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Da Vila Ideal, goleiro Wellington supera incertezas em título estadual

Após cogitar desistência do futebol por dificuldades financeiras, juiz-forano alcança o profissionalismo e tem destaque no Norte do país

Por Gabriel Silva, estagiário sob a supervisão do editor Bruno Kaehler

21/02/2021 às 07h00

Wellington beija o troféu de campeão rondoniense, título inédito para o Porto Velho (Crédito: Arquivo Pessoal)

Cerca de 3.200 quilômetros separam Juiz de Fora de Porto Velho, capital de Rondônia (RO). Uma viagem entre as duas cidades leva aproximadamente 40 horas de carro. Mas a distância parece ainda maior para o juiz-forano Wellington Luiz de Oliveira Santana, ao menos no que diz respeito à trajetória profissional. Foram mais de cinco anos entre a quase desistência do futebol por dificuldades financeiras – quando ainda morava no Bairro Vila Ideal, Zona Sudeste -, e a sonhada ascensão no esporte. Em dezembro de 2020, o goleiro Wellington ergueu a taça do Campeonato Rondoniense pelo clube que leva o nome da capital, e inicia 2021 na expectativa de voos e defesas ainda maiores.

Em partida da primeira semana de dezembro, o cronômetro do árbitro já marcava 33 minutos da segunda etapa quando o então goleiro titular do Porto Velho E.C., Martins, sentiu uma lesão e teve de ser substituído pelo arqueiro Wellington, que já integrava a primeira equipe durante boa parte de 2020. Àquela altura, o Porto Velho assegurava o título do Campeonato Rondoniense com uma vitória agregada de 3 a 1 sobre o Real Ariquemes. Além do caneco estadual, a conquista ainda significaria uma maior chance de estrelato no ano seguinte. “Os times são muito competitivos, todos os anos eles têm o planejamento de chegar na final, ser campeão e conseguir as vagas na Copa do Brasil e Série D”, explica o atleta juiz-forano.

O goleiro Wellington cumpriu o papel que assumiu pelos 12 minutos finais da partida mais acréscimos e não foi vazado. Passar em branco, aliás, foi a tônica de toda a campanha do atleta durante o Rondoniense. Em oito partidas jogadas, ele só viu a bola morrer na rede protegida em uma única oportunidade. “Nós fizemos um excelente trabalho, nos esforçamos muito”, celebra. “No mata-mata, o treinador optou por ter um goleiro mais experiente entre as traves. Mas isso não muda nada, eu continuei trabalhando e torcendo para o meu companheiro”, garante.

Wellington em ação pelo Porto Velho, experiência que ele pretende multiplicar em 2021 (Crédito: Arquivo Pessoal)

Com o título assegurado, o arqueiro passou o curto período de férias em Juiz de Fora e se prepara para disputar três competições neste ano, sendo duas com projeção nacional (Copa do Brasil e Série D do Campeonato Brasileiro). “Nós trabalhamos muito para ter esses campeonatos, e não vamos deixar escapar. Vamos fazer um excelente estadual e surpreender na Copa do Brasil, além de fazer uma ótima Série D”, projeta Wellington.

Além da gradual ascensão, tão sonhada na carreira, o otimismo para esta nova temporada também é reforçado por conta de o atleta já ter feito história na curta trajetória do Porto Velho. A jovem equipe, fundada em abril de 2018, há pouco mais de dois anos apenas, registrou o primeiro título rondoniense de sua curtíssima existência. Logo, Wellington já cravou seu nome nas primeiras páginas do, até aqui, principal enredo do time do Norte do país.

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Voltando meia década

Wellington Santana nasceu e foi criado no Bairro Vila Ideal, onde a mãe, Maria Aparecida Luiz, e as irmãs, Julia e Ana Clara Luiz, moram até hoje. Em Juiz de Fora, o atleta passou pelas categorias de base de Tupi e Tupynambás na adolescência, após participar do programa social Segundo Tempo, que tinha sede em seu bairro natal. À medida em que foi envelhecendo e a trajetória no futebol pouco evoluía, as dificuldades financeiras foram ocupando a mente do jogador e se sobrepondo ao sonho da profissionalização. “Eu tive que trabalhar. Minha mãe passava muita dificuldade quando eu só treinava. Então eu tive que começar a trabalhar para ajudar aqui (em casa), senão a gente ia ter ainda mais obstáculos”, lembra Wellington sobre o período em que quase abandonou os gramados.

Wellington tenta auxiliar sua família e, principalmente a mãe, Maria Aparecida, sua maior incentivadora (Crédito: Arquivo Pessoal)

Quando tudo caminhava para um precoce fim de carreira, surgiram o ex-dirigente das categorias de base do Tupynambás, Claudinei Clementino, e o treinador Antônio Marcos Lima, o Marquinho. Os dois trabalharam com o goleiro no Baeta e, quando o arqueiro deixou o clube, também o levaram para o projeto social do Bairro Nova Califórnia para manter a evolução sob as traves. “Eu mudei de ideia porque o Claudinei e o Marquinho foram atrás de mim. Eu estava trabalhando e eles foram no meu trabalho, conversaram com o gerente. Na época, pintou a oportunidade para eu sair e ir para o Pérolas (Negras, clube do Rio de Janeiro), e acabou que fui para lá para correr atrás do meu sonho”, lembra.

Em 2017, Wellington chegou ao Pérolas Negras com novo fôlego na busca pela profissionalização. No segundo ano no Rio de Janeiro, o goleiro foi promovido definitivamente para a equipe principal, a adulta, onde disputou a terceira divisão do Campeonato Carioca por duas temporadas. Em 2020, surgiu a oportunidade para se transferir ao Porto Velho e disputar a elite no estado da Região Norte do país. “Confesso que me surpreendi pelo campeonato (em Rondônia). Eu pensei que seria de baixo nível, mas é muito alto”, relata.

“Foi uma montanha-russa, como o futebol é”

Da quase desistência até a profissionalização e o título estadual, recordar o caminho repleto de incertezas deixa o juiz-forano emocionado. “(A trajetória) foi uma montanha-russa, como o futebol é. Nesse esporte, às vezes você está lá embaixo. E, do nada, você está lá em cima. Mas a gente está caminhando, colhendo os frutos, e vamos trabalhar porque o ano vai ser muito bom para a gente”, conta, esperançoso.

Se há alguns anos a preocupação era em garantir o bem-estar da mãe, hoje o atleta já tem mais tranquilidade para pensar no desempenho dentro de campo, seguindo com o apoio fora dele. “Consigo dar assistência para ela ter as coisas dela e viver melhor. Porque ela sempre esteve do meu lado, sempre me ajudou. Ela sempre me motivou para nunca parar”, relata. “Ela, para mim, é tudo. É o grande amor da minha vida. Ela e as outras duas (irmãs do Wellington). São os amores da minha vida, e não tem preço ver elas sorrirem”.



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