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PJF interrompe realização de pesquisa de preços da cesta básica

De acordo com especialista, monitoramento auxilia na tomada de ações para buscar reverter alteração dos valores


Por Leticya Bernadete

02/05/2021 às 07h00

As pesquisas semanais do Guia do Consumidor e dos preços da Cesta Básica e do leite tipo C foram interrompidas temporariamente em Juiz de Fora. Os últimos levantamentos foram publicados no dia 4 de março deste ano e, desde então, não houve publicação de novas pesquisas. De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Inclusivo, da Inovação e Competitividade (Sedic) da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), a Administração municipal “trabalha na reformulação dos levantamentos, com retorno previsto para o mês de junho”. A pasta, entretanto, não informou por que a realização das pesquisas foi interrompida. Especialista ouvido pela Tribuna aponta que o acompanhamento dos preços pode auxiliar na identificação dos fatores que estão ocasionando a alteração dos valores, bem como nas ações e políticas públicas para lidar com o cenário.

A evolução dos custos na economia pode ser causada pela lei da oferta e demanda. Por exemplo, uma situação externa pode ocasionar na queda de produção e, consequentemente, na oferta; ou um aquecimento econômico pode levar as pessoas a consumirem mais, aumentando a demanda. De acordo com o economista e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Weslem Faria, o primeiro caso exemplificado é chamado de inflação de custo e, o segundo, inflação da demanda. De toda forma, as pesquisas de preço auxiliam a monitorar o que está ocasionando esse aumento.

“Uma pesquisa de cesta básica já dá bastante indício do que está acontecendo. Como a cesta básica é formada por produtos específicos, ou seja, são produtos de primeira necessidade para as famílias, alguns desses produtos conseguem dar um bom panorama do que está acontecendo, principalmente no cenário interno como um todo, mas também no cenário externo”, explica Faria.

Com isso, os levantamentos podem auxiliar, ainda, no planejamento de ações de políticas públicas, em resposta a aumentos inesperados de preço. “É possível fazer uma concessão de benefícios, por exemplo, com transferência para famílias de baixa renda. Se o Governo tiver um pouco mais de margem para influenciar o preço, ele pode até praticar algum tipo de política que possa diretamente afetá-lo, como dar subsídios para produção na forma de crédito ou diminuir imposto sobre a circulação daquele bem ou mesmo sobre a importação. Se você diminui, você consegue aumentar a oferta interna daquele bem”, exemplifica. Este último fator foi o que ocorreu no ano passado com o preço do arroz. O valor do produto disparou e, para lidar com a questão, o Governo federal zerou a alíquota de importação para facilitar a entrada do bem na economia doméstica.

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Pesquisas podem apontar se aumento de preços dos alimentos está ligado à inflação de custo ou da demanda, por exemplo (Foto: Fernando Priamo)

País vive período de estagflação

No caso da cesta básica, por se tratarem de itens essenciais na alimentação das famílias brasileiras, os preços dos produtos impactam mais diretamente naquelas de baixa renda. Assim, o monitoramento dos valores indica se estas famílias estão tendo acesso a esses produtos, especialmente no contexto atual. De acordo com o professor da UFJF, atualmente, passamos por um período de “estagflação”, ou seja, quando “a economia está doente”. A pandemia da Covid-19 levou a uma alta taxa de demissões e, além disso, os preços de produtos seguem se elevando. Conforme Faria, esta escalada nos preços ocorre, especialmente, por fatores externos.

“Produtos que compõem a cesta básica, como óleo de soja, feijão, arroz, ou produtos derivados do milho, estão valorizados no mercado externo desde o ano passado. Todos esses produtos primários aumentaram o preço porque houve aumento de demanda externa, não do Brasil, necessariamente”, explica. “Além disso, o dólar valorizou demais no ano passado e esse ano também. O real foi a moeda que mais perdeu valor frente ao dólar de todas as moedas mundiais durante a Covid-19. Quando a nossa moeda está desvalorizada, os produtores daqui se sentem motivados a vender lá fora, e não vender aqui dentro porque lá fora está pagando muito mais.”

Além disso, diante de uma crise sanitária como a da Covid-19, há uma busca maior das pessoas pela alimentação. Um exemplo citado pelo professor Weslem é o dos índices de mobilidade do Google, que mostram que, entre entre 15 de março e 15 de abril deste ano, o movimento nas farmácias e supermercados cresceu 8%. “As pessoas perderam renda, mas o pouco da renda que têm, estão gastando em alimentação e medicamentos. Só que a população como um todo perdeu renda, e isso impactou de forma geral todos os tipos de demanda da economia, inclusive por alimentos”, afirma.

“É muito importante esse monitoramento da cesta básica justamente para saber como as famílias mais pobres vão ter acesso a esses bens. É muito importante que a Prefeitura continue fazendo essa pesquisa ou algum tipo de monitoramento de preços porque, além disso, ainda pode ter situações de que às vezes os supermercados acabam aproveitando e praticando preços abusivos. Isso tem que ser monitorado para saber se o que está acontecendo localmente é o movimento que tem acontecido no restante do Brasil”, finaliza.

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