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Salário de admissão em Juiz de Fora não chega a 2 mínimos

Cidade apresentou ligeira recuperação na geração de empregos entre janeiro e março, mas a baixa remuneração prejudica retomada do crescimento econômico

Por Gracielle Nocelli

16/05/2018 às 07h00 - Atualizada 16/05/2018 às 07h32

Juiz de Fora apresentou uma pequena recuperação na geração de empregos no primeiro trimestre deste ano, quando foram criados 422 postos de trabalho, saldo entre as admissões e demissões feitas no período. No entanto, o salário médio pago aos trabalhadores recém-contratados revela fragilidade no caminho para a retomada do crescimento da economia local. Em todos os setores econômicos, o valor não chega a dois salários mínimos. As informações foram obtidas pela Tribuna a partir do cruzamento de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e das Informações para o Sistema Público de Emprego e Renda (Insper) divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Outro desafio apresentado pelo levantamento se refere à falta de oportunidades no mercado de trabalho para quem possui nível superior. Apesar de ser polo estudantil, a cidade não consegue absorver a mão de obra especializada que forma.

“Precisamos construir uma complexidade em torno das nossas vocações, para que possamos agregar valor a esta cadeia produtiva e aumentar a massa salarial”, afirma Rômulo Veiga, secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo (Foto: Leonardo Costa)

O setor de serviços é o principal empregador da cidade, mantendo 73.707 postos de trabalho. Entre janeiro e março, também foi o que mais abriu vagas, um saldo total de 745, e o que ofereceu o maior salário de admissão: R$ 1.537,44. O valor corresponde a 1,6 salário mínimo, fixado em R$ 954. O comércio aparece em segundo lugar no ranking de empregabilidade, responsável por 32.579 empregos com carteira assinada. Neste primeiro trimestre, o saldo entre admissões e demissões ficou negativo em 687 vagas, mas os profissionais que ingressaram no setor tiveram uma remuneração média de R$ 1.191,93.

Ainda de acordo com a análise setorial, a indústria de transformação segue como a terceira principal atividade empregadora. Com um total de 19.139 trabalhadores, sendo 200 destas vagas criadas este ano, o setor oferece salário médio inicial de R$ 1.238,46. Já a construção civil possui a segunda maior remuneração média paga aos recém-contratados: R$ 1.343,96, o que corresponde a 1,4 salário mínimo. Com relação à geração de empregos, mantém 6.367 postos de trabalho. O número de vagas abertas no trimestre foi de 108.

As condições são semelhantes entre aqueles que ingressaram em atividades com menor participação na economia juiz-forana. Os trabalhadores contratados para atuar no ramo de serviços industriais de utilidade pública, como energia elétrica, água e saneamento básico, têm remuneração média inicial de R$ 1.334,33. Os ingressantes na área agropecuária recebem, em média, R$ 1.276,45. O salário mais baixo é verificado entre os admitidos no setor de extrativismo mineral: R$ 997,75.

Falta de oportunidade para profissionais especializados

Além dos salários baixos, outra lacuna identificada no mercado de trabalho juiz-forano é a falta de oportunidades para profissionais especializados. Embora a cidade possua muitas instituições de ensino técnico e universitário, responsáveis por atrair estudantes de todo o país, ela não oferece alternativas de reter estes talentos. Dentre as ocupações que tiveram maiores saldos de vagas neste primeiro trimestre, por exemplo, nenhuma exige nível superior de ensino. O maior quantitativo de empregos criados foi para a função de motorista de caminhão, um total de 203. Em seguida, na lista aparecem servente de obras (149), mecânico de manutenção de máquinas em geral (80), auxiliar nos serviços de alimentação (59) e recreador (57).

