câmara Municipal de Juiz de Fora conseguiu o impossível, reproduzir esse feito. Gostaria muito que fosse mentira, 1º de abril. Mas não foi…

 

 

Esse espaço é para a livre circulação de ideias e a Tribuna respeita a pluralidade de opiniões. Os artigos para essa seção serão recebidos por e-mail ([email protected]) e devem ter, no máximo, 30 linhas (de 70 caracteres) com identificação do autor e telefone de contato. O envio da foto é facultativo e pode ser feito pelo mesmo endereço de e-mail.

Os comentários nas postagens e os conteúdos dos colunistas não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é exclusiva dos autores das mensagens. A Tribuna reserva-se o direito de excluir comentários que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros. Mensagens de conteúdo homofóbico, racista, xenofóbico e que propaguem discursos de ódio e/ou informações falsas também não serão toleradas. A infração reiterada da política de comunicação da Tribuna levará à exclusão permanente do responsável pelos comentários.