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Livro defende novo olhar sobre Princesa Isabel

Historiadores lançam em Juiz de Fora livro de mais de 800 páginas sobre Princesa Isabel, apresentando vigor e potência da personagem histórica e defendendo sua força para assumir terceiro reinado, o que não se tornou realidade por conta do que chamam de “golpe” da República


Por Mauro Morais

30/10/2019 às 07h00- Atualizada 30/10/2019 às 07h40

Vivendo no Castelo d’Eu, na Normandia, Isabel, a princesa, recebeu o jornalista Assis Chateaubriand. Eram os anos 1920, ela já não gozava de boa saúde e sofria a morte de seus dois filhos, Antônio e Luís. Assis, em toda a sua urgência, perguntou à filha de Dom Pedro II se ela previa o que viria a acontecer logo após a assinatura da Lei Áurea. Esperava que ela fosse responder que sim, como costumeiramente se ouvia. Isabel surpreendeu e respondeu ao jornalista que acreditava ter sido aquele um gesto recomendado a uma pessoa como ela, com as responsabilidades que lhe cabiam. “No passado de todos nós, existem diversos futuros. E um dos futuros do passado é que, após a abolição da escravatura, viria o terceiro reinado. A tese apresentada em todo o livro é que se o reinado fosse feito, a monarquia teria continuado. A monarquia não caiu de podre como disseram”, avalia o historiador Bruno da Silva Antunes de Cerqueira, justificando a distorção na narrativa oficial: “Os livros de história explicaram pessimamente porque os autores eram homens e republicanistas.” Em “Alegrias e tristezas – Estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil” (Editora Linotipo Digital), escrito por Bruno e pela também historiadora Maria de Fátima Moraes Argon, os autores demonstram, com base em documentos oficiais, que a família Bragança cedeu o poder na expectativa de retornar. “Eles acreditavam que o povo poderia escolher qual modelo preferiam. Isso não ocorreu”, pontua Bruno, assinalando que em 1933, quando o assunto já parecia vencido, foi dada a oportunidade. “O próprio termo proclamação da República é fictício. É um termo cunhado por republicanistas. O que houve foi um golpe de parte do exército. Se o povo fosse chamado a votar, daria maioria à monarquia”, assegura o pesquisador, partidário das teorias sociológicas de que a república, de fato, nunca se realizou.

Os mesmos que redigiram a história, segundo os pesquisadores, foram os que reduziram a importância da figura de Isabel na narrativa. “O livro chama atenção para o fato de que a historiografia não deu conta da biografia completa dela. Tentamos preencher essas lacunas tendo a autobiografia como fonte”, observa Bruno, afirmando que ela representa justamente a personagem sobre a qual a república foi contrária. E os documentos comprovam isso, assegura Maria de Fátima, que por 38 anos trabalhou como historiadora do Museu Imperial, em Petrópolis, e aposentou-se em dezembro passado. “Sempre atuei com a documentação da família imperial. Meu trabalho foi baseado nessas fontes. À medida que eu ia tendo contato com esses documentos, ia percebendo uma Isabel muito diferente da que conhecia pelos livros. A primeira coisa que saltou aos meus olhos foi perceber que ela não era aquela pessoa despreparada para o governo, como a literatura coloca. Nessa documentação, eu via de que maneira ela via esse mundo, quais os autores ela lia, a relação dela com o pai, se ela lia os intelectuais e como isso se dava. Isabel era, sim, preparada. E, claro, a condição dela de mulher fez com que precisasse articular para conseguir um espaço. E ela acabou sendo vitoriosa nesse aspecto”, defende a pesquisadora, que se utilizou dos diálogos entre Isabel, o pai, o imperador Pedro II, a mãe Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias, o marido Conde d’Eu e a preceptora Condessa de Barral. “Eu queria entender nesse diálogo íntimo com a família de que maneira ela se revelava e se escondia”, pontua Maria de Fátima.

Em quase 900 páginas, recheadas por reproduções de fotografias, correspondências e documentos, os autores expandem as próprias memórias de Isabel. “Isabel escreveu um texto chamado ‘Memória para meus filhos’, que é a dita Proclamação da República. Também escreveu, em 1808, uma autobiografia que se chamava ‘Alegrias e tristezas’ e de onde tiramos o nome para este livro. No meu caso, além da reflexão dos textos autobiográficos, fiz um trabalho sobre teoria e historiografia dos textos sobre Isabel, uma reflexão teórica e metodológica sobre tudo o que escreveram sobre ela à luz dos textos dela”, explica Bruno da Silva Antunes de Cerqueira, que ao longo de sua investigação buscou compreender o que os autores disseram dela e o que ela disse dela. “Os autores que escreveram sobre ela eram todos homens. Quando, finalmente, autoras mulheres começaram a falar sobre ela, já na década de 2000, fizeram reflexões que reificaram olhares machistas sobre Isabel”, observa o pesquisador, apontando para narrativas masculinas que reduzem a princesa, mostrando-a como uma pessoa sem grande tino, sem grande perspicácia e dotes para governar. “Não é bem assim. As pessoas exageraram ao tentar compreender essa personagem que tem uma personalidade muito peculiar. Ela é uma mulher muito idealista e ciosa do papel que ela tinha”, diz.