Até março, a cidade contabilizou 143.860 trabalhadores formais. A evolução do mercado juiz-forano na última década demonstra crescimento da geração de emprego entre 2008 e 2013, quando foram criadas mais de 27 mil vagas, e o número de empregados com carteira assinada aumentou 22%, passando de 124.171 para 151.550. A partir de 2014, com a crise econômica no país, a empregabilidade foi impactada. Desde então, a cidade fechou 7.690 postos de trabalho. (ver quadro)

Com consumo deprimido, retomada é adiada

“É melhor termos a oferta de empregos com salários menores do que não termos contratações, mas é uma situação que não sustenta a retomada de crescimento econômico”, destaca Fernando Perobelli, economista e professor da UFJF (Foto: Marcelo Ribeiro)

O economista e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Ricardo Freguglia, avalia a fragilidade do mercado de trabalho juiz-forano. “A economia está se recuperando aos poucos, com reflexos no número de contratações. A cidade possui uma vocação de que os setores que mais impulsionam a admissão de trabalhadores em suas cadeias produtivas são, em geral, vinculados à indústria.” Sobre o salário médio pago aos recém-contratados, o especialista explica como os baixos valores interferem no poder de consumo. “Este trabalhador ingressante se depara com uma maior restrição em seu orçamento. Desta forma, a alocação de recursos para os itens de primeira necessidade se torna mais importante.”

O baixo poder aquisitivo faz com que a renda seja direcionada para despesas essenciais e bens de consumo de menor valor agregado, conforme destaca o economista e professor da UFJF, Fernando Perobelli. “O trabalhador vai conseguir pagar as contas e comprar itens básicos. Vai haver um reflexo positivo na economia, mas na cadeia de bens com valores mais baixos, o que também é importante. No entanto, o efeito multiplicador é menor”, diz. “É melhor termos a oferta de empregos com salários menores do que não termos contratações, mas é uma situação que não sustenta a retomada de crescimento econômico.”

De acordo com Perobelli, a renda média dos recém-contratados é resultado tanto do período de crise quanto da estrutura econômica da cidade. “No atual cenário, quem tem o poder de negociação é o empregador. Com o desemprego em alta, o trabalhador aceita o salário menor. Mas além deste reflexo da crise, o mercado juiz-forano enfrenta uma peculiaridade que é a fragilidade estrutural da economia, pautada em comércio e serviços que exigem baixa qualificação. Seria importante uma política de atratividade de novos negócios que pudesse modificar este padrão.”

Para Freguglia, além do consumo deprimido, o cenário político também desafia a possibilidade de retomada. “O crescimento das contratações se dá por conta de uma expectativa favorável das empresas com relação ao aumento da produção. Porém, o fator político deve ser considerado, pois trata-se de um ano de eleições.” A incerteza com relação ao que vai ocorrer após o pleito pode interferir diretamente na confiança dos empresários, em especial, no segundo semestre.

Salário é apenas um dos custos para a empresa

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Representantes dos setores locais reconhecem que a remuneração oferecida ao trabalhador recém-contratado é baixa e apontam motivos econômicos e estruturais para a questão. “A cidade é composta majoritariamente por pequenas empresas, que têm faturamento menor e foram muito impactadas pela crise. As indústrias de vestuário e malharia, que já sofriam com a concorrência dos produtos chineses, viram a situação piorar muito nos últimos anos”, analisa o presidente do Centro Industrial, Leomar Delgado.

“Além disso, temos os encargos trabalhistas. A folha de pagamento pode ser vista por dois ângulos: para o trabalhador, ele recebe pouco; para o empregador, ele paga muito, pois não é só a despesa com salário. Na construção civil, por exemplo, a empresa precisa arcar com custos com segurança”, destaca. “Nesse período de crise, o empresário precisou reajustar o quadro de funcionários, e as demissões também são onerosas. Agora está havendo uma recuperação das contratações, o que é bom, mas ainda nesse contexto de dificuldade econômica.”

O presidente do Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio-JF), Emerson Beloti, destaca que o custo de admissão do trabalhador também é alto. “O salário é apenas uma parte. O empregador precisa seguir as regras trabalhistas de pagamento de INSS, FGTS e outros impostos que incidem sobre a contratação. Para a empresa, um funcionário que ganha R$ 1 mil custa praticamente o dobro do que ele recebe em salário”, diz. “A crise afetou a saúde financeira das empresas, que continuaram arcando com as mesmas despesas. Muitas não conseguiram, e precisaram demitir. Outras fecharam as portas.”

Para Beloti, a diferença de 22% entre o salário inicial oferecido pelo setor de serviços e o do comércio se dá exatamente pela composição de custos de cada setor. “O atacado e o varejo ainda têm a despesa com aluguel de lojas, enquanto muitos serviços podem ser realizado em pequenos espaços. A alíquota do ICMS também é maior do que a do ISSQN. Quem tem o custo menor consegue canalizar recursos para oferecer um salário mais atrativo.”

