Governo Trump

“Em épocas anteriores, o mundo presenciou o surgimento de regimes que começaram com a demonização de grupos vulneráveis, mas logo avançaram para a implementação de políticas cada vez mais extremas”


Por Eduardo Colucci - designer gráfico

02/02/2025 às 06h00- Atualizada 04/02/2025 às 14h16

O governo Trump, sob sua retórica de “grandeza” e “restauração da ordem”, tem avançado com uma agenda que, ao menos em seu discurso, parece uma tentativa de transformar os Estados Unidos em um estado de exceção, onde a noção de direitos humanos é suprimida em nome de uma suposta segurança nacional e de um retorno a valores que muitos consideram ultrapassados. O primeiro passo, aparentemente simples, parece ser o ataque aos “ilegais” – aqueles que, segundo Trump, não merecem estar no país, como se sua presença fosse um obstáculo à grandeza da nação. No entanto, ao olhar mais de perto, vemos que essa fronteira entre “legal” e “ilegal” se torna cada vez mais borrada, e qualquer um que se desvie do modelo idealizado pela administração pode ser tratado como alvo. O conceito de “quem merece” ser parte da sociedade vai se expandindo, abrangendo uma gama cada vez maior de cidadãos que, por sua vez, se veem cada vez mais marginalizados.

A campanha de deportação do governo não se limita a atingir apenas aqueles que estão no país sem documentação, mas começa a englobar também aqueles que vivem nos Estados Unidos há anos, cumprindo todas as leis, pagando impostos e contribuindo de forma significativa para a sociedade. Mesmo aqueles que obtiveram o direito de residir legalmente no país, por meio de vistos de trabalho, status de refugiados ou outros mecanismos legais, são ameaçados pela retórica agressiva de Trump. A retórica anti-imigração, em seu âmago, não se limita a um simples endurecimento das políticas de fronteira; ela ameaça diretamente os direitos fundamentais dos imigrantes, inclusive os que obtiveram a cidadania ou têm status legal. Isso se traduz em um discurso que discrimina e marginaliza cada vez mais os que não se encaixam na visão conservadora e limitada que o governo tenta impor, e, por extensão, ataca os direitos de diversas minorias, seja por raça, deficiência, orientação sexual ou qualquer característica que fuja do que eles consideram um padrão de “normalidade” ou conformidade.

À medida que a intolerância se espalha, o ambiente social e político nos Estados Unidos se torna cada vez mais hostil. A separação entre os que “merecem” e os que não “merecem” ser tratados com dignidade vai se tornando mais visível. O discurso de ódio, incentivado por ações políticas de topo, se infiltra na cultura e na convivência cotidiana. Em um cenário como esse, não é difícil perceber os ecos de regimes autoritários que, ao longo da história, buscaram dividir as populações em “aqueles que pertencem” e “aqueles que não pertencem”. As medidas que inicialmente parecem isoladas e pontuais logo começam a se consolidar, transformando-se em práticas sistêmicas que afetam a vida de milhões de pessoas.

Embora muitos, inclusive dentro do próprio país, ainda se mostrem céticos quanto à possibilidade de algo tão drástico ocorrer novamente, o discurso de exclusão e repressão que está sendo promovido por este governo se torna um terreno fértil para o surgimento de práticas que já vimos antes, e que a humanidade jurou nunca mais repetir. A retórica de um “nós contra eles” alimenta um ciclo de violência e exclusão que, se não for interrompido a tempo, pode levar a consequências impensáveis. O caminho que está sendo trilhado é um espelho distorcido da história, onde as divisões raciais, étnicas e sociais se aprofundam, e a desumanização de grandes parcelas da população começa a ser aceita como uma norma.

A memória histórica é um alerta constante. Em épocas anteriores, o mundo presenciou o surgimento de regimes que começaram com a demonização de grupos vulneráveis, mas logo avançaram para a implementação de políticas cada vez mais extremas. O que começa com a marginalização de uma população pode, eventualmente, levar a um ciclo de violência e repressão que é quase impossível de interromper uma vez que se instala.

Por isso, como sociedade, é necessário estar vigilante. Resistir ao autoritarismo e a qualquer tentativa de desumanizar aqueles que são considerados “diferentes” ou “inferiores” é um imperativo. Não podemos permitir que os direitos e a dignidade humana sejam vistos como algo negociável. Cada silêncio diante dessas políticas e desse discurso torna-se uma forma de cumplicidade, e cada passo dado sem resistência é um passo mais perto de um futuro distópico que devemos rejeitar. O que está em jogo é muito maior que políticas de imigração ou uma simples agenda eleitoral; trata-se de preservar os valores fundamentais da humanidade, que nos unem enquanto sociedade global, e de impedir que a história se repita de uma maneira que todos juramos ter aprendido a evitar.

 

 

 

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