‘Isabel era uma pacifista’

Segundo historiadora Maria de Fátima Argon, “Isabel desde sempre foi contra a escravidão”. (Foto: Reprodução Insley Pacheco/Acervo Museu Imperial)

De acordo com Maria de Fátima Moraes Argon, a herdeira do trono mostrou-se muito lúcida numa sociedade na qual à mulher cabia o lugar de subordinada. “Para se ter uma ideia: na primeira viagem que ela faz à Europa, em janeiro de 1865, ela não estranhou as etiquetas e o comportamento europeus, porque ela já tinha sido educada pela preceptora, que conhecia esse mundo. A Isabel viajou à Europa muito antes do pai. Ela conhecia todo esse universo e conseguiu, desde cedo, entender que papel ela teria no mundo, compreender o papel que lhe cabia. Muitos dizem que Isabel não conseguia diferenciar o pai e a mãe, entendendo-os como uma única pessoa. Isso não é realidade. Ela sabia muito bem o que cabia a cada um deles”, avalia Maria de Fátima, indicando que a princesa estudou até o ano de seu casamento com a Condessa de Barral. “Mas sua educação mesmo acontece depois desse período. O Dom Pedro II dizia que estudou muito nos anos anteriores para que ela pudesse estudar. O pai dela, então, vai ser seu grande mentor.”

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Descontruindo a ideia de uma mulher desconectada com seu tempo e com seu lugar, “Alegrias e tristezas” também revela uma Isabel íntima e permanentemente alinhada às causas das minorias. “Isabel desde sempre foi contra a escravidão”, reforça Maria de Fátima, recusando a teoria de que a abolição seria um gesto tomado por conveniência. “Se você ler as correspondências dela, percebe que ela é contra tudo que contraria os direitos humanos. Ela era contra a pena de morte. Mas sabia que qualquer coisa que pudesse fazer ou dizer iria afetar a imagem do pai, o imperador o Brasil. Desde o início ela articula com as amigas uma forma muito sutil de não aparecer publicamente sua posição, mas agia pela abolição. Ela tinha muito cuidado, acompanhava e ajudava escravos fugidos. Ela assinou a Lei Áurea em 1888, mas antes disso viajava pelo país e aonde ia sempre eram alforriados escravos”, observa a pesquisadora. “Isabel era uma pacifista. Ela nunca quis uma restauração com sangue dos brasileiros”, acrescenta Maria de Fátima, pontuando que mesmo após sair do Brasil, manteve-se caridosa, atuando em função do Brasil. “Mesmo na França ela vai falar o tempo todo do Brasil e defender as obras pelas quais tinha lutado, como a da Catedral de Petrópolis (onde estão as tumbas dela, dos pais e do marido).”

Último registro da família imperial no Brasil, em 1889. Da esquerda para a direita: Teresa Cristina, Antônio, Isabel, Pedro, Pedro Augusto, Luís, Gastão e Pedro de Alcântara. (Foto: Reprodução Otto Hees/Acervo Museu Imperial)

Religiosa e otimista

Religiosa, Isabel escreve o nome de Deus com frequência em suas cartas. “Ela era uma mulher altamente devotada a Deus. Era muito otimista, via tudo pelo lado bom. Ao mesmo tempo, essa situação dela de herdeira, de ter que viver no mundo dos homens, onde ela não era muito aceita, trazia muita tensão para ela. Isabel era uma conservadora e não era uma fanática religiosa. Ela via as coisas boas da vida. Isabel, é curioso, era muito bem humorada. E muito teimosa e autoritária. Temos que entender que era uma mulher do século XIX e estava presa e amarrada a uma série de situações”, sustenta a historiadora aposentada do Museu Imperial, indicando, ainda, a boa relação da princesa na família. “Muitos falam que ela caiu como filha depois do casamento, colocando o pai em segundo plano, com o marido como o primeiro em sua vida. Dona Isabel tinha uma admiração e um respeito profundo por Dom Pedro II. E era a única pessoa que fazia críticas fortes a ele. Ela se posicionava. Com o marido, eram muito apaixonados. Eles trabalhavam juntos. Ela diz, em uma das cartas, que era muito bom ter alguém para fazer tudo junto. Acho que na relação deles ela acabava sempre impondo sua vontade. Não que ele não tivesse voz ativa, mas porque ela conseguia se impor.”

Registro de fôlego sobre a mulher que por três momentos governou o Brasil durante a monarquia, “Alegrias e tristezas” é trabalho apaixonado, de pesquisadores intimamente relacionados com a retratado. Maria de Fátima, além de dedicar grande parte de sua vida à pesquisa do Museu Imperial, foi presidente da instituição em 2009. Já Bruno idealizou com o padrinho e professor Otto de Sá Pereira o Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora, fundado 2001 no salão da Igreja do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Rio de Janeiro. O livro é também um trabalho apaixonante, visto que amplia a imagem da única Isabel do Brasil. “Acho que ela deveria ser mais valorizada, porque foi uma mulher que lutou muito pelo bem do país. A Isabel pensava no bem estar coletivo, no público. Hoje ela seria uma defensora de todas as minorias. Ela teve um papel fundamental naquele momento, naquela sociedade. Hoje ela defenderia todos os direitos dos homens”, sugere Maria de Fátima, e logo conclui: “Ela soube muito bem trilhar seu próprio caminho.”

ALEGRIAS E TRISTEZAS
Lançamento do livro de Bruno da Silva Antunes de Cerqueira e Maria de Fátima Moraes Argon nesta quarta (30), às 19h, no Salão de Atos do Museu do Crédito Real (Avenida Getúlio Vargas 455 2º andar – Centro).

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