Secretário defende aprofundamento de vocações econômicas

Para o secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo, Rômulo Rodrigues Veiga, a evolução do mercado de trabalho juiz-forano revela a dinâmica de saída de um período de recessão. “Nós vivemos uma perda de empregos, a partir de 2014, que foi se aprofundando nos últimos anos, e agora dá sinais de recuperação. A gente esperava que esta reação positiva fosse mais forte, principalmente, depois da adoção de políticas econômicas do Governo, como o pagamento das contas inativas do FGTS e a redução dos juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom), mas o ritmo continua lento.”

Reconhecendo que os salários pagos ao trabalhador desafiam a retomada do crescimento, Rômulo afirma que é preciso “desenvolver um ecossistema de políticas públicas para aumentar a complexidade econômica local e, assim, produzir e distribuir riqueza.” Para ele, a vocação para serviços é algo natural da cidade. “O que não podemos é ter a nossa economia dependente de uma única atividade. Precisamos construir uma complexidade em torno das nossas vocações para que possamos agregar valor a esta cadeia produtiva e, consequentemente, aumentar a massa salarial.”

A iniciativa, segundo ele, passa por várias frentes. “É preciso uma atuação em conjunto. Precisamos aumentar a interação com a UFJF, a sociedade civil e a iniciativa privada. Já temos o Grupo de Trabalho, Desenvolvimento e Inovação na Mata Mineira (GDI-Mata), que coordena esta proposta de transferência de conhecimento e pesquisa para o desenvolvimento econômico”, destaca. “A cidade investe tanto na formação de ensino superior e ainda não consegue reter estes talentos. É uma realidade que precisa ser mudada. Dentro da nossa secretaria, foram realizadas ações como a lei de incentivo que reduz a alíquota do ISSQN para empresas de tecnologia e a validação da Câmara Técnica de Políticas Públicas para este setor, de forma a garantir a participação destes profissionais na elaboração de iniciativas de fomento. Mas este tipo de trabalho para transformar a estrutura econômica da cidade e desenvolver de forma mais profunda nossas vocações, com o auxílio da pesquisa e da tecnologia, requer ações em conjunto.”

Qualificação é alternativa para o trabalhador

Ainda com o desemprego em alta e a restrição de contratação com baixos salários, a orientação dos profissionais de recursos humanos é que o profissional não se deixe abater. “Acredito que o pior da crise já passou, e as pessoas estão mais otimistas, o que tem refletido na abertura de novas vagas. Enxergamos uma melhora gradual no mercado de trabalho”, afirma a presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos em Minas Gerais (ABRH-MG), Eliane Ramos. Ela diz que a tendência é que, neste primeiro momento, apareçam oportunidades que exijam menor qualificação. “É um momento de recuperação, então a recomposição dos quadros de funcionários acontece com cargos mais baixos.”

Eliane orienta que os profissionais em busca de emprego não desanimem. “A crise faz com que as empresas percebam a necessidade de serem mais produtivas com menos pessoas. Os empregadores agora buscam quem está motivado a fazer a diferença. É importante que o trabalhador olhe para própria carreira e trace metas pessoais e, principalmente, não desanime com as adversidades.” Segundo a especialista, a atualização dos conhecimentos e a construção de uma rede de contatos são muito importantes para qualquer profissional.

O CEO da Odgers Berndtson Brasil, empresa que atua na busca e consultoria de profissionais para grandes empresas, Luiz Wever, afirma que, desde o final de 2017, o mercado nacional vem retomando as contratações em cargos mais altos. “Atuamos em São Paulo e percebemos esta movimentação. Mas isto também tem ocorrido em cidades menores que são bastante produtivas. Os setores industrial, de educação e financeiro são os que começaram a oferecer oportunidades para diretorias e cargos de gestão.”

Ele alerta que o trabalhador que já estiver empregado também não deve deixar de se qualificar. “Este é um bom momento para desenvolver competências. Há pessoas que se amedrontam com as dificuldades e se sentem inseguras com medo de serem demitidas, há outras que decidem que vão aproveitar as circunstâncias para mudar de vida. Esta segunda postura é, sem dúvida, a melhor escolha. Estudar um novo idioma, realizar um curso de liderança e aprimorar as competência são atitudes necessárias não só para manter o emprego, mas para o sucesso da carreira profissional.”

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